Resiliência

Enfrentar limitaçõeS

00:00 · 09.12.2013
Até que ponto sua corda pode ser esticada? É da capacidade de lidar com os problemas mais intensos que o termo resiliência entrou no debate

Resiliência. Essa palavra tem sido bastante usada, mas poucos conhecem realmente o seu significado. Ela denomina a capacidade que o ser humano possui de "tirar leite de pedra", de fazer do limão uma limonada, de ser maleável como bambu, enfim, de aprender e evoluir com situações desastrosas internamente.

O termo vem da física e define a capacidade que materiais resistentes possuem de passar por choques sem alterar suas propriedades, conseguindo voltar ao seu estado anterior. Logo foi adotada pela psicologia. Mas no caso da pessoa que sofre um trauma ou uma perda, não se pode pensar que ela retorne ao estado anterior, o que se pode achar é que ela retome o seu desenvolvimento de uma maneira a ter uma vida produtiva.

Segundo o neuropsiquiatra, Boris Cyrulnik, durante o V Ciclo Internacional Resiliência e Cultura realizado em vários estados como no Ceará, essa característica do sujeito pode sim ser adquirida. Depende sobretudo da relação construída com o outro ao longo do desenvolvimento desse indivíduo desde o momento da sua geração por meio da fecundação do espermatozoide no óvulo até o seu crescimento no útero da mãe e fora dele.

Teoria do apego

Para nos fazer refletir sobre o sistema de resiliência, o médico afirma que foi feito um modelo experimental com macacos onde se aprendeu a teoria do apego, ou seja, o fato de que um animal quando está privado do relacionamento com o outro ele interrompe o ciclo de desenvolvimento.

Dessa forma, em laboratório, um macaco filhote foi isolado de seus pares, não havendo nenhuma relação com outros. Diante disso, observou-se que quando o macaco isolado se encontrava irritado, inquieto, o único instrumento era seu próprio corpo. Ele se balançava, se mordia e se agredia.

Ao se unir a outros macacos, ele reduzia esse comportamento agressivo. "Estar com outro macaco permitia que ele mantivesse uma relação e construísse uma figura de apego com o outro. O melhor remédio e tratamento para ele era o outro", esclarece o professor e diretor de Estudos da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Toulon Sur Var - França e estudioso da resiliência, um dos pilares teóricos da terapia comunitária integrativa.

Adversidade

O mesmo experimento foi feito com uma fêmea, cuja atividade de autoagressão era intensa pelo isolamento. Dentro de um grupo, no período da adolescência e, com os hormônios em ação, ela procurava os machos que, ao se aproximarem, eram agredidos ou a fêmea se mordia ou fugia.

No início, os pesquisadores suspeitavam que seu desenvolvimento havia sido bom, porque se comportava bem, mas na adolescência (puberdade), considerada um período crítico, o seu comportamento era de uma relação paradoxal.

Herança emocional

Mesmo assim, fizeram uma fertilização artificial nessa macaca, que gerou um macho. Quando este alcançou a puberdade, ele não sabia ter relações sexuais. A fêmea o procurava e ele agredia a ela ou a si mesmo ou fugia, exatamente como sua mãe tinha feito quando adolescente.

"É uma transmissão não-genética. As emoções da mãe haviam sido transmitidas ao bebê. Quando se tem emoções intensas como a sexualidade, se durante a infância não existir interações com os outros de carinho e de aconchego, no momento em que temos as interações sexuais ou emocionais fortes, não há condições de resolver o problema. Não se consegue enfrentar", diz.

Cyrulnik explica que esse distúrbio do comportamento sexual do macaquinho foi gerado pela infelicidade da mãe quando era mais jovem. "Isso nos mostra um modelo de laboratório que comprova a maneira como somos moldados nessa relação. A presença do outro me modifica e a sua história faz o mesmo. A infelicidade da mãe modifica o cérebro do seu filho, esculpe biologicamente e deixa marcas na mente", enfatiza.

Outra experiência em laboratório feita pelo médico para mostrar a importância da influência do outro ocorreu com ratas grávidas. Em uma caixa, elas recebiam um tratamento com gritos e barulhos, já em outra caixa, eram tratadas com ternura e tranquilidade.

Após o nascimento dos ratinhos, ao som de um apito, aqueles da primeira caixa já começavam a se mexer e ficar nervosos, enquanto os ratinhos das mães tranquilizadas durante a gravidez, demoravam muito tempo para se agitarem com o barulho.

"O rato ficou mais vulnerável e fragilizado pelo sofrimento da própria mãe. Com as mães estressadas, os ratinhos ganharam mais vulnerabilidade para o estresse", explica.

Por essas razões, Cyrulnik legitima que na resiliência não podemos falar na pessoa de uma maneira solitária, deve-se levar em conta a relação com o outro e com sua história, porque o contexto faz parte do processo", argumenta.

Relação interpessoal

Conforme a psicóloga Sandra Cabral, professora da Universidade Federal Fluminense e coordenadora do Observatório Internacional Rede Resiliência, é preciso reforçar a ideia de que a resiliência é um processo relacional e coletivo, pois é dessa forma que ocorre a nossa construção como sujeito. "Ele não pode se ver como alguém que nasceu sozinho, vai se desenvolver e só depois entrará em relação com o outro. Antes mesmo da gente nascer já está envolvido por esse nicho sensorial e cultural, que se refere ao que acontece no cotidiano e aprendemos no contexto".

Por esse aspecto, ela reforça que não se pode pensar no indivíduo solitário, separado do outro. Sandra Cabral revela que a singularidade é bem o contrário disso, apesar da cultura ocidental e mesmo a ciência veicular essa ideia de que o coletivo é a soma de diversas individualidades e indivíduos.

"O que existe é uma conexão entre todos. Cada rede de conexão produz sensações e sujeitos diferentes. São as experiências com o outro que nos faz pensar em nós mesmos de outra forma. A nossa singularidade é produto da nossa relação coletiva, e não o contrário. Se pensarmos assim será fácil compreender o que ocorre no processo do sujeito".

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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