Terceira idade

Estar bem para cuidar com qualidade

00:08 · 09.04.2013

Prestar auxílio a uma pessoa idosa vai além da boa vontade, sendo vital observar o bem-estar do cuidador

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são claros e significativos quanto à participação de pessoas com mais de 60 anos na estrutura etária. Atualmente, elas correspondem a 12% da população. Apesar desse número expressar uma maior atuação do idoso na sociedade e no mercado de trabalho, também indica que uma parcela considerável de cidadãos necessita de maior atenção, tendo em vista o desgaste físico natural e o surgimento de doenças.

Os membros da família devem estar envolvidos no cuidado ao idoso. A boa convivência entre todos é essencial para promover a qualidade de vida Foto: Divulgação

O geriatra João Macedo Coelho Filho, professor do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que o envelhecimento da população representa um novo desafio para as famílias em relação aos cuidados, especialmente aos que dependem de terceiros para realizar as atividades do cotidiano. "Todos nós estaremos, em algum momento e de alguma forma, lidando com o cuidado de uma pessoa idosa, seja na família ou na comunidade", diz o médico.

Nesse sentido, o Centro de Atenção ao Idoso, unidade do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), desenvolve há dez anos ações na área de atenção integral à pessoa idosa. Há cinco anos, o Centro oferece um curso de formação para cuidadores e familiares de idosos com demência.

Treinamento

Deuciângela Carvalho, assistente social do HUWC e coordenadora do projeto, explica que a capacitação se dá de forma prática e linguagem acessível, tratando as necessidades decorrentes do processo de envelhecimento, assim como a evolução de doenças, a exemplo do Alzheimer.

"Familiares e cuidadores precisam estar bem informados sobre os aspectos que abrangem a senilidade", destaca. Para a assistente social, o público alvo é composto por cuidadores informais, como empregados domésticos, embora o treinamento seja aberto ao público em geral.

O curso auxilia o cuidador quanto à forma mais adequada de tratar a pessoa idosa. "Quando o cuidador detém um certo conhecimento, ele percebe que muitas das atitudes do indivíduo idoso, como a agressividade, são inerentes à idade e à demência", afirma a assistente social do HUWC. Além disso, ela acrescenta que uma boa convivência é essencial tanto para a qualidade de vida do cuidador como para quem recebe os cuidados.

Conforme João Macedo, cuidar de uma pessoa idosa, especialmente aquela muito dependente, é uma tarefa árdua, pois exige boa condição física e emocional.

Assim, é preciso ficar atento também às necessidades de apoio ao cuidador para que ele possa exercer sua função de forma eficaz e evite problemas relativos ao estresse e à exaustão, os quais são fatores de risco para depressão, ansiedade e doenças cardiovasculares. "Muitos cuidadores (que são familiares), na ânsia de oferecer o melhor a seus entes queridos, anulam sua existência pessoal, o que não é uma atitude indicada. Quem não está bem, não cuida bem", reforça o geriatra.

Convivência

Para Deuciângela, os maus-tratos à pessoa idosa podem surgir involuntariamente por falta de informação sobre como lidar com as diferentes situações que surgem ao longo da convivência. "O cuidador pode ficar cansado e estressado. Orientamos os familiares para que eles também prestem assistência, não deixando apenas um responsável pelo atendimento ao idoso". Ela ainda esclarece que todos os membros da família devem estar envolvidos no cuidado do idoso a fim de garantir a tranquilidade no ambiente.

No Brasil, a atividade de cuidador formal de idosos ainda não é reconhecida, mas há um projeto de lei que encontra-se em discussão no Senado Federal visando regulamentar a profissão. Para atuar neste segmento é exigido que o cuidador tenha mais de 18 anos, ensino fundamental completo e curso de qualificação reconhecido pelo Ministério da Educação.

Dada à procura crescente de profissionais qualificados no mercado, João Macedo destaca a importância de existir programas amplos de formação. "É uma grande oportunidade para jovens que desejam abraçar este dignificante trabalho", conclui.


FIQUE POR DENTRO

HUWC realiza curso de formação
Este é o quinto ano que o Centro de Atenção ao Idoso oferece o treinamento aos cuidadores. O curso de formação conta com a participação de profissionais de diversas especialidades médicas. Ao todo, serão contemplados dez eixos, entre eles Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Psicologia, Odontologia, Nutrição e Serviço Social. O curso é um projeto de extensão da Faculdade de Medicina da UFC.
A ação - realizada normalmente duas vezes por ano - ocorre nos dias 13 e 20 de abril, no Auditório Paulo Marcelo do Hospital Universitário Walter Cantídio, no bairro Rodolfo Teófilo. A expectativa é de que sejam ofertadas 40 vagas. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas diretamente no Ambulatório de Geriatria do Hospital da UFC. Informações e inscrições: (85) 3366.8382.


ENTREVISTA

Zilda Araújo
Gerontóloga

Estresse fragiliza a saúde do cuidador
Do que mais necessitam os cuidadores de idosos?
É preciso informação para aprender a lidar com as mudanças comportamentais que ocorrerem com o paciente idoso. É comum surgir alguma dúvida, pois normalmente os cuidadores estão perdidos sobre o que pode acontecer com o idoso durante a evolução da doença de Alzheimer, por exemplo.
Quais as causas que aumentam o estresse no cuidador?
As alterações de comportamento do paciente podem levar o cuidador a apresentar quadros de irritação. Sem o devido conhecimento sobre a forma de lidar com a situação, ele adquire tanto estresse físico quanto emocional. Tal condição pode acarretar uma série de problemas como pressão arterial elevada, diabetes e, até mesmo, a depressão.
Como um treinamento auxilia a combater possíveis problemas que possam surgir no convívio com o paciente idoso?
O cuidador será orientado a utilizar estratégias para facilitar seu trabalho e seu cotidiano. É importante salientar que mesmo com o auxílio do cuidador, o ideal é estimular a autonomia e a independência do paciente idoso. O cuidador também deve se cuidar, ter lazer e não deixar de lado suas atividades pessoais para se dedicar exclusivamente ao trabalho. Porém, acima de tudo, é preciso ter paciência, respeito e sensibilidade.

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