EDUCAÇÃO

Educação, atenção e boa convivência

06:19 · 03.04.2011
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Em praticamente tudo, o movimento de afetar e ser afetado pela interação com os outros, nas mais diversas circunstâncias da vida, é um fato. No entanto, em algumas situações isso fica mais evidente. O trânsito é uma delas.

Mesmo se nutrindo a ilusão de que o automóvel possa ser um escudo protetor desses afetos, e que o condutor de um veículo - seja porte ou marca dele, imagine ter mais poder do que outros - não há como escudar-se ou afetar o outro sem ser afetado durante seus trajetos.

Inúmeros estudiosos do estresse e do que o trânsito (tido como um dos grandes fatores estressantes da vida moderna, além de gerador de muitos acidentes e óbitos) fazem uma analogia interessante da condução de um veículo à forma como o indivíduo conduz ou "dirige" sua própria vida.

Grande aventura

O trânsito, no entender da pedagoga e psicóloga Martha Veríssimo, representa uma grande aventura para o humano, no sentido de que qualquer condutor de um veículo terá que lidar sempre com o inesperado. Os acontecimentos estão sempre surpreendendo a cada um de nós, e nem de longe vão ao encontro de nossas imensas expectativas,

"A vida é um grande desafio e viver, uma verdadeira aventura. A cada dia, vamos nos confrontando com situações novas e diversas, mesmo que não as desejemos, de forma consciente", diz.

Instrutores e motivadores ensinam que não há como se conseguir resultados e alcançar metas pessoais sempre realizando os mesmos atos. No volante, muitos motoristas observam e aprendem a ficar sempre sob tensão. Em pouco tempo reforçam certos vícios de direção. Não raro, destaca a psicóloga, tão logo as pessoas sentem no banco de motorista e segurem uma direção, quase sempre, acostumam-se a ligar o "piloto automático", perdendo sua atenção plena naquilo que estão fazendo.

Isto é muito sério, uma vez que não só a atenção se torna escassa, mas também outros componentes vão abrindo espaço para o condutor do veículo permanecer em estado de tensão crescente. O risco de ser afetado e afetar o outro com sua ansiedade em chegar ao seu objetivo torna-se bem elevado.

Tensão e ansiedade levam o condutor a desrespeitar as regras estabelecidas, esbarrando no direito dos demais. O ponto máximo disso é provocar um acidente.

No aprendizado do que os especialistas em trânsito discriminam como direção defensiva, a iniciativa de ceder para outro condutor mais apressadinho ou em estado de tensão, deve ser incorporado como uma regra que, quase sempre, facilita a vida e ajuda qualquer um a sair ileso de certos trajetos e situações difíceis, em momentos específicos ou de trânsito engarrafado.

A relação com este outro desconhecido - embora reconhecido enquanto outro além de mim - deve ser um exercício constante na vida de todos. Pegar o carro e se colocar nas ruas é se lançar, imediatamente, em uma relação com este outro desconhecido. Neste momento, o inusitado pode acontecer, sinaliza Martha Veríssimo. Seja em uma descarga de raiva imprópria (sua e/ou do outro), uma barbaridade realizada por um condutor alcoolizado, um ataque de cólera assustador. "Tanto é importante cuidar como focalizar o prioritário daquele momento. Se o objetivo é se desvencilhar de obstáculos, o desafio de dirigir vai exigir toda sua atenção. Então, é bom manter o celular desligado, evitar conversar demais ao volante com os passageiros e, sobretudo, manter o foco e a atenção plena".

Comunicação efetiva

Desviar por um segundo a atenção pode resultar algo chato como cair em um buraco da via, esbarrar em um ciclista ou motoqueiro que tenha pego a pista errada ou, até mesmo, outro motorista distraído que possa estar atravessando na contramão.

Conduzindo veículos há 25 anos, Martha Veríssimo percebe que no trânsito há pessoas amadurecidas e também as imaturas. Isto não tem muito a ver com a idade, escolaridade, tampouco com o poder aquisitivo do condutor, diz.

Quanto mais cedo se compreender que a relação que se estabelece no trânsito é similar a todas as demais relações que se firma na própria vida, ficará ainda mais fácil manter um comportamento equilibrado e de bom senso no trânsito.

Aqueles que insistem em um comportamento rebelde frente a autoridades, confrontando sempre as regras estabelecidas, dificultam muito as relações e a comunicação efetiva, porque invadem constantemente o espaço e o direito dos outros. "Entrar em contato com o outro, queira ou não, desenvolve a socialização. O trânsito pode até ser visto como um grande laboratório para as pessoas aprenderem a se relacionar com as demais. Desde que mantenha esta nova perspectiva e maneira de olhar".

REFLEXÃO

É uma relação humana?

O carro quebra, o pneu fura. Uma chuva intensa, com alagamentos. Desvio de buracos, tráfego por lugares arriscados, sinalização que obriga a parar mas não a torna viável.

Automóveis de todos os tamanhos e cores trafegam lado a lado a motos, ônibus, topiques, caminhões. Quanto maior o porte do veículo, a responsabilidade do condutor aumenta, porque se sente com mais poder que os demais (ou menores).

As dificuldades no trânsito, segundo Martha Veríssimo, deveriam levar motoristas e pedestres a avaliarem se seguem bem as regras básicas de convivência em outros espaços.

"Talvez, se fizessem ligação do espaço de ação do trânsito com outros ambientes, seriam ajudados a se proteger e a pensar nos demais", atesta.

A comunicação, por incrível que pareça, está por trás de quase todas as regras de convívio. E dentro do contexto trânsito, o condutor não se encontra sozinho. Também há o pedestre, com seu direito de ir e vir que deve ser assegurado e priorizado. Embora este deva respeitar as regras, se colocando no lugar do outro para suas decisões. Não há como querer se isolar. Nem ele, nem os motoristas (que em certos momentos viram pedestres). Mesmo com seu carro protegido por insufilm, porque o inesperado está à sua frente. Conclui como uma questão: "Vemos o trânsito como uma relação humana?"

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