Labirintite

Exercícios controlam tonturas e vertigens

01:27 · 19.02.2013
Laboratório de Fisioterapia do Nami passa a oferecer serviço especializado em reabilitação vestibular

Você está imóvel, mas a sensação é de que tudo - ou quase tudo - gira ao redor do seu corpo, ou que este roda em relação ao ambiente. Facilmente perde o equilíbrio, pisa no vazio e, em alguns casos, cair é quase inevitável, além de sentir náuseas, sudorese e aceleração do ritmo cardíaco e respiratório.

O exercício exige boa função labiríntica na condição de apoio flutuante com a bola no chão. Ele visa reforçar medidas de prevenção de quedas FOTO: MARÍLIA CAMELO


Essas são algumas das sensações vivenciadas por quem sofre de labirintite, termo usado para conceituar uma inflamação no ouvido interno (labirinto), mas que é popularmente empregado para definir problemas relacionados aos sintomas de tontura e vertigem. O labirinto é um conjunto de estruturas formado pela cóclea (responsável pela audição) e pelo aparelho vestibular (responsável pelo equilíbrio).

A labirintite acontece, principalmente, após os 40, 50 anos, mas pode manifestar-se em todas as idades, inclusive nas crianças. É frequente pessoas que convivem com a tontura por meses e até anos, perambulando de clínica em clínica, de especialista em especialista, embora seus exames não apresentem qualquer alteração. Há casos de pacientes que podem ter sofrido uma genuína agressão vestibular no passado, a qual não é evidenciada em testes vestibulares convencionais.

Manobras

Os exercícios na reabilitação vestibular vem sendo utilizados há mais de 70 anos, embora muitos profissionais ainda desconheçam sua indicação. A eficácia da cinesioterapia (terapia pelo movimento) representa um potencial benefício no auxílio às intervenções farmacológicas e até cirúrgicas, indica a fisioterapeuta Eluciene Carvalho, graduada pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

A boa notícia é que o especialista inicia, em abril próximo, um projeto pioneiro no Estado denominado "Sem Tontura", destinado a atendimentos de fisioterapia na reabilitação vestibular (que engloba problemas de tontura e desequilíbrio corporal). O serviço começa a ser realizado no Ambulatório de Fisioterapia do Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami) da Unifor, mas a previsão é de que, a curto prazo, o projeto seja ampliado também para o Ambulatório de Fisioterapia da UFC.

"Os exercícios são utilizados em pacientes com disfunções vestibulares visando a recuperação do equilíbrio corporal. Eles são personalizados de acordo com o problema de cada portador" descreve. O tratamento observa também outras queixas associadas à tontura como as instabilidades posturais, dores musculares, estresse e ansiedade.

Eluciene reforça a necessidade de cada caso ser avaliado minuciosamente, pois existem diversos protocolos que podem ser empregados de forma isolada ou associada, em partes ou completa. A atuação do fisioterapeuta na reabilitação vestibular é regulamentada pelo Conselho Federal de Fisioterapia e em conformidade com o Guidelines to Physical Therapy Practice.

Uma das dificuldades para diagnosticar a labirintite está no fato do termo tontura ser associado a vários sintomas, além de existirem mais de 300 causas de problemas relacionados. Assim, mesmo que os exercícios apresentem respostas satisfatórias, há situações em que o diagnóstico requer a intervenção direta de outras especialidades médicas.

Investigação

O cardiologista Ronaldo Vasconcelos Távora lembra que qualquer redução no fluxo sanguíneo para o cérebro pode ocasionar tontura ou desmaio. Atrelado a isso estão as arritmias cardíacas, infarto do miocárdio e, em alguns casos, obstrução de válvulas cardíacas. Na maioria das vezes, desmaios e tonturas referem-se ao sistema cardiovascular; em menor número, a um problema neurológico. "Não se deve associar a tontura a uma doença psicossomática. É preciso investigar, pois a somatização é um diagnóstico por exclusão".

Para o otorrinolaringologista Luiz Ricardo Martan, a fisioterapia labiríntica deve ser usada para tratar todos os tipos de tonturas, principalmente as ocasionais. Mas o médico não indica a técnica quando o sintoma é persistente. "Pode significar que o labirinto funciona abaixo do nível desejado. O tratamento da causa depende do diagnóstico. Há casos em que tontura evidencia colesterol elevado".

Os sintomas nem sempre sugerem labirintopatia. "A pessoa pode ter um problema circulatório no pescoço ou indicar pré-síncope, hipotensão postural e doenças cardiocirculatórias", diz o geriatra Charlys Barbosa, da Faculdade de Medicina da UFC. "É preciso uma investigação cuidadosa. Devido à pressão arterial mal controlada, o paciente pode ter vertigens", conclui.

Condutas

Manobra de Epley I

A fisioterapeuta gira a cabeça do paciente. É uma manobra utilizada para tratar a vertigem posicional paroxística benigna e tem o objetivo de reposicionar o cristal para o seu local de origem.

Manobra de Epley II

Como o labirinto é formado por diferentes canais, a manobra de Epley pode variar, atingindo até 180º. O resultado é o mesmo, ou seja, possibilitar o fim da tontura e do mal- estar ocasionado por este tipo de vertigem.

MAURÍCIO VIEIRA
ESPECIAL PARA O VIDA

Dieta é determinante

Quais alimentos estão relacionados à incidência de labirintopatia?

Entre os que podem aumentar os sintomas estão os ricos em açúcar refinado, como refrigerantes e bebidas açucaradas, em especial, as industrializadas. Os episódios de labirintite também podem ser potencializados com a ingestão de bebidas alcoólicas, de itens com função estimulante gerado pela presença de cafeína (café, refrigerantes à base de cola e chá mate) e de alimentos ricos em gordura, a exemplo de empanados, carnes com gordura exposta e os queijos amarelos.

Quais tipos de substâncias esses alimentos contêm e por que ocasionam tontura?

Porque alteram a pressão arterial e a circulação sanguínea. O álcool promove hipotensão levando à tontura. O excesso de gordura (colesterol, triglicerídios) pode gerar a formação de placas de ateroma e diminuir o calibre dos vasos sanguíneos e assim contribuir para uma circulação ineficiente, aumentando os sintomas da labirintite. A cafeína funciona como um estimulante, piorando os quadros de tontura e náuseas.

E qual seria uma dieta adequada para evitar a labirintite?

Para minimizar os sintomas são indicadas frutas, verduras e legumes, trocar cereais refinados por integrais, evitar o consumo de café e chá mate e preferir os descafeinados. Também não consumir refrigerantes, diminuir a ingestão de gorduras em geral, especialmente as de origem vegetal. Fazer refeição a cada três horas, evitando o jejum prolongado, assim como não consumir bebidas alcoólicas.

No caso de uma pessoa sentir tonturas e resolver ter uma dieta saudável sem consultar um nutricionista. Até que ponto esta pode ser uma decisão coerente?

Atualmente existem muitas fontes de informação (não científicas) sobre como adotar uma dieta saudável e quais alimentos escolher, entre outros dados. Entretanto, o acompanhamento com um nutricionista é o mais indicado, pois o profissional, além de saber quais itens são realmente mais saudáveis, irá organizar os horários das refeições e a quantidade a ser ingerida de cada tipo de alimento, ou seja, ele saberá indicar quais as melhores escolhas a serem feitas.

Sara Moreira
Doutoranda em Nutrição e Saúde Pública (USP) e Docente da Unifor

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