SAÚDE

Doenças pelos fios

02:09 · 27.03.2011
A queda capilar (quando muito intensa) deve ser verificada, primeiro pelo dermatologista e, dependendo da causa, corrigida com tratamento clínico e nutricional adequado a cada caso
A queda capilar (quando muito intensa) deve ser verificada, primeiro pelo dermatologista e, dependendo da causa, corrigida com tratamento clínico e nutricional adequado a cada caso ( )
( )
A aparência dos cabelos costuma ser observada por grande parte das pessoas, principalmente as mulheres. Só que não se trata somente de vaidade. Os pelos do corpo são elementos importantes de proteção. E sua beleza é um valioso sinalizador de saúde, tanto física, como psíquica, resultando também em bem estar social.

De fato, se as emoções estão bem, em equilíbrio, o organismo como um todo refletirá isso, a começar pela aparência saudável no alto da cabeça.

Os profissionais (normalmente, dermatologistas com especialização em tricologia), indicam que a reposição capilar, nas quedas naturais (pouco mais de 100 fios por dia) costuma suceder subsequente, no ciclo de formação e crescimento do pelo.

Fatores internos

Em condições normais, as fases do ciclo capilar se alternam normalmente. Para esse processo ocorrer, dependerá de fatores internos como a irrigação sangüínea do folículo piloso (raiz), do estado nutricional do indivíduo, do equilíbrio hormonal, presença de doenças sistêmicas ou locais, da utilização de medicamentos e fatores psíquicos, sobretudo o estresse emocional.

De acordo com a doutora em Nutrição e Fisiologia Humana, Helena Ximenes, nas mulheres, a perda capilar pode acontecer em qualquer idade, estando normalmente relacionada a diversas causas, além das nutricionais, indo das alterações hormonais, passando pelo uso de medicamentos, tratamentos como radio e quimioterapia.

Já nos homens, acentua Dra. Helena, a perda se intensifica a partir dos 50 anos de idade. E pode se dever aos mesmos fatos já citados. "As deficiências nutricionais podem estar presentes em todos os casos ou não, se o problema for hormonal, a adequação nutricional não poderá reverter o processo", esclarece.

As causas hormonais da alopecia, esclarece a endocrinologista Maria José Cerqueira, podem estar situadas com o hipotireodismo (quando a glândula tireoide produz uma quantidade diminuta de hormônios tireoidianos), o hipertiroidismo (quando a tireoide produz hormônios em excesso) e a insuficiência das glândulas suprarrenais (duas pequenas glândulas que se localizam acima de cada rim, produzindo o cortisol).

Nesses casos, a endocrinologista diz que as características clínicas da alopecia são diferentes das que são de origem genética (ou hereditária). Em geral, a queda de cabelos é insidiosa, começando de forma mais lenta, sendo mais ou menos intensa, dependendo da alteração da glândula afetada. "A queda geralmente é universal, ou seja, não afeta só uma parte do couro cabeludo. O paciente nota comumente que o cabelo está caindo de forma mais aumentada como um todo. Outro diferencial é que o problema reverte com o tratamento da disfunção hormonal".

As quedas decorrentes das disfunções hormonais são mais frequentes em mulheres do que em homens, afirma Maria José Cerqueira, mesmo porque são elas que sofrem mais das disfunções decorrentes da tireoide e das glândulas suprarenais. E isso pode ocorrer em qualquer fase da vida.

Ela cita um outro tipo de queda capilar que é muito mais comum no sexo masculino, embora também possa ocorrer em mulheres. Trata-se da alopecia androgênica ou seborreica, onde a queda de cabelos se inicia nas regiões frontoparietais (popularmente conhecida como "entradas"), podendo progredir e atingir toda a parte central do couro cabeludo.

"Nestes casos, é comum que o paciente apresente aumento da oleosidade do couro cabeludo, a chamada seborreia. Esse tipo de alopecia é causada por aumento da produção de hormônio masculino (ou aumento da resposta do pelo ao hormônio masculino produzido)". Nos homens, revela a endocrinologista, isto resulta de fatores genéticos, por volta dos 30 anos. Já nas mulheres, é comum na época da menopausa.

Quando este quadro ocorre em mulheres jovens, a partir dos 18 anos, deve-se avaliar a possibilidade de ela ser portadora da síndrome dos ovários micropolicísticos (SOMP), onde há uma desregulação hormonal e, com isso, aumento desproporcional dos hormônios masculinos em relação à produção dos hormônios femininos.

Tratamento clínico

A dermatologista Maria José Diógenes esclarece que tanto para a alopecia androgenética masculina quanto a feminina costumam ser tratadas clinicamente com bons resultados, desde que o tratamento se inicie precocemente. "Durante o tratamento, notamos que os pelos voltam à espessura normal, alguns folículos sem cabelos são reativados, com surgimento de pelos novos. Aqueles folículos pilosos já destruídos ou inativos, permanecem sem resposta ao tratamento. Por este motivo, recomendamos procurar o dermatologista logo no início dos sintomas".

A melhora, afirma Diógenes, só pode ser observada depois de alguns meses de tratamento e existe necessidade de continuidade, porque uma vez suspenso o tratamento, os pelos voltam a cair, seguindo o curso natural das alopecias androgenéticas.

No tocante ao tratamento endocrinológico, Cerqueira procura corrigir a disfunção hormonal que o tenha originado, prescrevendo medicamentos para diminuir a produção do hormônio tireoidiano ou para estimular sua produção, ou reposição de cortisol, na insuficiência suprarrenal. Bem como corrigir a SOMP com anticoncepcionais dependendo de cada caso.

Dicas importantes

Evitar dietas da moda que exijam possíveis privações de nutrientes essenciais ao organismo;

Habituar-se a lavar os cabelos regularmente e com xampu suave, e nunca com água quente;

Evitar usar pentes afiados ou escovas de plástico, pois estes deixarão os fios quebradiços;

Não escovar ou pentear os cabelos com força quando molhados e só dormir com eles já secos;

Deixar os cabelos secarem naturalmente, após lavá-los. Se houver necessidade do uso do secador, não o segure próximo da cabeça (cerca de 15 cm é suficiente). Regular o calor para o mínimo ou o médio;

Evitar expor os cabelos com frequência a substâncias químicas agressivas como o cloro das piscinas;

Usar protetores solares apropriados para cabelos ou chapéus para protegê-los, bem como o couro cabeludo, da ação intensa do sol;

Procurar fazer - uma vez por semana - uma limpeza e massagem para estimular e promover a ativação do couro cabeludo.

A opinião do especialista
Realidade temporária

Denise Castelo Branco Martins*
Psicanalista*

Muitas vezes o tratamento quimioterápico no organismo feminino provoca algumas mudanças, que se constituem em um sofrimento tanto orgânico quanto psíquico. A imagem que a mulher contempla de si mesma, durante o tratamento, é bastante alterada.

Para algumas mulheres, os efeitos externos que provocam uma alteração na estética são fatores que desgastam muito o lado psicológico destas. A perda dos cabelos, as unhas enfraquecidas e quebradiças, a pele com cor e textura alteradas, são aspectos que interferem muito na dinâmica da feminilidade.

A vaidade feminina é, sem dúvida, um requisito que permeia a estrutura da mulher. Existe todo um mercado voltado para estimular e desenvolver o consumo de produtos que se destinam ao tratamento da beleza.

No momento em que uma mulher recebe o diagnóstico de uma patologia oncológica, muitas vezes ela não só sente como também é - em realidade temporária - subtraída deste mundo de "vaidades", o que certamente irá deixá-la em um conflito psíquico não só por este aspecto, mas também por muitos outros.

A autoestima fica muito comprometida. Não é incomum que a depressão acompanhe muitas mulheres durante o tratamento. Por isso, é importante que, durante este período, a família e todos que de certa forma possam pertencer ao cotidiano da paciente, sejam fonte de apoio para ela.

Vale ressaltar que, para algumas mulheres, mesmo sendo um período incontestavelmente difícil, o tratamento quimioterápico é bem suportado. E vê-se que muito em breve, muitas retornam às suas atividades de antes, inclusive retomando os cuidados com a aparência. Estas atitudes são muito positivas e devem ser estimuladas para a recuperação dos prejuízos somáticos e psíquicos, a fim de que elas possam superar da melhor maneira possível este drama pessoal.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.