DESAFIO

Educação para o ócio é educar também para a vida

23:53 · 16.07.2011
( )
Prof. clerton Martins: o Laboratório OTIUM apresentou quatro trabalhos no OCIOGUNE (fruto de investigações do projeto de pesquisa desenvolvidos em 2008/2010)
Prof. clerton Martins: o Laboratório OTIUM apresentou quatro trabalhos no OCIOGUNE (fruto de investigações do projeto de pesquisa desenvolvidos em 2008/2010) ( FOTO: WALESKA SANTIAGO )
Compreender os processos que envolvem a relação entre o homem, o tempo e o trabalho


O professor José Clerton Martins, coordenador do OTIUM - Laboratório de Estudos sobre o Ócio, Trabalho e Tempo Livre do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) explica que, a partir do objeto de estudo do Programa de Mestrado e Doutorado - o sofrimento psíquico no sujeito, na sociedade e na cultura - tem convocado a Psicologia a interagir com outras áreas, visando a compreensão de tal fenômeno. "Somos impelidos à busca de aprofundamento nas práticas e representações dos temas ócio, lazer, saúde e trabalho, com o objetivo de contribuir para novas pesquisas; compreender processos que envolvem a relação entre o homem, tempo e trabalho. E, ainda, vislumbrando caminhos para melhorar a qualidade do tempo de trabalho e do tempo livre", explica. O OTIUM discute, em interface com o Programa de Pós-Graduação da UNIFOR e outras universidades que tratam desse tema (UFC, UNISINOS, USP, DEUSTO/ESP, entre outras), o que tem gerado reflexões e promovido publicações e eventos, a exemplo do OCIGUNE, cuja temática deste ano foi "Ócio e inovação: rumo a um comprometimento com o desenvolvimento".

Qual a relação entre ócio e criatividade? Há pesquisas sendo desenvolvidas no Otium?

Os estudiosos do ócio entendem que a hora da criação, das invenções, das grandes sacadas e saídas acontecem durante o envolvimento total do sujeito consigo e com o todo que o envolve de forma intensa. Esse momento de integridade é o momento de puro ócio, onde o homem e o universo se fundem. Nesse momento o homem é totalmente ancorado em seus talentos e em suas buscas, como uma criança que se envolve total na ludicidade nata diante do brinquedo que para ela transcende aquilo que o brinquedo representa - um carro não é apenas um carro, pode ser um foguete, um robô, um amigo, um inimigo, etc., está para além, muito além da forma. O momento do ócio, segundo estudiosos, revela o homem ciente de seus talentos e poderoso pelo reconhecimento de suas possibilidades, reconhecidas no momento onde se sente pleno de seu poder de criar.

Os estudos sobre o ócio ajudam a romper com os paradigmas rígidos entre trabalho, produtividade, lazer e prazer?

Sobre paradigmas rígidos, eles são ilusórios. Servem para separar o que não se separa (criação, trabalho, produção, ócio). Colocar o mundo e que nele está em pontos contrários, em campos divergentes. Quando nos adentramos nas possibilidades complexas de tudo o que existe, entendemos que, como dizem os antigos e como redescobrem os contemporâneos, "o todo está na parte e a parte está no todo", "o infinito está no instante". Assim, o trabalho criativo envolve o ócio, o tempo instituído deixa de existir e sobressai o tempo da experiência prazerosa, seja no trabalho, seja no tempo livre, seja na semana dos dias utéis, seja nas férias. Nessa possibilidade, o esforço da corrida do esportista em um dado momento, transforma-se num conjunto onde músculos, cérebro, esforço, desejo, transformam-se no prazer de atingir limites, superar-se, transformar-se. Na mesma possibilidade uma viagem de turismo, na perspectiva do lazer consumista, pode transformar-se num tempo de descobertas subjetivas, reencontro consigo e com o mundo e reconhecimento de talentos e possibilidades perdidas em tempos de rotina.

Em seus estudos, observa que o ócio pode trazer novas perspectivas para as crises atuais como o desemprego em larga escala e novas possibilidades para aliar atividade e pausa?

Atualmente fala-se em cidades do bem-viver, onde governos, prefeituras redescobrem a essência e vocação das cidades e junto com as comunidades decidem retomar o lugar, transformando cidades antes abandonadas em pontos de convergências de pessoas interessadas no equilíbrio, sustentabilidade e na retomada de um estilo simples e sustentável. A exemplo disso podemos citar o movimento "slow food" (www.slowfoodbrasil.com), cidades para o bem viver (explorado pelo Globo Repórter - cidades italianas visitar - http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2010/12/italia-descobre-os-beneficios-de-viver-em-ritmo-mais-lento.htm1. A cada edição do OCIOGUNE e em nossas pesquisas encontramos evidências de que a crise atual coloca o ócio diante de novas frentes, onde a mudança inicia nas pessoas conscientes de suas possibilidades criadoras, transformadoras, seus potenciais mais inatos. O mercado está aí, mas o mercado somos nós. Pessoas são criativas e estão sempre em busca de sobrevivência prazerosa. Podemos encontrar essa expressão em nossa cidade, onde pessoas excluídas do mercado formal "criam" possibilidades de sobrevivência e se inserem nos meios de produção forçando um olhar diferente para lugares de comércio, atividades, cenários.

A seu ver, as pessoas que valorizam a importância do ócio irão encontrar formas de convívio que resultem em mudanças ?

O século XXI é palco de transformações políticas, sociais, econômicas e culturais, onde observamos a rapidez das mudanças tecnológicas, que interferem nas formas de apreensão da realidade. Nesse contexto, impera a necessidade de redefinir hábitos, valores e crenças, espaço e tempo, trabalho e ócio. A sociedade criada da era industrial que rechaçou o ócio, valoriza-o como um excelente negócio, capturando-o para transformá-lo em mercadoria pronta para ser consumida. Nesse contexto, o indivíduo é cada vez mais um ser limitado e expectador da realidade, frente aos ditames do consumo de massa, restando pelo ócio redescobrir-se e encontrar seus talentos e possibilidades nesse mundo que ao mesmo tempo exclui e inclui.

Crê que vamos conseguir, enfim, desacelerar? Entrar em um novo ritmo, com novas percepções e não desvalorizar mais o tempo livre e supervalorizar o consumo e a produtividade?

Na hipermodernidade, termo utilizado pelo filósofo e pesquisador Lipovetsky, temos pressa em ser felizes. E, por termos pressa, queremos tudo já pronto, para não termos trabalho de digerir, de pensar e não perdermos tempo. Aprendemos que tempo é dinheiro. Porém, o tempo livre, na sociedade que centraliza o trabalho, torna-se aprisionamento e é preenchido com distrações fugazes e imediatas. No contexto da sociedade industrial, o ócio pode adquirir significações associadas à ideia de vadiagem, libertinagem, tempo desperdiçado e, posteriormente, lazer. Nesse sentido, o ócio desvaloriza-se e relaciona-se socialmente ao gozo de prazeres na cultura da produção capitalista. E todas as possibilidades de lazer e de ócio são tomadas pela indústria de consumo e realçadas através da publicidade. Impõem-se modos de vida e, junto ao consumo, associam-se valores de felicidade, estética, além de modos de se relacionar e de se viver.

Qual seria a alternativa para pararmos com imposições de excesso de ocupação e nos abrirmos mais para aproveitarmos nosso tempo livre e o ócio criativo?

Consideramos, atualmente, a Educação para o Ócio um processo relacionado diretamente com a melhoria de vida das pessoas em relação às suas vivências de ócio. Nessa perspectiva, dá-se maior ênfase aos aspectos subjetivos e à qualidade de vida. Muda-se o foco da oferta de ações de entretenimentos programados, para a reflexão em que se priorize os valores, o desenvolvimento de atitudes, habilidades e conhecimentos na construção de um novo conceito e vivência do ócio. Serão feitas relações entre as experiências de ócio com os valores que sedimentam a nossa vida. De uma oferta de ações e entretenimentos se passa agora a uma reflexão sobre os processos pessoais de mudança, priorizando a importância de valores, o desenvolvimento de atitudes e o papel de habilidades e conhecimentos nas vivências do ócio. Não se trata de reivindicar uma parcela a mais de educação, mas sim de relacionar as experiências de ócio com os valores que sustentam nossa vida e nossa peculiar forma de entender o que é viver. De modo que a Educação para o Ócio chama nossa atenção para a consciência diante do fenômeno, os modos convenientes de tratá-lo, os benefícios que produz à pessoa e as dificuldades para realizar a tarefa educativa, assim como os prejuízos que pode acarretar tal desconhecimento.

Com a Educação para o ócio revemos, obrigatoriamente, nosso tempo livre - para o lazer, o prazer e o convívio?

A Educação para o ócio está relacionada com a formação em valores humanos fundamentais, buscando uma tomada de consciência de sua importância e dos possíveis desdobramentos que pode ter o ócio em nossas vidas. A proposta constitui-se em uma educação para a vida, promovendo uma inversão dos valores dominantes. Da mesma forma que é indiscutível hoje a necessidade de uma formação profissional, é também premente a necessidade de educação para o ócio como parte específica da Pedagogia geral. Outro aspecto importante da Educação para o Ócio é que ela ultrapassa a mera organização temporal de uma determinada atividade. Põe-se em pauta a satisfação pessoal e a livre escolha, bem como os valores de felicidade, liberdade e responsabilidade. A vivência de ócio se produz a partir de um mundo de significados pessoais que incidem em um comportamento específico, em uma determinada atitude para o que se faz e para o mundo que nos rodeia.


ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.