CONVOCAÇÃO

E quem cuida?

20:07 · 07.05.2011
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O care é estudado no mundo. O Japão é um dos países em que medidas já existem para garantir o bem-estar do idoso
O care é estudado no mundo. O Japão é um dos países em que medidas já existem para garantir o bem-estar do idoso ( FOTO: ARQUIVO )
Socióloga do trabalho Helena Hirata
Socióloga do trabalho Helena Hirata ( )
Homens e mulheres são convocados hoje a equilibrarem a balança do cuidado para a conquista da sobrevivência

A socióloga do trabalho Helena Hirata, autora de uma pesquisa visionária que resultou na obra "Nova Divisão Sexual do Trabalho? Um olhar voltado para a empresa e a sociedade" ( publicado pela Editora Boitempo em 2002)constatou na década de 80 do século passado, ao confrontar três países que fazem parte de sua própria história, Japão (onde nasceu), Brasil (onde viveu dos 6 aos 23 anos, até ser exilada na época da ditadura militar) e França (onde reside, desde então), que há uma divisão assimétrica do trabalho, e que a mulher, além de ficar com o mais pesado (dentro e fora de casa) é a que ocupa cargos tidos inferiores e com menor remuneração. Em nova pesquisa, um avanço de perspectiva da anterior, ela verifica o cuidado (care) hoje nestes mesmos três países, cujas populações estão em franco processo de envelhecimento, e em que a atividade de cuidar (dos doentes, das crianças e dos idosos) ainda permanece sob responsabilidade quase exclusiva feminina. Presente no Japão no momento em que ocorreu o terremoto seguido do tsunami, em março último, Hirata se viu obrigada a retornar às pressas a Paris, onde concedeu esta entrevista ao Viva, pelo Skype. Esta semana, informou por e-mail já estar de volta ao Japão para concluir seus estudos, que trarão informações preciosas sobre como se dá o cuidado nos três continentes (América do Sul, Europa e Ásia). Abaixo, partes da conversa com ela.

Como e quando você começou seus estudos sobre a divisão sexual do trabalho e o care?

Fui para a França, exilada do Brasil, como refugiada. Comecei a fazer alguns trabalhos para sobreviver. Eu já era formada pela Universidade de São Paulo e consegui uma bolsa do governo francês para fazer o doutorado; defendi minha tese em 79. Em 80 entrei para o CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique, Genre e Raports Sociaux - GERS), que é um centro de pesquisa científica, similar ao CNPq do Brasil, só que este não tem pesquisadores assalariados. Foi neste Centro que comecei a fazer minhas pesquisas. A primeira foi sobre firmas multinacionais. Verifiquei os aspectos do trabalho técnico em multinacionais do Japão, França e Brasil. Quando terminei essa pesquisa, já estava trabalhando com a questão do gênero. Constatei n as firmas estudadas que estas empregavam homens e mulheres, em uma divisão social do trabalho bastante clara. Empregavam mulheres para certas funções e homens para funções superiores. A divisão era evidente. A pesquisa foi publicada como livro pela Boitempo.

Há uma perspectiva de verificar hoje como está este quadro como novo estudo? Por que seu foco para o cuidado (care)?

O care é também uma questão do trabalho, só que não mais na indústria como ocorreu nos anos 80. Refere-se mais ao serviço do cuidado, sobretudo em relação a pessoas idosas, já que a população do mundo inteiro está envelhecendo (e ficando menos "produtiva"). Resolvemos checar a diferença entre os cuidados dedicados às pessoas idosas novamente nesses três países (Brasil, França e Japão). Já fiz a parte brasileira, quando passei pouco mais de um ano no Brasil (entre 2009 e 2010), entrevistando cuidadoras, no sindicato das empregadas domésticas e também em instituições que acolhem pessoas idosas, ambas em São Paulo. Durante este período que fiquei em São Paulo, dei aulas na pós graduação do curso de Sociologia da USP. Escrevi artigos e concedi entrevistas que podem ser lidas na internet. Dentre eles, o que saiu em março último em uma publicação da SOF (organização feminista) sobre Cuidado, Trabalho e Autonomia das Mulheres (Teorias e práticas do care: o estado suscinto da arte, dados de pesquisa e pontos em debate; Teorias sobre o care e o care work e Controvérsias e pontos em debate sobre care, os quais podem ser lidos no link www.sof.org.br/publica/cuidado_trabalho_e_autonomia_das_mulheres.pdf).

Em uma de suas entrevistas, você afirmou que as coisas só iriam começar a mudar no mundo quando a divisão do trabalho, sobretudo o doméstico, fosse mais justa e simétrica, entre homens e mulheres. Pensa a mesma coisa sobre o care?

Disse que as coisas não mudariam enquanto continuassem as diferenças entre homens e mulheres e a divisão sexual do trabalho doméstico fosse a mesma. Todo o trabalho doméstico e de cuidados é de responsabilidade das mulheres. Os homens não tem essa responsabilidade de cuidar também da casa, da família, comida, das crianças e dos idosos. Os estudos do care apontam para uma continuação dessa problemática. Pois também no care não há uma divisão equitativa do trabalho doméstico, dos trabalhos de cuidado e continua prevalecendo a falta de liberdade feminina e assimetria entre homens e mulheres. Com tais desigualdades entre os sexos, não havendo relações mais justas na divisão de trabalho, não é possível ocorrerem mudanças essenciais na dimensão doméstica e social.

A mulher não é um pouco responsável por isso? Muitas mulheres centralizam as tarefas e não abrem espaço para cooperação. É uma forte ideologia?

As mulheres realmente têm tendência, seja pela educação seja pela socialização, a fazerem tudo o que é doméstico. Como é uma prática, fazem as coisas muito rapidamente. E sem querer deixar nada para o dia seguinte. É um atavismo (similar aos ancestrais, feito de forma automática sem questionar). Um comportamento arraigado das mulheres que fazem e nem sabem porquê. E até permitem uma falta de responsabilização por parte dos homens, sem conseguirem abrir um pouco mais de espaço para que eles assumam a parte dele. As mulheres também não tem muita paciência para ensinar e esperar que os filhos façam. Quando se iniciam os conflitos, elas acabam tomando a frente e fazendo as tarefas e os cuidados, sem perceber.

Nós mulheres observamos claramente isso que você diz. Não será uma forma de se desgastar menos com os conflitos?

Sim, acha que vale mais a pena, ao invés de ficar perdendo tempo com os problemas domésticos, acabar fazendo logo o serviço. No Brasil, conflitos desta ordem são menores do que na Europa, porque ainda existe a figura da empregada doméstica. Ela amortece os conflitos entre homens e mulheres. Já que tem outra pessoa fazendo, na realidade não acontece tanta briga. Mas a situação de desigualdade está ali. Em locais que têm pouca mão de obra para o trabalho doméstico o conflito é bem presente. E precisamos entender o conflito neste aspecto como benéfico, porque sem ele uma parte desta problemática não pode aparecer.

Em que ponto está sua pesquisa atual sobre o care?

Desta pesquisa, já fiz a parte brasileira e também a francesa. Estava há dez dias no Japão (em Tóquio) quando aconteceu o terremoto. Então, tive que retornar à França, porque não havia condições de continuar naquele momento. Ficamos sem água, diariamente, com problemas de energia. Além da ameaça do vazamento nos reatores nucleares (a pesquisadora passou o final de março e abril - quando concedeu esta entrevista, na França, retornando ao Japão dia 2 de maio, para concluir sua pesquisa). Foi realmente muito assustador. Foi um terremoto muito forte e durou muito tempo. Evidente que os tremores foram mais intensos para as populações que se encontravam, no momento, próximas ao epicentro do terremoto. Foram mais de 30 mil mortes e a situação deixou milhares desabrigados. A situação no Japão ficou muito ruim. Mas terei de retornar para concluir a pesquisa. Estou só aguardando autorização.

Como japonesa, ficou muito mexida com o que aconteceu lá?

Os franceses ficaram muito mais afetados do que os próprios japoneses. Inclusive houve uma cobertura na imprensa francesa muito maior do que a própria mídia japonesa. A população francesa se sensibilizou muito. Bem como a brasileira.

A situação do Japão é muito ruim e delicada. A população está atravessando um momento muito complicado e, de uma certa forma, este acontecimento acaba repercutindo no mundo.

Na China, Coreia e países mais próximos ao Japão, já estão chegando cargas contaminadas com radiação. Então vai alterar bastante a situação mundial em termos sanitários. Preocupa os trabalhadores que estão tendo que controlar o que está sendo irradiado. Teremos que mudar esse modelo energético, porque muita gente está recebendo radiação em doses mortais para tentar concertar os reatores, em situação bastante precária. Neste momento, é fundamental a cooperação mundial.

Acredita que o care será mais valorizado? Pensou em concluir sua pesquisa sem o Japão? Ainda pretende voltar lá?

Olha, na realidade, sou apenas mais uma que não pude continuar minha pesquisa naquele momento. Os franceses que estavam lá trabalhando e fazendo pesquisa também tiveram que retornar. Tenho uma bolsa de uma fundação japonesa para realizar esta pesquisa até junho. É muito ruim realizar uma pesquisa sobre os cuidados com as pessoas idosas e não fazer a parte japonesa. Porque no Japão é um país em que se tem muita experiência de cuidados com pessoas idosas. Há todo um aparato tecnológico desenvolvido para facilitar a vida das pessoas idosas. Coisas que não existem em outro lugar. Por exemplo, há botões que acionados abrem portas, janelas. Cadeiras de rodas que sobem escadas, robôs que fazem tarefas para as pessoas (a robótica é bastante desenvolvida no Japão). Lá se desenvolveu um dispositivo que pode localizar qualquer pessoa com Alzheimer que tenha esquecido ou se perdido.

Há um filme, Balada de Narayama (Imamura), que se passa no Japão. Nesta época, numa comunidade, os idosos subiam as montanhas geladas para morrerem, a fim de deixar a vida aos jovens. Este sacrifício ainda ocorre?

Não. Este filme se passa no Japão do século XIX. Hoje, no país, existe indenizações e uma série de ações efetivas do governo japonês para cuidar dos idosos. Existe, por exemplo, um imposto que as pessoas começam a pagar, a partir dos 40 anos (como o imposto de renda, obrigatório)para mais adiante poder contar com apoio governamental para seus cuidados.


ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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