GRAVIDEZ

Fatores autoimunes

13:07 · 16.01.2011
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O momento é delicado, mas nem todo profissional de saúde lida com a situação a contento. Pelo menos para o casal. Na opinião do médico Marcelo Cavalcante, mestre em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), a ocasião requer cautela porque, em geral, o casal não se sente à vontade para falar sobre o assunto com terceiros. Mesmo porque, para quem está à margem do caso, a perda não requer tanto sofrimento. Já quem lida com esse cotidiano é comum o julgamento de que só conhece essa dor quem passa por ela.

"É semelhante, entre os médicos, ao tema infertilidade. Muitos encaram com naturalidade extrema e acabam não valorizando o caso em particular. Por isso muitos não investigam, não buscam as causas e, assim, as pacientes se sentem desamparadas", explica o médico.

O problema é que, com a recorrência após o segundo aborto, os riscos para a mulher aumentam. Novas patologias podem aparecer, inclusive no útero e nas trompas, o que dificultaria ainda mais uma futura gravidez.

Até cerca de dois anos atrás, o protocolo da Organização Mundial da Saúde (OMS) era que a investigação deveria ocorrer após a terceira perda consecutiva. De 2008 para cá, contudo, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva recomenda pesquisar as causas do aborto recorrente já a partir da segunda perda. O problema é que a maioria dos especialistas continua seguindo as recomendações do protocolo antigo, que considera aborto recorrente somente após três casos consecutivos.

Após cada perda

"As causas para aborto entre casais com duas perdas ou daqueles com três são semelhantes. Por isso é que, na prática, o ideal é instituir o tratamento a partir da segunda. Até porque a possibilidade de haver uma terceira é muito grande. E quanto mais precoce for a investigação, melhor, tanto para a saúde física do casal como para a saúde mental de ambos", afirma Marcelo Cavalcante. Esse período de pesquisa é, em média, de três a quatro meses, destaca.

De todo modo, Cavalcante considera que o importante, em qualquer situação, é seguir orientações médicas antes de engravidar. Tal conduta, segundo ele, já evita um grande número de perdas. Nesse processo, são avaliados vários aspectos, que vão desde a idade do casal e uso de álcool e medicamentos à adoção de uma dieta equilibrada e manutenção de ambiente de trabalho saudável.

Feito ou não esse tipo de precaução, se a perda acontecer a indicação é pesquisar sob diversas vertentes, sendo o primeiro passo procurar um profissional especializado. "Existem medidas simples que devem ser consideradas, como tomar vacina contra H1N1, tomar ácido fólico, tratar doenças sexualmente transmissíveis, diabetes, distúrbios na tireóide", detalha. Segundo Cavalcante, cuidados como esses vão refletir lá na frente, no primeiro mês de vida do bebê.

As causas do aborto espontâneo, como informa o médico, que faz parte do Núcleo de Imunologia da Reprodução Humana (rede nacional que reúne médicos de vários estados), as alterações genéticas são responsáveis por quase metade dos abortos espontâneos. Por um dos vieses de investigação é a pesquisa genética através do exame cariótipo do casal e/ou do material resultante do aborto. Mas outras causas podem estar relacionadas a malformações congênitas, anomalias na placenta, no cordão umbilical e nas membranas.

Marcelo Cavalcante informa ainda que o meio ambiente pode influenciar de forma decisiva nesse processo, assim como detalhes relacionados à saúde da mãe. Aí se incluem fatores hormonais e doenças ginecológicas, desnutrição, obesidade, doenças autoimunes, síndrome antifosfolípide e infecções.

Entrevista

Embora seja espontâneo, o aborto também precisa ser humanizado

Como a mulher que sofre aborto espontâneo deve lidar com a situação?

Não se culpar e buscar orientação e explicação médica, pois dessa forma evita-se autoregras, como: "Se eu tivesse parado de trabalhar, então isso não teria ocorrido"; "Se eu não tivesse aquela relação sexual, então tudo estaria bem agora". São situações que podem fazê-la sofrer além da própria perda de seu "bebê".

Como se dá esse choque emocional, levando em conta que a mulher estava esperando a vida, não a morte?

Essa perda implica em uma mudança na vida da mulher, extremamente estressante, pois se tratava de "alguém" de apego.

Como se deve lidar com esse tipo de luto?

Esse luto processa-se da mesma forma. O luto é uma reação à perda. Num primeiro momento, o estresse da perda faz com que vários sistemas da mulher sejam ativados para que ela possa enfrentar a situação. Normalmente nessa fase nega-se a perda e enfrenta-se a situação estressante. Em seguida, com sofrimento e pesar, a mulher passa a aceitar a perda e a se reorganizar e readaptar à vida.

Como os profissionais de saúde devem se preparar para apoiar a paciente?

Esse luto pode ser muito demorado e com complicações que afetam o desempenho de diferentes atividades dessa mulher. Os profissionais de saúde devem estar atentos a esses sintomas e avaliarem a necessidade de acompanhamento.

De que tipo de apoio ela precisa?

Inicialmente da família e do ginecologista que a conhece, que poderá esclarecer possíveis causas do aborto. Se necessário, a ajuda de um psicólogo.

O homem também deve receber algum tipo de suporte emocional para enfrentar a perda?

Sim. Podem servir de suporte estar junto da família, conversar com outras pessoas que também vivenciaram o aborto espontâneo e com profissionais da saúde. O tratamento psicológico será necessário se ele manifestar complicações do luto como: transtornos de ansiedade, depressão ou complicações que afetam o desempenho de diferentes atividades.

Como o aborto espontâneo deve ser humanizado e não tratado apenas sob aspectos técnicos?

Os profissionais de saúde terão que estar atentos ao fato de que apesar de ser "feto", se trata da perda de "alguém" de apego.

Como a sociedade costuma tratar essas situações de luto?

Reações diversas como de culpabilidade a compaixão são observadas.

O homem e a mulher devem compartilhar a situação com outras pessoas para enfrentar melhor o problema? Como fazer para superar a perda?

Sim. Trocar informações com outras pessoas que já vivenciaram o aborto espontâneo é importante, principalmente se já estiver ocorrida uma gravidez de sucesso depois do aborto, como na maioria dos casos.

Luanna Rodrigues Cavalcante
Psicóloga clínica

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