Impacto na saúde

Estudo revela o retrato da psoríase no Brasil

00:00 · 28.10.2013

Análise preliminar, feita com 877 pacientes, aponta que 50% têm forma moderada e grave da doença

A pele fica ressecada e as manchas avermelhadas, que não demoram a aparecer, em alguns casos chegam a sangrar. Para muitos, a psoríase é apenas uma doença de pele. As marcas dela na vida dos portadores, no entanto, revelam-se mais profundas. O diagnóstico da doença, que afeta cerca de 3% da população mundial, vem geralmente acompanhado da falta de informação e do preconceito. Conviver com o tratamento torna-se, então, um aprendizado diário e a busca por qualidade de vida, uma constante.

José Célio, presidente da ACEPP, convive há 37 anos com a psoríase. Sua missão é informar: "Quando uma pessoa entra em um ônibus, ninguém senta na cadeira vizinha. Tudo por falta de informação", diz foto: helosa araújo

A psoríase é uma doença inflamatória e crônica, frequente entre homens e mulheres dos 20 aos 40 anos, podendo ser diagnosticada em outras fases da vida. As lesões rosadas ou avermelhadas surgem, geralmente, recobertas por escamas esbranquiçadas que podem atingir todo o corpo, especialmente os joelhos, cotovelos e o couro cabeludo.

"Quanto maior a gravidade, mais impacto a doença pode causar na qualidade de vida do paciente", afirma o dermatologista Ricardo Romiti, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e um dos coordenadores do estudo Appisot (Avaliação da Gravidade da Psoríase em Placas em Brasileiros em Acompanhamento Ambulatorial em Centros de Referência).

Estudo Appisot

No Brasil, segundo a ONG Psoríase Brasil, existem mais de 5 milhões de psoriáticos. Para conhecer quem são e como vivem os portadores, a Jansen Farmacêutica, em parceria com 26 Centros de Referência no diagnóstico e tratamento da doença, realizou o estudo. O Appisot abrange 1.124 portadores de psoríase em placas (no total, são oito tipos da doença) e que recebem tratamento acompanhados por dermatologistas.

Esta é a primeira pesquisa epidemiológica dessa natureza realizada na América Latina. Foram ouvidas pessoas com idade média de 48 anos e diagnosticadas com a doença há pelo menos 14 anos.

O corpo todo adoece

Como uma doença sistêmica e autoimune, ela atinge, no entanto, o organismo como um todo: acomete as articulações e está associada a outras enfermidades. Mediadores inflamatórios sistêmicos (pressão alta, alteração de lipídeos, diabetes, obesidade) acabam influenciando a ocorrência de doenças cardiovasculares.

"Os portadores de psoríase, que tendem a fumar mais do que a população que não tem a doença, podem ter uma probabilidade maior de sofrerem infarto do miocárdio ou mesmo um derrame cerebral, o que pode, eventualmente, até levar ao óbito", diz o médico.

Preconceito

Mas não basta lidar com as implicações físicas da doença. Relacionar-se com o outro passa a não ser uma tarefa fácil. O preconceito e os constrangimentos, com o tempo, podem levar o paciente a manifestar sintomas de depressão e fobia social. "É uma doença visível, então todo mundo que convive com o psoriático acaba percebendo que ele tem uma doença de pele. Assim, muitas vezes por ignorância, as pessoas acabam evitando o contato por acharem que é contagiosa e que pode trazer um risco a quem convive com o indivíduo", afirma Ricardo Romiti.

"Sabemos que isso não existe. A psoríase é, na verdade, uma doença genética", complementa o dermatologista.

Como se manifesta

Na análise preliminar feita com 877 dos 1.124 participantes da pesquisa, as pernas e as coxas aparecem como as áreas mais atingidas pelas placas, ou seja, em 77% dos casos. A avaliação mostra que 72% dos pacientes tiveram braços e pernas afetados pela doença e que as lesões na cabeça e no pescoço se manifestaram em 57% deles. O tronco, os pés e as mãos são outros locais com grande incidência das lesões.

Entre os entrevistados, 25% se declararam pardos e 6% negros, o que desmistifica a crença de que a psoríase acomete apenas pessoas brancas. A doença em placas pode se manifestar nas formas leve, moderada ou grave. O estudo apontou que cerca de 50% das pessoas apresentavam as formas moderada e grave e que 70% tinham outra enfermidade associada.

A obesidade ou sobrepeso atinge 75% desse público, enquanto a hipertensão arterial afeta 32%. O colesterol elevado aparece como responsável por 25% das queixas e o diabetes foi citado em 17% dos casos. Quadros de depressão e ansiedade foram citados, ainda, por 26% e 39% dos pacientes, respectivamente. A artrite e o alcoolismo têm incidência em 17% dos entrevistados.

Diagnóstico e superação

"No começo, apareceu uma pequena lesão no couro cabeludo. Achava que era caspa, mas aí foi crescendo e eu fui ao médico que diagnosticou como psoríase. Ela se manifestou em placas, mas as lesões eram reduzidas", diz o advogado e engenheiro mecânico José Célio Silveira, 54, que recebeu o diagnóstico aos 17 anos.

De forma leve na juventude, tornou-se severa com o passar do tempo. "Chegou a cobrir mais de 80% do meu corpo e acabou acarretando outra enfermidade, a artrite psoríástica, que combina os sintomas da psoríase aos da artrite reumatoide", lembra. "Não se fica curado da psoríase, mas aprendi a conviver com ela", afirma José Célio, atual presidente da Associação Cearense de Portadores de Psoríase (Acepp).

Para o tratamento, o Ceará conta com dois centros de referência: o Hospital Universitário Walter Cantídio da UFC, que participou do Appisot, e o Centro de Saúde Dona Libânia (SESA).

Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), os casos mais leves podem ser controlados com medicação de uso local (pomadas, loções, xampus ou gel específico) e hidratação da pele. Nos estágios mais avançados, são indicadas sessões de fototerapia (banhos de luz) e medicação de uso oral ou injetável. Dos participantes do Appisot, 81% estavam em tratamento com medicamentos tópicos, 46% tradicionais, 22% com biológicos e 6% com fototerapia.

FIQUE POR DENTRO

A campanha acontece hoje na Praça do Ferreira

O tema da Campanha Nacional de Conscientização da Psoríase 2013, promovida pela SBD - "Psoríase: fere mais que a pele" - , quer propagar a ideia de que, com tratamento, é possível ter qualidade de vida. Hoje, 29 de outubro, no Dia Mundial de Atenção à Psoríase, uma programação organizada pela Acepp acontece, das 7h30 às 14h, na Praça do Ferreira.

Haverá distribuição de material educativo e esclarecimento de dúvidas. O objetivo é levar à população mais informações sobre a doença e desmistificar o preconceito contra os portadores. "Não é contagiosa. As lesões nunca serão transmitidas pelo contato, pela convivência no mesmo ambiente, pelo ato de beber no mesmo copo. Não há qualquer risco para familiares, amigos ou colegas de trabalho", reforça Ricardo Romiti.

A luta contra o preconceito também parte, sobretudo, dos próprios portadores da doença. "Quando eu vejo preconceito, digo logo o que é a doença. Procuro esclarecer o outro. Antes mesmo da pessoa falar, eu já falo", destaca o presidente da Acepp, José Célio Silveira.

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