Tempo, tempo

Educação para viver o ócio

00:58 · 18.06.2013

Não basta desempenhar seu papel na sociedade. É preciso educar as novas gerações para não focar apenas no trabalho, e também refletir sobre a vida, contemplar e, consequentemente, evoluir, segundo defendem investigadores do ócio e do tempo livre

Aprendemos desde cedo valores que não nos orientam para um ser e estar num tempo de nada fazer. Tampouco nos falam sobre a importância do descanso, da tranquilidade e a necessidade de manter uma ocupação suave e prazerosa em todas as fases da vida.

Daí, torna-se normal e quase previsível seguirmos pela vida afora numa queda de braço contra o tempo, sempre focados no trabalho, na aquisição de bens e de nos mantermos ´presentes´ no mundo por meio das múltiplas conexões virtuais.

Estilo de vida

Mas, se pararmos para refletir sobre o pouco tempo livre que temos, constatamos a necessidade de um modelo de educação para o ócio, afirma José Clerton Martins, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Ócio, Trabalho e Tempo Livre (Otium), do Doutorado de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor). "O estilo de vida com a ausência de nós em nós mesmos, nos leva a vazios cujos sintomas indicam a necessidade de presença".

Tal condição é expressa em termos que professamos com uma frequência que hoje beira a naturalidade, a exemplo de vazio existencial, depressão, solidão, desencontro e tédio.

Isso acontece, segundo Clerton Martins, "porque ninguém mais tem tempo para essas coisas inadiáveis, como a arte de viver, de evoluir e de tornar-se criador por meio de um tempo experimentado com sentido, apenas possível com o mais puro ócio".

O trabalho desempenha um papel vital, sim, não há como contestar, mas os estudiosos pontuam a necessidade de se ficar atento à qualidade do tempo livre reservado ao ócio. A situação oferece, sobretudo, a possibilidade de introspecção, de jogo, de convívio, de amizade, de amor e de aventura. "É necessário não apenas ter uma profissão, mas também ter educação para as coisas simples da vida que passam desapercebidas, como poder ter condições e conhecimento para escolher um bom livro ou simplesmente admirar as belezas da natureza", destaca Clerton Martins.

A psicóloga Camile Gouveia Varela, membro do Otium e consultora em gestão de pessoas, sugere, para aqueles que não conseguem se desprender do trabalho (mesmo quando fora do ambiente organizacional), uma parada para repensar conceitos e atitudes.

"Convocamos os mesmos à sensibilização para o preço pago para a manutenção de um estilo de vida voltado a atender mais expectativas externas do que a si mesmo". Segundo ela, é o momento de permitir-se também vivenciar um tempo destinado às experiências de desfrute, livremente escolhidas pelo indivíduo a partir do que lhe move internamente e não externamente.

Investigadores cearenses

Doutor em Psicologia pela Universidade de Barcelona, o Prof. Clerton Martins diz que a educação contemporânea costuma sonegar o direito ao ócio. "As escolas tendem a preparar a criança para a importância da profissão e do trabalho no futuro, isto é, preparam crianças e jovens para a vida adulta moldada pelo trabalho, mas não a preparam para e pelo ócio, um fator de vital fundamento para a edificação de um indivíduo equilibrado".

Isso ocorre porque a escola, dentro de uma concepção moderna, está profundamente demarcada pelo paradigma da produção industrial, onde o trabalho é a atividade social dominante e determinante da configuração sociocultural, esclarece o pesquisador.

É sobre o aspecto educativo do ócio que trata um dos seis trabalhos ("A pedagogia do ócio e as práticas em famílias com filhos adolescentes") apresentado pelo Laboratório Otium na última edição do OcioGune, considerado o mais importante evento acadêmico europeu para investigadores do ócio, encerrado no último sábado, dia 15, em Bilbao, Espanha.

Fundado em 2005, o Laboratório Otium integra a Rede Ibero-americana de Estudos sobre o Ócio, da qual fazem parte grupos de pesquisa de Portugal, Espanha e América Latina. Atualmente, as investigações realizadas pelo laboratório da Unifor estão voltadas para duas vertentes: o processo de envelhecer na contemporaneidade e a experiência do ócio.

Além do trabalho com os jovens, os pesquisadores cearenses defenderam estudos sobre as contribuições do esporte na educação para o ócio e o trabalho; o tempo de ócio para o estilo de vida contemporâneo; os estudantes universitários e o nível de satisfação com o tempo dedicado ao ócio; e o Movimento Slow como experiência de ócio: o valor lento para toda a vida.

FIQUE POR DENTRO

Tempo livre é vital no âmbito da família

É um fato que a família determina as primeiras relações sociais de um ser. As aprendizagens iniciais moldam e afetam muitas das relações e tarefas na adolescência e na vida adulta. Por esse motivo, no intuito de perceber a importância e a necessidade do ócio, é preciso inseri-lo desde cedo na família, visto seu papel de formação e autoconhecimento, principalmente quando a finalidade é educativa.

O ócio, nesse caso, é fundamental para auxiliar na construção da autonomia, da liberdade de escolha e na descoberta de motivações ainda na infância e na adolescência. É esse o princípio da Pedagogia do Ócio.

Uma das questões que envolvem tal pedagogia é o grau de permissão e restrição dos pais quanto à educação de seus filhos. Atualmente, os adolescentes parecem, cada vez mais, reivindicar momentos de ócio, autonomia e liberdade para a execução de atividades consideradas satisfatórias. Essa é uma das conclusões do estudo "Pedagogia do ócio e práticas educativas em famílias com filhos adolescentes", de autoria dos professores José Clerton Martins, Fabiana Veloso Brasileiro e Frascisco Francileudo. Pais que tendem a ser controladores e exigentes acabam impossibilitando seus filhos a desenvolverem sua personalidade e independência, fatores essenciais para a constituição saudável da vida adulta.

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