TECNOLOGIA

Estímulos dão novo sentido à vida

05:44 · 13.03.2011

Com a criação do seu próprio blog "Economia e Sociedade", em janeiro de 2011, Osmundo Rebouças ganhou vida nova. Ele, que faz uso da internet essencialmente como ferramenta de trabalho, também usa as redes sociais para postar notícias, vídeos e artigos relacionados à economia e política. A mulher do economista até reclama que agora ele passa muito tempo no computador.

A fonoaudióloga, Elaine Studart, diz que, após certo tempo de tratamento, às vezes o paciente se sente desestimulado, uma vez que se esgotam atividades e técnicas aplicadas. "Encontrei na internet a ferramenta para que não percam a vontade e a perseverança. Para mim, é muito gratificante, ver a recuperação deles", afirma.

A estimulação é tanta que Osmundo Rebouças está cheio de planos. Pretende escrever um livro e já foi até convidado para contar um pouco da sua experiência com o blog (que tem pretensões de se tornar um site) em programas de televisão. "Ainda faltam muitas aulas de fono, mas o ritmo da recuperação da fala e do desempenho das atividades diárias, me faz antever que dentro de um prazo razoável, estarei com a fala quase normal", escreveu em depoimento.

Estímulo

O trabalho da fonoaudióloga também tem mudado a vida de outros pacientes. Uma delas é Roberta Viana Carneiro, de 39 anos, que sofreu traumatismo craniano com perda encefálica no hemisfério esquerdo do cérebro, área responsável pela fala e linguagem. Na época, com apenas 26 anos, Roberta tinha déficit na leitura, escrita, diminuição do campo visual, além de dificuldades na expressão oral e no processamento auditivo (lentidão da elaboração e organização do pensamento). O caso era bastante delicado e ela teve de fazer ainda várias cirurgias.

Elaine Studart explica que o uso do computador com programas voltados para a fala e a linguagem ajudaram Roberta em sua evolução tanto em relação ao aspecto cognitivo quanto à linguagem. Hoje manuseia o equipamento com mais habilidade, se comunica através de uma linguagem telegráfica, porém compreensível e, apesar das dificuldades, utiliza redes sociais para a comunicação com amigos e parentes.

Roberta que adora e confecciona bijuterias em casa, também está trabalhando na elaboração, junto com a fonoaudióloga, de um blog com fins de inclusão tanto social quanto profissional. "O uso dessas ferramentas permitiu a ela maior motivação para uma vida mais independente e satisfatória", diz Elaine, que se emociona ao relembrar de como encontrou Roberta no início do tratamento e de como sua evolução é significativa.

No caso de João da Silva (nome fictício), de 23 anos, portador de paralisia cerebral, o uso do computador se fez necessário para a conquista de maior motivação, pois, por apresentar dificuldades articulatórias, ele tinha medo de ler em voz alta e de realizar várias atividades.

João ainda possui limitações no manuseio do computador, porém, através da estimulação da linguagem oral, escrita e leitura, atingiu auto-confiança para se expressar sem medo e interage com amigos e familiares pela internet. "Houve uma melhora expressiva na sua aprendizagem. Hoje, apresenta maior interesse e criatividade durante as atividades, aceita e gosta de ler em voz alta, aperfeiçoando ritmo e articulação das palavras", explica Elaine Studart.

Atendimento

O caso do economista Osmundo Rebouças é bastante privilegiado em relação a outros pacientes. Elaine Studart revela que o seu cognitivo bem desenvolvido e o fato de ter sido socorrido logo após o AVC, tendo sequelas não tão graves, ajudou na rapidez com que ele respondeu ao tratamento multidisciplinar e foi capaz de desenvolver atividades como o blog e redes sociais.

Muitas vezes, os pacientes que sofreram AVC não têm a mesma sorte e acabam esperando muito tempo nas filas dos hospitais, o que compromete irreversivelmente a recuperação. A fonoaudióloga cita que o ideal é que fossem atendidos no máximo até três horas após o trauma e que todos os hospitais fossem aptos a recebê-los, mas isso não é o que ocorre na realidade.

A pesar das dificuldades, todo paciente que tenha um mínimo de resposta cognitiva pode desenvolver trabalhos na internet. "Dependendo do caso, ele pode precisar de adaptações e levar mais tempo para aprender, fazendo com que a terapia ocupacional e o estímulo familiar sejam essenciais", explica Elaine Studart.

Entrevista
*Elcyana Bezerra Carvalho

Pacientes com AVC iniciam processo de readaptação com terapeuta ocupacional ainda no hospital

Como ocorre a reabilitação do paciente após um AVC?

No paciente pós-AVC podem ser observadas alterações das funções motoras, perceptivas, cognitivas, sensoriais, comunicativas, que interferem no desempenho das atividades cotidianas do mesmo. A Terapia Ocupacional atua por meio de técnicas específicas, associadas às atividades significativas, visando favorecer à funcionalidade para a realização das atividades cotidianas. A reabilitação em TO inicia ainda no hospital (quando o paciente fica estável). Está relacionado à orientação e a estimulação sensorial, mudanças posturais e posicionamentos dentro do ambiente, orientação nas atividades e apoio emocional ao paciente e familiares.

Como é o tratamento nos primeiros três a seis meses após o AVC?

São os mais importantes no processo de readaptação, quando a maioria dos movimentos voluntários são recuperados. Linguagem, equilíbrio e habilidades funcionais podem continuar a se aprimorar até dois anos. Após alta hospitalar o paciente deve ser encaminhado a um serviço de reabilitação, onde será atendido por uma equipe multiprofissional.

O TO fará uma avaliação minuciosa, em conjunto com a família e cuidador, para estabelecer um programa individualizado, de acordo com o estágio de recuperação do paciente. Inclui organizar seu cotidiano, treino cognitivo e atividades funcionais, prevenção de deformidades e uso da tecnologia assistiva através dos dispositivos de ajuda ao paciente.

Outros pacientes por impossibilidade de frequentar um serviço externo são atendidos em domicilio. Pode ser preciso fazer adaptações: elevar o assento do vaso; eliminar tapetes, degraus e batentes colocar barras nos banheiros; iluminação adequada; telefones ao alcance do paciente.

Quais as maiores dificuldades enfrentadas por esses pacientes?

A queixa mais comum é a limitação das habilidades motoras e cognitivas para desempenhar as atividades como alimentação, vestuário, higiene, locomoção; instrumentais (cozinhar, viajar, tomar medicação, gerenciar suas finanças e dirigir); dificuldades na realização das atividades laborativas e no desempenho sexual. A perda temporária ou permanente da autonomia e independência é um desafio enfrentado, assim como o preconceito que a sociedade ainda tem, rotulando-os de incapacitados devido às sequelas neurológicas.

O paciente não está incapacitado como um todo; tem limitações que o colocaram em situações de vulnerabilidade e dependência. Com a evolução da doença e a reabilitação podem sair da incapacidade, quando reorganizam suas vidas de acordo com suas novas possibilidades.

Qual o papel do terapeuta ocupacional nesse processo?

O papel do TO é reestruturar o cotidiano do paciente, redimensionando suas atividades no âmbito físico, psicológico e social a fim de promover uma maior independência e autonomia. Para isso, é importante que o TO observe o desempenho funcional desse paciente nas atividades cotidianas, nas quais se possa diferenciar a capacidade, dificuldade e incapacidades funcionais deles. É importante que, durante o processo de intervenção, o profissional utilize estratégias compensatórias durante a execução das atividades, envolvendo os dois lados do corpo do paciente e estimulando a integração de ambos.

*Terapeuta ocupacional, Mestre em psicologia, Profa. da Unifor e coordenadora do curso de especialização em Gerontologia (Unifor)

MAIS INFORMAÇÕES

Blog: Fonoaudilogia e Comunicação
http://www.fono-com.blogspot.com;
E-mail: elainestudart@gmail.com

A opinião do especialista
Recuperando o tecido cerebral após o AVC

Quando ocorre um acidente vascular cerebral (AVC), uma série de variáveis deve ser levada em conta antes de falarmos sobre possíveis sequelas relacionadas ao AVC. Como principal destaque, devemos avaliar o tipo de AVC, se isquêmico ou hemorrágico.

No isquêmico, ocorre a oclusão de um vaso cerebral, com morte de neurônios na porção mais central da área pela qual essa artéria era responsável pela irrigação, além de sofrimento parcial das áreas próximas a esta central (chamada área de penumbra), as quais conseguem continuar recebendo alguma quantidade de nutrientes, através de outros vasos próximos.

No AVC hemorrágico, ocorre uma ruptura de um vaso cerebral, levando à formação de uma coleção de sangue. Esta acaba empurrando o cérebro normal e causando sua disfunção. Outras importantes variáveis que devem ser consideradas são a idade do paciente, doenças já existentes (como a diabetes e a hipertensão), local do cérebro no qual ocorreu o trauma, bem como o tamanho da lesão, dentre outras.

Quando tratamos de um paciente com AVC, nosso principal objetivo é salvar a maior quantidade possível de tecido cerebral que possa ser recuperado após. Por isso, a qualidade do atendimento recebido pelo paciente quando do inicio do déficit neurológico e a rapidez com que essas medidas são implementadas são essenciais para o sucesso da recuperação. A área de penumbra é, muitas vezes, capaz de exercer a função da área em que houve morte completa dos neurônios, caso o trabalho de reabilitação seja bem executado.

Dependendo da área do cérebro afetada, os sintomas do AVC podem variar desde paralisias, até dificuldades para falar extremamente incapacitantes, podendo ainda haver dificuldade para engolir e dificuldades de equilíbrio.

Em relação às dificuldades motoras, como paralisias dos membros, diversos estudos mostram que, quanto mais precoce se inicia a reabilitação, como fisioterapia e terapia ocupacional, mais rapidamente os neurônios da área de penumbra conseguem se readaptar a novas funções, o que interfere de forma impactante sobre a recuperação desses indivíduos. Outras terapias adjuvantes, como medicações orais e aplicações de toxina botulínica também podem ser utilizadas para retirar o excesso de contração anormal, ajudando na readaptação de novas funções.

Em relação a dificuldades para engolir e para falar, a presença do fonoaudiólogo na equipe de reabilitação é fundamental, não só para ajudar na readaptação da fala, como também para evitar uma das complicações mais temidas dos pacientes com AVC que são as pneumonias por aspiração. Particularmente em relação à fala (tanto a articulação como a linguagem), recuperações fantásticas podem ser vistas já no primeiro mês de tratamento em pacientes tratados de forma adequada.

Os métodos a serem utilizados na recuperação desses pacientes têm se modernizado de forma drástica nos últimos anos. Recursos como a informática têm permitido o desenvolvimento de habilidades tanto em pacientes com déficits de motricidade (a exemplo da paralisia dos membros) como em pacientes com alterações de linguagem, permitindo que esses pacientes se sintam novamente incluídos dentro da sociedade.

Essa interação é fundamental para esses pacientes, não só do ponto de vista neurológico, mas também do ponto de vista social. Recursos ainda mais avançados, como a robótica, também têm sido extensamente estudados e, muito provavelmente, serão realidade na readaptação desses pacientes no curso desta e das próximas décadas.

Dra. Fernanda Martins Maia
Neurologista

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