Artrite Reumatoide

É possível retardar seu início e amenizar os sintomas

00:00 · 22.10.2013
Dores nas juntas podem ser sinal de artrite reumatoide. Controlada no início, a doença se desenvolve mais suave

De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a artrite reumatoide (AR) é uma doença crônica cuja principal característica é a inflamação das articulações, embora outros órgãos também possam estar comprometidos. Caracterizada como doença autoimune em que o sistema imunológico, que defende o organismo de infecções (vírus e bactérias), passa a atacar a ele próprio (neste caso, o tecido que envolve as articulações). No entanto, o que parece irreversível tem saída diante de um diagnóstico correto e da busca de ajuda médica das dores logo no início da doença.

As consultas periódicas são relevantes, pois se reduzisse o período até a chegada ao especialista para um ano, o paciente teria benefícios significativos Foto: Divulgação

Para Roger Levy, professor adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro com experiência nas áreas de Reumatologia e Imunologia, doutor em Ciências Biológicas, o primeiro passo para ter um tratamento eficiente é a aceitação do paciente quanto ao diagnóstico e o reconhecimento de que precisa de acompanhamento, mesmo quando não está sentindo dor.

“A tendência de todo ser humano é ir ao médico somente nos períodos em que sente dor. Na artrite, há épocas em que isso ocorre, mas mesmo sem dor, o processo inflamatório continua. É necessário tratar o paciente para mantê-lo sem dor e estagnar essa inflamação. Caso contrário, pode levar à deformidade óssea/erosão”, afirma.

Por isso, o especialista destaca a importância quanto à educação do paciente sobre seu próprio corpo e a doença. Para isso, foi lançada a campanha RA: Join the Fight, realizada por médicos, profissionais da saúde e pacientes com artrite reumatoide em todo o mundo a fim de contribuir para aumentar o conhecimento sobre a doença, seus sintomas, sinais e a relevância do diagnóstico correto e do tratamento adequado.

A pesquisa ouviu 10.171 pacientes adultos com artrite reumatoide de 42 países, incluindo o Brasil, e constatou que 61% dos brasileiros (contra 74% da média mundial) alegam ter um bom conhecimento sobre como controlar a doença, 81% (contra 91% da média mundial) sabem que é fundamental manter a doença sob controle. No entanto, 74% (contra 66% da média mundial) acreditam erroneamente que o dano articular pode ser reversível.

Ou seja, os pacientes não sabem quais as reais perdas geradas pela AR. “A ideia da campanha é estimular as pessoas a se comunicar melhor com seus médicos e reduzir o tempo de chegada ao especialista, que já melhorou bastante, mas ainda nos tira a oportunidade de tratar pacientes na fase inicial, podendo evitar os danos irreversíveis, no caso as erosões”, esclarece.

Danos permanentes

A longo prazo e sem tratamento adequado o paciente pode perder a função da articulação, um dano irreversível, pois uma vez que acontece, será possível estacionar ou progredir. Nesse estágio, há perda até da capacidade de realizar atividades básicas da rotina de uma pessoa como abotoar uma camisa, abrir um pote ou escovar os cabelos.

“Se reduzir esse período de chegada ao especialista, que hoje é de três a quatro anos, para um ano, haverá um benefício significante a todos. Até na economia, porque estamos falando de uma doença que acomete pessoas numa idade produtiva (25 a 55 anos) seja qual for o trabalho dela”, frisa o reumatologista Roger Levy.
Sinais

É preciso estar atento aos sinais do próprio corpo. O especialista destaca que nos casos em que a pessoa sente dor articular acompanhada do que chama de rigidez matinal (quando as juntas se encontram enrijecidas, gerando uma demora para fechar a mão ou utilizá-la naturalmente) em mais de duas articulações já são considerados sinais de alerta para o médico ou mesmo o clínico geral.

O procedimento é pedir exames para confirmar ou descartar a presença da artrite. Se existe a atrite o paciente deve ser encaminhado ao reumatologista para confirmar o diagnóstico e iniciar tratamento.

O sexo frágil

A incidência da doença nas mulheres é muito mais alta do que nos homens, sendo de três para um. Conforme Roger Levy, as doenças autoimunes são mais prevalente nas mulheres por causas multifatoriais. No entanto, ela revela que existe uma forte relação com os hormônios femininos. “É tanto que durante a gravidez, a artrite melhora e só vai piorar em geral logo depois que o bebê nasce. Outro aspecto é a redução de chances de ter artrite aquelas mulheres que têm muitos filhos. Diferente das mulheres que nunca foram mães”.

Fatores de risco

Alguns aspectos aumentam as chances da doença se manifestar mais rapidamente e com maior intensidade. O histórico familiar é um deles, já que a relação genética é fundamental para a existência da artrite reumatoide. “Se um paciente afirma que a mãe tem deformidade por conta da artrite reumatoide e que a irmã, de 30 anos, começou a apresentar a doença, o médico deve ser procurado. Mesmo que o anti-inflamatório melhore a dor quando essa pessoa começa a senti-la. O remédio, apesar de melhorar a dor, mascara a doença, mas o processo continua. Isso só vai atrasar a chegada até o especialista que dará início a um tratamento direcionado”, defende.

O fumo também acelera o aparecimento e agrava a doença, gerando o prognóstico daqueles que têm tendência a tê-la, porém com mais erosão e mais deformidades. Da mesma forma a obesidade e o sobrepeso contribuem para a artrite reumatoide. Isso porque a pessoa já se encontra em um estado inflamatório, aumentando ainda mais o processo de inflamação.

Já foi comprovada a importância da vitamina D ao organismo, representando muito mais que uma vitamina, ela tem ação de hormônio para o sistema imunológico. Uma pessoa que tem dieta pobre em vitamina D ou que não pega sol terá a enfermidade mais progressiva. “Existem exames de laboratório que são preditores, podendo apresentar alterações mesmo antes do aparecimento da artrite. O AntiCCP ou ACPA auxilia nesses diagnósticos”, frisa. Abolir os fatores de risco da rotina trará benefícios e possivelmente irá retardar o início da doença, que irá se manifestar, mas de maneira menos agressiva.

Comunidade médica

A artrite reumatoide e outros temas relacionados serão abordados no XXX Congresso Brasileiro de Reumatologia na cidade de Recife (PE) entre os dias 20 a 24 de novembro. Aos interessados, as inscrições estão abertas no site do evento (http://www.sbr2013.com.br/).

Pacientes desconhecem a própria doença

Dados da pesquisa realizada como uma das ações da campanha global RA: Join the Fight (Artrite Reumatoide: Faça parte desta luta) revelam que pacientes brasileiros demoram cerca de quatro anos para receberem o diagnóstico correto de artrite reumatoide. Além disso, ela mostra que 74% dos que já estão em tratamento não sabem que a erosão óssea é irreversível.

“O fato de muitos pacientes acreditarem que a erosão óssea, provocada pela doença, pode ser revertida é preocupante. A erosão óssea pode ser prevenida, mas não revertida”, informa o especialista Roger Levy, representante brasileiro da RA: Join the Fight .

Estima-se que cerca de 1% da população adulta mundial apresente a doença cuja manifestação pode ocorrer em qualquer faixa etária. Entre os brasileiros entrevistados na pesquisa, 4 em 5 pacientes reconhecem que a dor articular é um sintoma importante a ser tratado, enquanto somente 3 em 5 mencionam o dano articular. Cerca de 7 em 10 pacientes brasileiros se consultam periodicamente com um reumatologista e cerca de 2 em 5 se tratam com ortopedista.

Um “mito” descoberto pelo estudo é que 65% dos brasileiros acreditam que, na ausência de dor, a doença está sob controle. São 58% os que admitem a gravidade da AR e seus aspectos progressivo e destrutivo. Em 35% dos entrevistados, a doença prejudicou a capacidade de trabalho (mais de 1 em 3 entrevistados) e cerca de 1 em 3 diz que seus relacionamentos também foram negativamente afetados pela doença ) e 95% afirmam seu impacto negativo em pelo menos um dos aspectos de sua vida.

Mais de 4 em 5 pacientes brasileiros concordam quanto à importância de seguir um plano de controle da doença, mas 7 em 10 seguem um plano – desses, 3 em 5 afirmam que o plano de tratamento inclui a prevenção de novos danos articulares.

“Para prevenir os danos articulares e contribuir na qualidade de vida do paciente, é fundamental que pacientes e médicos estabeleçam um plano de tratamento, mesmo quando a doença está sob controle. Este plano deve incluir metas a serem cumpridas em determinados prazos, em relação à dor, ao inchaço e à rigidez das juntas”, encerra.

Vicky Nóbrega
Especial para o Vida

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