CIRURGIA

Eliminação do desconforto

18:24 · 20.08.2011
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Oque não mata cura, já diziam os populares, referindo-se a certos tipos de tratamentos rudimentares, desenvolvidos pelo homem a partir da observação e do contato estreito com o ambiente natural.

Esta máxima, mesmo empregando modos de cuidado nada seguros, chegou a prevalecer também nos primórdios da medicina, incrustada no pensamento humano. O avanço tecnocientífico trouxe em seu bojo outras formas de curar, menos agressivas e, em décadas mais recentes, minimamente invasivas.

Foi pensando nisso que a psicóloga, Adriana Gomes, 42, decidiu no ano 2000 fazer uma cirurgia nos olhos para corrigir um problema de miopia. Por ser muito dependente de óculos (necessitava de quase oito graus em cada olho), o surgimento e sedimentação da intervenção corretiva para problemas de enxergar de longe e de perto foi para ela providencial.

"Entrei para a cirurgia bem ciente do que queria. E, para mim, foi ótimo. Fiz todos os exames. O médico me explicou tudo antes e achou por bem operar as duas vistas de uma só vez".

Sua satisfação foi tão grande que dois anos depois tomou coragem e, levada por uma amiga, foi a um cirurgião plástico para colocar implante de silicone nas mamas. Em ambas intervenções foi bem sucedida por ter sido bastante cuidadosa no pré e pós operatório, seguindo as recomendações dos dois médicos. Hoje se diz feliz por só usar óculos levinhos, de sua escolha, e por apreciar mais sua silhueta, recuperando sua feminilidade.

Bem informado

Conforme o cirurgião Heládio Feitosa, tão logo seja avaliada a necessidade de tratamento cirúrgico, é fundamental analisar a possibilidade de realizar a cirurgia. O médico observa tudo a respeito da saúde do paciente ( exames pré-operatórios), receita os medicamentos a serem administrados, indica onde a cirurgia será feita e toma várias outras medidas para garantir a segurança do procedimento. "As consultas pré-operatórias são fundamentais para que possamos conhecer bem o estado do paciente", diz.

A visita ao anestesiologista também é vital para que o médico possa utilizar a anestesia adequada às características do paciente e consiga detectar problemas que possam surgir durante o ato cirúrgico, indicando soluções para que a operação não seja cancelada de última hora.

Um terceiro ponto essencial, de acordo com o especialista em cirurgia de obesidade e diabetes, é observar se o ambiente (sítio cirúrgico) onde a intervenção será realizada, oferece os recursos necessários para a complexidade da operação. "Entre as precauções está a prevenção de infecções, acidentes hemorrágicos, embolia pulmonar (quando da obstrução das artérias dos pulmões por coágulos diminuem drasticamente a capacidade respiratória do indivíduo), e cuidados com o acompanhamento pós operatório, dentre outros", justifica o médico.

Meta de segurança

A realidade brasileira é vista como um cenário preocupante e com necessidade, pelo contingente de profissionais sobrecarregados e estafados que povoam nossos hospitais, de prevenção imediata e um esforço conjunto de todos os países liderados pela Organização Mundial de Saúde para inverter essa situação. É o que afirma o também cirurgião bariátrico do Hospital Geral Dr. Cesar Cals, Francisco Ney Lemos. "Como meta prioritária para a segurança do paciente de 2006 a 2009, a OMS estabeleceu a melhoria da segurança e a prevenção do erro humano e do efeito adverso".

Conforme Dr. Lemos, na década de 70, morria um paciente para cada 5.000 anestesias. Com a melhora da tecnologia e do conhecimento, adoção de um "checklist" anestésico, processo presente em toda cultura de segurança, passou a ocorrer no ano 2000 a mortalidade de um paciente para 250.000 anestesias.

"O efeito adverso (EA) ocorre em cerca de 10% das intervenções cirúrgicas, ou seja, 23,4 milhões de caso por ano. Esse efeito adverso pode resultar de um erro humano que inclua a figura de imperícia, imprudência ou negligência, mas também pode resultar de um evento inevitável e indesejado, cuja responsabilidade deve ser muito bem esclarecida". Pois existe uma separação muito tênue entre o efeito adverso e o erro, explica.

Baixos salários, condições inadequadas de trabalho, falta de manutenção de equipamentos podem levar a ambos. Também um profissional sobrecarregado ou estafado e a ausência de protocolos de segurança, cenário comum na maioria dos hospitais públicos brasileiros, certamente aumenta o risco desses efeitos adversos, sinaliza.

Dr. Heládio Feitosa é ciente de que todo cirurgião deve deixar o paciente informado sobre a importância e os riscos dos procedimentos. Nas cirurgias que realiza, revela que às vezes, os paciente chegam até ele sem estarem dentro de uma faixa de indicação cirúrgica e querem operar porque dizem que não aguentam mais fazer regime. "Mas não há indicação para realizar a intervenção. E se não há uma indicação, você não pode forçar a situação" .

Os pacientes de hoje, de acordo com Dr. Heládio e seus colegas de profissão, costumam acumular muitas informações em virtude da disponibilidade nos meios de comunicação. Mas cabe somente ao médico indicar aquilo que é correto, afirma. E adverte as pessoas que acham que podem se tratar em casa, diante do que encontram em suas buscas pela internet (o conhecido Dr. Google). "Isso é um risco muito grande. Se o problema não for bem explicado ao paciente, ele pode chegar a correr risco de vida".

O cirurgião cita o caso de uma paciente que fez cirurgia de redução do estômago há menos de um ano e lhe telefonou solicitando orientação sobre outra intervenção reparadora, desta vez para fazer uma abdomeplastia. Enfático, Dr. Heládio Feitosa afirma não ser possível. A paciente, por estar emagrecendo bem, queria logo se submeter a outra intervenção. Cabe ao médico esclarecer aos pacientes de que, numa operação de obesidade, a pessoa vai perdendo peso ao longo de um ano. Só depois disso - quando o peso já está estabilizado - é avaliada a necessidade da cirurgia plástica. Se realizar o procedimento antes do tempo, será uma intervenção precoce, com chance de ficar com flacidez de novo.

As normas de segurança não foram criadas à toa, garantem os cirurgiões. Foram pensadas visando o bom resultado dos tratamentos, a segurança do paciente e feitas com base em estudos.

ENTREVISTA
Dr. Francisco Ney Lemos

Vencer o impacto clínico da infecção hospitalar é o desafio a ser superado pelos sistemas de saúde dos países
em desenvolvimento


Tomando como parâmetro a meta da Organização Mundial de Saúde para 2020 de reduzir as taxas de infecção do sítio cirúrgico em 25%, como observa a questão da infecção hospitalar em nosso meio?

Essa meta é importante porque a redução da taxa de infecção de sítio cirúrgico (ISC) implica em uma significativa queda na morbidade (complicações) e na mortalidade (morte) dos pacientes operados. Considerando que a OMS revelou que foram realizadas 234 milhões de cirurgias no mundo, em 2008, significa que muitas pessoas serão beneficiadas com a medida. Estudo Nacional do Ministério da Saúde do Brasil (1999) encontrou uma taxa de ISC de 11% das cirurgias realizadas. Quanto à infecção hospitalar (IH), sim, ainda hoje ela continua sendo um problema de saúde pública, particularmente nos países em desenvolvimento.

A infecção cirúrgica é a que tem maior impacto clínico?

Dentre essas infecções hospitalares, embora a urinária seja a mais frequente, mas são as infecções cirúrgicas, incluída aqui a infecção de sítio cirúrgico, que mais produz mortalidade, complicações e elevação dos custos do tratamento. O impacto clínico desse fato implica em elevação da permanência hospitalar em 10 a 15 dias, aumento do risco de re-hospitalização em cerca de cinco vezes e de necessidade de Terapia Intensiva em torno de 1,6%.Também duplica a mortalidade e tem um custo estimado nos EUA de 10 bilhões de dólares por ano.

Quais os itens essenciais na cultura de segurança dos ISC?

A preocupação com a segurança sempre esteve presente no campo da energia nuclear, todos se recordam dos acidentes de Chernobyl e de Goiás, da indústria do petróleo e da aviação. Na área da saúde, a OMS observou que das 234 milhões de cirurgias realizadas no mundo desenvolvido em 2008, morreram dois milhões de pacientes nessas cirurgias e sete milhões tiveram complicações, sendo que 50% dessas eram evitáveis. Preocupados com esses dados, estudiosos da OMS juntamente com membros da Universidade de Harvard (EUA), preocupados com tais cifras, iniciaram uma campanha mundial sob o lema "Cirurgia segura salva vidas" (Safe surgery saves lives), com o objetivo de proteger pacientes em todo o mundo. E assim começou a ser alertado o sistema de saúde para essa tão importante cultura da segurança voltada para os serviços de saúde.

E quanto aos descuidos existentes com itens vitais (uso adequado de antibióticos; equipamentos defeituosos ou inexistentes; falta de leitos TI; ausência de processos seguros)?

A partir dessa iniciativa liderada pela OMS, surgiu um movimento denominado Aliança Mundial para Segurança do Paciente, lançada em 2004, e dela surgiram estratégias para a operacionalização do processo, os chamados Desafios Globais para Segurança do Paciente. O primeiro Desafio Global foi Higienização das Mãos em Serviços de Saúde, cujo lema foi "Uma assistência limpa é uma assistência mais segura" (Clean Care Is Safe Care), o qual o Brasil aderiu com o seu ingresso em 2007. O segundo desafio, ora em desenvolvimento, tem o lema Cirurgias Seguras Salvam Vidas, instrumento através do qual todos nós profissionais de saúde, gestores da saúde pública, financiadores da saúde e pacientes deveremos aderir para combater esses cenário revelado pelas cifras acima relatadas. Esse desafio contem dez objetivos essenciais para a cirurgia segura: medidas que procuram reduzir os risco da infecção de sítio cirúrgico, o uso adequado do antibiótico e a implantação de uma checklist que contempla medidas voltadas para a segurança do procedimento, inclusive da esterilização do material usado durante a cirurgia.

A OMS elaborou um checklist para as cirurgias, independente do grau de complexidade. Como é cumprida no Brasil?

Quanto ao cumprimento dessa checklist, devemos ser compreensivos com questões culturais que demandam um certo tempo para serem assimiladas (as resistências existem em todas as áreas de atividade do homem). Contudo, uma das vantagens é que elas são simples e práticas, possíveis de serem implantadas e implementadas em qualquer ambiente hospitalar. Uma das perguntas dessa lista é se o cirurgião sabe o nome do seu paciente e a topografia a ser operada. Perguntas aparentemente sem sentido mas que feitas na sala de operação, imediatamente antes da incisão, fazem uma diferença que justifica o respeito à lista.

Cirurgião Geral e Bariátrico - Hospital Geral Dr. César Cals

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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