Lesões

Dor prolongada pode ser um sinal de doença

01:13 · 27.08.2013
Mais que um simples sintoma, a dor deve ser observada como efeito de fatores físico e emocionais

Pare e pense: você sente algum tipo de dor? Uma das grandes preocupações da humanidade, a dor é inerente ao organismo e interfere no bem-estar e em atividades rotineiras. Além disso, ainda é considerada o quinto sinal vital, após a frequência cardíaca, a temperatura corporal, a pressão arterial e a frequência respiratória. Por isso, não deve ser negligenciada.

Segundo a OMS, a dor afeta pelo menos 30% da população em algum momento da vida. No Brasil, estima-se que a porcentagem vai de 15 a 40% Foto: Marília Camelo / 2009

A dor pode ter uma classificação temporal, apresentando-se como aguda ou crônica. É o que explica a médica anestesiologista e atual Presidente da Sociedade Cearense para o Estudo da Dor (SECED), Liane Brito. A médica esclarece que a dor aguda está relacionada temporalmente a algum tipo de lesão, e desaparece durante o período esperado de recuperação. "Geralmente, esse tipo de dor tem função de alerta, para indicar que o organismo ainda não está bem ou totalmente recuperado".

Já a dor crônica é considerada aquela com duração prolongada (maior que 3 meses), ou que ultrapassa o período usual de recuperação esperado para a causa desencadeante. Por não possuir uma função aparente ao corpo, é considerada uma doença, provocando uma série de sintomas que comprometem a qualidade de vida do indivíduo.

Outra classificação é referente à natureza ou origem neurológica da dor, podendo ser nociceptiva ou neuropática. No caso da nociceptiva, origina-se de uma lesão tecidual contínua, mas sem danos ao sistema nervoso. Ocorre quando receptores sensoriais enviam sinais de resposta a um estímulo potencial de dano. Mas a dor pode surgir sem estímulo algum. Nessas situações, é entendida como neuropática, quando há dano neurológico no sistema nervoso central ou periférico. "O que precisa ficar claro para o paciente é que, quanto mais cedo ele procurar profissionais de saúde para tratar a sua dor, melhores serão os resultados em termos de alívio e cura. Desse modo, haverá menor chance de uma dor aguda se tornar crônica", aconselha a médica, também coordenadora do Serviço de dor e Cuidados Paliativos do Hospital Haroldo Juaçaba (Instituto do Câncer).

A ocorrência de dor, especialmente a crônica, é crescente e deve-se a vários fatores, como novos hábitos de vida, maior longevidade da população, prolongamento da sobrevida dos portadores de afecções clínicas crônicas naturalmente fatais e do reconhecimento de novos quadros dolorosos.

Incidência

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a dor afeta pelo menos 30% da população em algum momento da vida. No Brasil, estima-se que a porcentagem vai de 15 a 40%.

A anestesiologista Liane Brito lembra que as dores crônicas mais frequentes são as cefaleias (dores de cabeça), as lombalgias (dor na região lombar da coluna), as dores miofasciais regionais (pescoço e ombros) ou difusas e as lesões por esforço repetitivo.

"O paciente com dor crônica deve procurar um médico para que, com a anamnese e o exame físico detalhado, (se preciso, exames complementares), seja possível chegar a um diagnóstico e, a partir daí, iniciar o tratamento voltado ao seu alívio".

Subjetividade

Não só os aspectos físicos da dor devem ser levados em conta. Afinal, trata-se de um sintoma particular e, por isso, parte das causas está associada a fatores psicológicos, que podem contribuir para o aparecimento da condição dolorosa ou influenciar sua manutenção ou agravamento.

"Devemos valorizar as queixas de cada paciente, pois a dor é sempre aquela que ele diz sentir. Uma avaliação psicológica produz informações objetivas que contribuem para o planejamento terapêutico individualizado", salienta.

Na maioria dos casos, o tratamento é feito em conjunto com profissionais da área da saúde. A equipe é formada por fisioterapeutas, psicólogos, dentistas e enfermeiros, educadores físicos e terapeutas ocupacionais. Todos tem papel importante no resultado positivo do tratamento da dor.

"Fatores culturais e genéticos e experiências individuais são pontuais para observar como a dor se apresenta em cada paciente. Uma abordagem multiprofissional, interdisciplinar e mais humanizada faz diferença nos resultados alcançados", aponta Liane Brito.

A dor pode ser tratada por meio de medicamentos, associados ou não a procedimentos intervencionistas, que incluem desde bloqueios periféricos até cirurgias especializadas. É essencial seguir um protocolo lógico, sem pular etapas. Do contrário, o tratamento pode trazer resultados inadequados. "Muitas vezes, temos uma melhora na dor, ligada ao retorno de atividades sociais, familiares ou laborais, resgatando a qualidade de vida desses indivíduos".

Recomendações

Para se prevenir da dor, as indicações são as de sempre: atividade física regular e boa alimentação. Estudos apontam que quem se exercita pouco tem mais chances de ter fibromialgia, envolvendo dores musculares, fadiga, indisposição e distúrbios no sono.

Liane Brito garante que bom humor, otimismo e um sorriso no rosto melhoram o funcionamento do corpo e diminuem significativamente várias dores. Quem sorri, estimula o cérebro a liberar endorfina e serotonina, substâncias responsáveis pela sensação de prazer e felicidade. Mais que proporcionar leveza, ativam o sistema imunológico, ajudando a prevenir doenças ocasionadas pelo estresse. "Pesquisas também confirmam que o sorriso combate a depressão, diminui a pressão arterial, melhora a digestão, desintoxica o organismo e espanta a dor".

FIQUE POR DENTRO

Em prol da melhoria no trato com as dores

Fundada em 2003, a Sociedade Cearense para o Estudo da Dor (SECED) atua na promoção de melhorias no tratamento da dor no Estado ao realizar jornadas, simpósios e congressos. A entidade também auxilia na defesa de profissionais especializados e na melhora do acesso a serviços relacionados, tanto no sistema público como privado.

O principal objetivo é congregar profissionais da área da saúde interessados na pesquisa, no estudo e na terapêutica da dor e favorecer o ensino e a divulgação dos tratamentos. A nova diretoria propõe maior integração entre os profissionais da dor no Ceará para aperfeiçoar os tratamentos e realizar encontros científicos mensais que visam aprimorar os conhecimentos na área.

"Sentir dor não é normal. Não queremos que os pacientes pensem que ter dor é aceitável. Por isso, estudamos e nos especializamos continuamente para oferecer a eles o alívio tão desejado", afirma Liane Brito.

FRASES

"Parte das causas estão ligadas a fatores psicológicos. Por isso, devemos valorizar as queixas de cada paciente"

Liane Brito
Médica anestesiologista

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