era do ´phubbing´

Estímulo eletrônico não substitui o lúdico ´faz de conta´

00:00 · 12.01.2014
Ao considerar o aspecto lúdico que envolve o uso dos recursos eletrônicos, não há como precisar uma idade mínima para a utilização desses equipamentos. O que preocupa, de fato, é o mau uso, esclarece a psicóloga infantil Sarah Castelo Branco.

O perigo reside no conteúdo, no tempo de exposição e na substituição desses por outros estímulos. Daí a importância de garantir à criança o tempo de descanso, pois o uso exagerado pode agir como um estressor físico e emocional. "A criança pode não estar preparada para receber algumas informações veiculadas na mídia digital (ex: a violência urbana) e desenvolver crises de ansiedade. No caso dos jogos, a sequência contínua de desafios pode irritar e fadigar a criança, deixando-a nervosa e prejudicando as demais atividades. Além disso, o uso excessivo pode ocasionar distúrbios alimentares (anorexia, perda de apetite, obesidade), distúrbios do sono, problemas de coluna, lesões articulares por esforços repetitivos e complicações oriundas do sedentarismo".

Assim, tão presentes no dia a dia quanto as novas tecnologias devem ser os cuidados no seu manuseio. Ao contrário do que podem aparentar os incômodos que surgem tímidos, não são apenas os polegares - tão exigidos durante a digitação de textos ou em alguns jogos - que podem sofrer com os esforços repetitivos. Por isso, a postura adequada e alguns exercícios de alongamento levam em consideração a saúde do corpo.

Dedos, pulsos e pescoço

"Com o uso frequente dos aparelhos eletrônicos, as áreas mais afetadas são as mãos, especificamente o dedo polegar e o indicador; o punho, em função de dormências; e a coluna cervical (pescoço), que é, muitas vezes, atingida por desconforto, dor e tensão ao realizar os movimentos", alerta Sandra Mara Brasil, fisioterapeuta e professora do curso de Fisioterapia da Unifor.

Frente aos riscos de lesões ao manusear tablets ou smartphones, deve-se estar sentado com a coluna ereta e o apoio dos membros superiores (ombros relaxados). Usados em pé, é preciso manter a tela dos aparelhos na altura do nariz e a uma distância entre 45 e 50 centímetros.

As lesões mais comuns são a tendinite nos dedos das mãos, a síndrome do túnel do carpo no punho, a inflamação no tendão extensor do dedo polegar e na articulação da base desse mesmo dedo.

Ao usar os aparelhos por muitas horas, faça um intervalo de 10 a 15 minutos de descanso a cada 30 a 40 minutos de uso. "Às ocorrências de desconfortos, mudar de posição, adotar posturas corretas, habituar com pausas e fazer alongamentos antes do manuseio", sugere a fisioterapeuta.

Se as dores persistirem por mais de uma semana, suepnenda a prática temporariamente ou reduza o uso, procure um traumatologista, ortopedista ou fisioterapeuta. A conduta fisioterapêutica de RPG será indicada para trabalhar a postura, pondo a coluna e segmentos do corpo alinhados.

Crianças ficam vulneráveis

A psicóloga infantil Sarah Castelo Branco lembra que são as brincadeiras, principalmente com outras crianças, que preparam para o mundo real: "jamais devem ser substituídas pelos aparatos eletrônicos (tablet, celular, videogame, televisão).

Os recursos eletrônicos devem ser oferecidos de forma saudável, ou seja, o tablet ou o smartphone, devem ser incluídos apenas como mais uma atividade.

´Babá´ silenciadora

"Percebo que as crianças não sentam mais à mesa de restaurante com os pais. Parece que não há possibilidade de interação e diálogo entre adultos e crianças", pontua a psicóloga.

Ela vai além ao observar que em nosso meio ainda persiste a ideia de que a criança ´atrapalha´. A prova é que "muitos pais utilizam tablets e celulares como uma espécie de ´babá silenciadora´. Acho lamentável que pais e filhos tenham desaprendido a ficar na companhia uns dos outros, sem que isso pareça chato ou trabalhoso", afirma.

Hoje, é muito comum observar pais que deixam seus filhos navegando livremente nos gadgets em restaurantes ou no carro, por exemplo, de modo a entretê-los durante uma viagem ou enquanto esperam uma refeição. E, mesmo as que ainda não sabem ler conseguem escolher sozinhas os filmes que desejam assistir, jogos ou ver fotos de família e amigos no tablet ou smartphone. Acredita-se que, dessa maneira, os pais se sentam menos culpados por acharem que, usando esses aparelhos eletrônicos, as crianças aprendem alguma informação importante.

Olhar fixo na tela

O debate sobre esse tema torna-se recorrente devido às mudanças observadas também na forma como a própria indústria vem atuando no segmento infantil. O exemplo citado pela psicóloga mostra bem esse novo universo. Segundo a psicóloga, uma conceituada marca de artigos infantis desenvolveu uma cadeira para bebês, com lugar para acoplar o tablet.

"Antigamente havia lugar para os móbiles, que estimulam, além da audição e visão, o tato, auxiliando na criação dessas percepções. Enquanto olha fixamente para uma tela, o bebê acaba por negligenciar sons, estímulos visuais e interações sociais do ambiente", acrescenta.

Fonte de estresse

Claro que existem aplicativos mais adequados à primeira infância. "Como podemos garantir, porém, que todos os pais estejam suficientemente esclarecidos quanto a isso? Um aplicativo interessante para o filho de 4 anos, pode ser um elemento estressor para uma criança de 1 ano, dada a velocidade das informações. Todos sabem diferenciar e adequar? Creio que não", alerta a psicóloga infantil.

Muitos pais desconhecem o conteúdo de alguns jogos, sendo comum a temática da violência. Há quem ache que os jogos de videogame são feitos apenas para crianças e não ficam atentos, deixando-as vulneráveis.

Para os polegares

o carpo metacarpiana do polegar é a articulação mais comprometida no uso de tablets e smartphones. Isso ocorre devido ao uso excessivo dos comandos na tela de atrito do movimento circular deste dedo.

Podem surgir microlesões que prejudicam o músculo adutor do polegar, flexor curto e opositor; o ligamento anular anterior. Pode prejudicar o tendão do músculo palmar longo da mão.

Além de mudar o dedo ao digitar por períodos mais longos, o ideal é exercitar os dedos polegares (com indicação de um fisioterapeuta).

Puxe suavemente o dedo polegar, mantendo por oito segundos, voltando lentamente (repetir cinco vezes).

Fazer oponência do polegar levando-o até o dedo mínimo na falange proximal. Volta e leva até o dedo mínimo na falange distal.

Fechar a mão colocando o polegar por baixo dos quatro dedos e manter por cinco segundos (repetir o movimento cinco vezes).

Relaxar sacudindo o polegar juntamente com os outros dedos na posição para baixo do corpo por oito a 10 segundos.

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