Pronutra

Excesso como válvula de escape

23:32 · 18.03.2013
Distúrbios alimentares são mais comuns em mulheres e trazem como estímulo os padrões de beleza

Saborear os alimentos é um ato prazeroso para muitos. No entanto, há quem tenha na comida algo perturbador. É quando os hábitos alimentares extrapolam o bom senso e se tornam distúrbios. Anorexia, bulimia nervosa, transtornos alimentares não específicos e da compulsão alimentar periódica (TCAP) são as patologias mais frequentes.

Após comer compulsivamente, o sujeito adquire o sentimento de culpa. Algumas vezes, busca minimizá-lo com métodos compensatórios (indução ao vômito, uso de laxantes e diuréticos). Ou ainda restringe a alimentação FOTO: ALEX COSTA


Para oferecer assistência a essas pessoas, o curso de Nutrição da Universidade de Fortaleza (Unifor) possui o Programa Interdisciplinar de Nutrição aos Transtornos Alimentares e Obesidade (Pronutra). Por meio de uma equipe composta de nutricionistas, psicólogos e psiquiatras, a iniciativa direciona seus atendimentos a adultos e adolescentes a partir de 12 anos.

No entanto, segundo Andreza Penafort, coordenadora do Ambulatório de Nutrição do Nami (Núcleo de Atenção Médica Integrada), o serviço já atendeu crianças, pois Fortaleza não dispõe de um atendimento direcionado para esta faixa etária.

"Predisposições genéticas, socioculturais, vulnerabilidades biológicas e psicológicas afetam não só a alimentação, mas o emocional do sujeito. É comum que os pacientes tenham comorbidade psiquiátrica (duas doenças associadas entre si), além dos transtornos alimentares (de ansiedade, humor, personalidade e obsessivo compulsivo). Daí a necessidade de uma equipe para atendê-los de forma integral", descreve.

Interação de fatores

O contexto, como uma família desestruturada ou a preocupação constante em seguir uma dieta muito restritiva, por vezes, torna-se incentivador para manifestar os distúrbios. "Esse comportamento isolado não desencadeia o problema. É preciso interação dos fatores de risco e eventos que precipitam a ocorrência", ressalta.

A anorexia nervosa, explica a nutricionista Ana Paula Queirós, ocorre em pessoas que, mesmo muito magras, sentem-se gordas. Com a restrição alimentar, deixam de menstruar. Na bulimia nervosa, a pessoa tem peso adequado ou até sobrepeso. O sintoma é a compulsão alimentar (descontrole diante da comida), seguida de culpa. Para minimizá-la, surgem métodos compensatórios como indução ao vômito, uso de laxantes e diuréticos. Em ambos os casos, há distorção da imagem corporal.

Há ainda o TCAP, comum em obesos, e pode ocorrer em indivíduos com peso saudável. A compulsão alimentar implica em um sentimento de culpa. "Em todos os transtornos, há grande sofrimento do sujeito e da família", completa.

Conforme a psicóloga Raquel Barsi, o ambulatório atende, em sua maioria, pacientes do sexo feminino. "Isso se deve ao fato de elas procurarem ajuda com maior frequência, além de estarem mais suscetíveis a desenvolver transtornos, devido à influência da mídia que prega o ideal do corpo magro e o estímulo à adesão de dietas da moda".

FIQUE POR DENTRO

Entre obter o diagnóstico à recuperação

Para desfrutar do atendimento do Pronuta, é preciso receber o diagnóstico de transtorno alimentar e ser usuário cadastrado no Sistema Único de Saúde (SUS). O paciente pode ser encaminhado por um serviço de saúde, ou buscar ajuda por conta própria, caso suspeite possuir algum distúrbio alimentar. A inscrição pode ser realizada pessoalmente no ambulatório de Nutrição do Nami, na Unifor, ou pelo telefone (3477.3621). Na fila de espera, a pessoa será submetida à uma avaliação pela equipe interdisciplinar. Reconhecido o transtorno, inicia-se o tratamento.

As consultas individuais ocorrem semanalmente, nas tardes de segunda e quarta-feira, porém a frequência é determinada pela evolução do paciente ao tratamento. Conforme o psiquiatra Davi Martins, comparecer regularmente às consultas contribui para um maior progresso. "Há pessoas que permanecem seis meses enquanto outras, um ano ou mais. Cada paciente responde ao tratamento de forma diferente. O que se sabe é que quanto antes procurar ajuda e contar com a colaboração da família, melhor o prognóstico", diz.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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