EQUILÍBRIO

Em busca da perfeição

19:55 · 27.02.2011
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A prática do balé favorece o desenvolvimento neuro psicomotor e a integração social, mas o bom senso e moderação são essenciais

Os passos, giros e movimentos devem ser feitos com tal delicadeza, postura e concentração para que o resultado seja uma composição que salte aos olhos de quem vê. Este é o pressuposto do balé clássico desde o seu surgimento, há mais de 500 anos. No entanto, por trás do incontestável encantamento da prática, existem pessoas comuns, com ânsias, angústias, inseguranças, medos e carências.

A reflexão e o debate sobre a questão do ser humano antes do bailarino entrou em evidência com a chegada do filme "Cisne negro" aos cinemas. O longa apresenta a história de Nina (vivida por Natalie Portman), bailarina de uma requisitada companhia de Nova York. Arredia, solitária e dominada pela mãe, ela não aguenta a pressão quando chega o momento de realizar o seu grande sonho: ser a estrela principal de um espetáculo.

Segundo a psiquiatra e psicoterapeuta, Dra. Eliane Souto de Abreu, Nina parece ter o seu primeiro surto de esquizofrenia na trama, apresenta auto-mutilação (arranca pedaços da pele), delírios de perseguição, alucinações auditivas, visuais e tácteis, entre outros fenômenos. A garota mostra não ter estrutura para dar vida aos dois papéis de cisne - o branco e o negro - na nova montagem do clássico "Lago dos cisnes". A história é fictícia, mas há cenas que retratam fatos recorrentes no dia a dia de quem pratica balé e que geram preocupação.

À procura do físico esbelto (uma das principais lutas das bailarinas), algumas delas acabam deixando de lado o senso de responsabilidade com o próprio corpo. As carências de nutrientes vêm em seguida. Segundo a nutricionista esportiva, Fabiana Fontes, normalmente a alimentação das bailarinas é pobre em carboidratos, proteínas, gorduras (macronutrientes), além de vitaminas e minerais (micronutrientes).

E faz uma alerta: "A alimentação da bailarina, sendo deficiente em inúmeros nutrientes, pode causar danos irreversíveis à saúde. Dentre os malefícios estão a anemia, osteoporose, irregularidades menstruais, fadiga muscular, depressão, comprometimento no desenvolvimento e no crescimento corporal, desnutrição, desidratação, redução da massa muscular, dentre outros".

A nutricionista já recebeu em seu consultório bailarinas com transtornos alimentares. Os casos mais comuns, segundo ela, são de bulimia e anorexia. A amenorreia - ausência regular de menstruação - é outro problema recorrente e acontece devido à falta de ferro no organismo.

Na hora do tratamento, a Dra. Fabiana afirma a necessidade de mostrar à paciente que o alimento não é um vilão e que, comendo adequadamente, ela não vai engordar e sim ter mais saúde no dia a dia. Além disso, destaca a importância do acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.

"O tratamento requer um olhar multifatorial. Para isso necessitamos de um grupo de profissionais, com especialidades diversas, para tratar a patologia. A equipe deve ser formada por uma nutricionista, um psicólogo, um médico e um professor (educador físico). O tratamento é duradouro e requer dedicação dos profissionais envolvidos".

Experiência

Relembrando a sua longa trajetória como bailarina, Madiana Romcy, diretora e professora da escola de dança que leva o seu nome, confessa já ter tido algumas atitudes displicentes com a própria saúde. "Quando fui morar em Nova York, aos 19 anos, para estudar no Joffrey Ballet School, tinha uma vida muito corrida. Precisava, além de estudar, trabalhar como baby sitter e faxineira para pagar minhas contas. Sem ter tempo pra nada, passava o dia, muitas vezes, com uma maçã e um iogurte. Não era pensando em emagrecer, já que sempre tive um biótipo que me favoreceu. Na época do frio, minha malha ficava molhada e não a trocava. Era muito jovem e os jovens acham que nunca vão adoecer ", recorda.

Por conta dos maus hábitos, Madiana contraiu uma tuberculose. "Só fiquei sabendo que estava doente quando fui morar no Rio de Janeiro para estudar na Escola do Theatro Municipal. Fui chamada para dar aula no Colégio Israelita. Pediram um exame de pulmão e a doença apareceu", diz.

Pouco tempo depois, contraiu dengue duas vezes, mas, ao invés de concentrar os pensamentos na recuperação, a jovem bailarina só pensava nas concorrentes: "Toda vida que eu ficava doente, a minha única preocupação era o balé. Tinha medo de ficar muito tempo parada e ser deixada para trás".

Hoje em dia, aos 49 anos de idade, muito mais madura e experiente do que antes, Madiana se auto-analisa e diz ter consciência de que agiu errado várias vezes. No caso, a única prejudicada foi ela mesma.

Também aponta a importância da família na sua trajetória. "Meus pais me deram força e impulso desde o início. Acreditaram no meu potencial. Quando ficava doente, minha mãe vinha ao meu encontro para cuidar de mim. Se não fosse a presença dos meus familiares, poderia ter, em muitos momentos, perdido a cabeça e o caminho".

Partindo do princípio de que a família é a base da estrutura de qualquer pessoa, a Madiana professora busca conhecer, de perto, o pai e a mãe de cada aluna. "Normalmente as alunas que apresentam timidez excessiva, tristeza ou dificuldade de se alimentar corretamente são aquelas que têm problemas em casa. É por isso que busco saber quem são os pais de cada uma e conversar sobre a realidade delas fora daqui para, assim, saber como posso ajudar".

Na escola de dança, o que as alunas aprendem, logo de início, é a disciplina. "Sem disciplina não se consegue nada. Aqui, elas têm horário, regras e objetivos. Saber lidar com isso as auxilia em todos os setores de suas vidas. Falo da importância de dormir bem, de não faltar aos ensaios e de se cuidar. Sou amiga, mas também cobro compromisso e dedicação".

Fatores de risco

"A alimentação da bailarina, sendo deficiente em nutrientes, pode causar danos irreversíveis à saúde"

Fabiana Fontes
Nutricionista esportiva

"Praticado erradamente, o balé pode gerar ansiedade e reforçar o narcisismo"

Eliane Souto de Abreu
Psiquiatra e psicoterapeuta
Professora da UNIFOR

TICIANA DE CASTRO
REPÓRTER

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