A opinião do especialista

Drogas, vida e amor

22:20 · 28.05.2011
No dia 17 de fevereiro de 2011, o governo federal, representado por sua entidade maior, a presidente Dilma Rousseff, anunciou a intensificação da luta contra o tráfico e o consumo de drogas, principalmente o crack. Tal medida se detém como prioridade na pauta das ações de políticas públicas do país há alguns anos. Educação, saúde, segurança pública e assistência social realizam um esforço intersetorial para combater o uso abusivo e dependente de substâncias psicoativas, chamadas de drogas ilícitas.

Os grandes avanços tecnológicos e científicos alcançados em todo o mundo, até então, não se mostram suficientes para a resolução do problema. A verdade é que as drogas insistem em comparecer na cena pública, demolindo sonhos e deixando um rastro de sofrimento para as famílias dos drogaditos.

Entretanto, por que tantas pessoas se entregam à dependência química, entendida nos corredores científicos e acadêmicos por drogadição?

A reposta para esta questão se encontra na lógica discursiva vigente da atualidade: o capitalismo, onde o incentivo ao consumo é sua maior marca. Na drogadição, essa característica é tão forte, que não se sabe até que ponto o ser humano consome a droga ou a droga consome o ser humano. A dessubjetivação está agora em cena.

Somente a formação psíquica de cada pessoa, constituída, sobretudo, por suas relações familiares, poderá revelar a disposição à dependência, seja ela qual for: comida, jogo, amor, sexo, drogas. Nestes casos, o ser humano nunca é só dependente do objeto de consumo, mas, principalmente, de amor.

Deste modo, o drogadito encarna o consumidor capitalista perfeito, dependente do prazer proporcionado pelo seu objeto de consumo. Fascinado pela droga, se torna capaz de se desfazer de tudo para obtê-la. O amor é mitigado, e a dessubjetivação comparece no laço social por meio da fragilização das dimensões da ética, cultura e política. A humanidade está ameaçada.

A drogadição é o indicador de um transtorno que assola este país, em sua herança de exploração, potencializado pelo discurso capitalista de consumo. Reaprender a amar através dos ideais é o caminho longo e tortuoso a ser percorrido no tratamento clínico para a resolução dos sintomas.

Assim, o drogadito estará pronto para lidar com as frustrações do dia a dia e recuperar seu potencial com honra e honestidade, por meio dos próprios ideais, constituintes do amor, verdadeira mola propulsora da vida.


Thiago Costa Matos (*) thiagoclio80@gmail.com
Psicanalista, vice-presidente da Clio, Associação de Psicanálise

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