Boas Escolhas

Dieta X saúde cardiovascular

00:23 · 05.03.2013
Sociedade Brasileira de Cardiologia apresenta diretrizes para a prevenção de doenças cardiovasculares

As opções alimentares multiplicam-se a todo instante. São diversos tipos de fast foods, porções congeladas e guloseimas. Diante de tantas tentações, cabe a cada um decidir ter uma alimentação saudável e, consequentemente, um estilo de vida mais equilibrado, no qual a saúde seja conquistada por meio do que se consome diariamente.

Ciente do fato de a alimentação está diretamente relacionada à prevenção de problemas graves, a exemplo das diversas complicações cardiovasculares, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) produziu a I Diretriz sobre o Consumo de Gorduras e Saúde Cardiovascular. O estudo, divulgado em janeiro deste ano, contou com a participação de membros das unidades estaduais e regionais e dos departamentos especializados, assim como grupos de estudo da SBC.

A pesquisa propõe: estabelecer graus de recomendação e níveis de evidência para diferentes estratégias e padrões dietéticos que se relacionem com o risco cardiovascular; e difundir o conhecimento entre profissionais de saúde e a população, visando reduzir as taxas de eventos cardiovasculares no País.

Para o cardiologista João David de Souza Neto, presidente do Departamento de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a diretriz chama atenção, sobretudo, para a importância das mudanças que estão acontecendo na nutrição dos brasileiros, comportamento que é reconhecido, segundo o médico, como importante fator de risco para o aumento das doenças cardiovasculares.

"Infelizmente, os dados estatísticos no Ceará são pouco conhecidos, mas sabe-se que o aumento na incidência diz respeito aos maus hábitos alimentares e à qualidade de vida", afirma.

No entanto, o trabalho da SBC traz alguns números importantes da Organização Mundial da Saúde (OMS), apresentando uma perspectiva global do que estamos vivendo hoje. Um deles, afirma que a doença cardiovascular é a principal causa de morte no mundo, representando 30% dos óbitos, estatística semelhante à registrada no Brasil.

A diretriz apresenta ainda a atenção rigorosa aos fatores de risco como base para a prevenção de doenças cardiovasculares. O controle da pressão arterial, a redução dos níveis de triglicérides e a elevação dos de HDL-c (lipoproteína de alta densidade) e o padrão alimentar são pontos que tornam o indivíduo mais vulnerável a um evento cardiovascular.

Sobre os hábitos inadequados, o cardiologista João David confirma a necessidade de maior atenção aos fatores de risco modificáveis, como o sedentarismo e alimentação desequilibrada. Cerca de 75% das doenças cardiovasculares, diz o estudo, poderiam ser evitadas caso práticas saudáveis fossem adotadas e atitudes incorretas afastadas do dia a dia.

"Esses fatores de risco modificáveis são bastante conhecidos pelos profissionais de saúde, havendo, portanto, grande necessidade de intensificar este alerta junto aos pacientes a fim de que estes possam estar mais prevenidos de problemas cardiovasculares", reflete João David.

Cenário nutricional

O hábito citado pelo médico é relatado no estudo. Este aponta que, hoje, o cenário da transição nutricional no Brasil é caracterizado pela desnutrição, deficiência de micronutrientes, excesso de peso e outras doenças crônicas não transmissíveis na mesma comunidade e/ou domicílio.

Outra questão relatada foi o aumento de consumo de alimentos industrializados, como pães, embutidos, biscoitos, refrigerantes e refeições prontas, tendo como parâmetro a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada em 2008/2009 e comparada à de 2002/2003.

"A dieta inadequada, rica em gorduras saturadas, juntamente com a presença de hipertensão arterial, diabetes mellitus, estresse e sedentarismo levam à formação de placas de gordura ao longo da vida, cujo desfecho será a presença da vasculopatia aterosclerótica (processo relacionado à formação da placa ateroma na parede dos vasos sanguíneos). As consequências estão associadas a casos clínicos, como o Acidente Vascular Encefálico (AVE). Os primeiros sinais podem ser fatais ou altamente limitantes", explica João David.

A formação da placa de gordura na parede dos vasos sanguíneos traz resultados clínicos graves, a exemplo do infarto do miocárdio, e é associada a determinados fatores de risco cardiovascular, como a hipertensão arterial e obesidade.

Ainda sobre o cenário alimentar, o estudo aponta o consumo elevado de gorduras, principalmente as saturadas, nas regiões urbanas mais desenvolvidas. A distribuição de macronutrientes acontece da seguinte forma: 59% das calorias estão representadas por carboidratos, 12 % por proteínas e 29% por lipídeos.

Além disso, outros comportamentos negativos registrados no estudo diz respeito ao limite máximo, ultrapassado em 10%, de calorias provenientes dos açúcares, assim como a participação insuficiente de frutas (2%), verduras e legumes (0,8%), quando o consumo mínimo recomendado destes itens é de 9% a 12%. "Esse padrão dietético associa-se ao aumento de excesso de peso e obesidade crescente da população brasileira", descreve a pesquisa da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Gorduras saturadas

São as gorduras saturadas que merecem atenção especial, tendo em vista que elevam a concentração plasmática de colesterol, exercem efeitos em diferentes aspectos fisiológicos e metabólicos e podem influenciar o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. O limite de gordura saturada é 10% das calorias totais.

Segundo a diretriz, uma colher de sopa (10gramas) de creme vegetal corresponde a 15% da recomendação diária de poli-insaturados que a OMS determina para um indivíduo com dieta de duas mil calorias. "A substituição de gordura saturada por mono e poli-insaturada é uma estratégia para a redução de eventos clínicos", informa a pesquisa.

Mitos e dúvidas

Ao levar em consideração a importância de se alimentar adequadamente, o estudo da SBC cita o caso de alimentos como queijo, chocolate, ovo, carne e manteiga, itens que estão sempre cercados de mitos e dúvidas.

A diretriz revela, por exemplo, que apesar de as carnes serem importantes fontes de proteínas, vitaminas B e ferro, em especial as vermelhas, elas são responsáveis por significativas taxas de gorduras saturadas. "Estudos que analisaram o impacto de planos alimentares com consumo controlado de carne vermelha indicaram redução da pressão arterial e menor risco de mortalidade por doenças cardiovasculares", revela o trabalho.

Outro ponto questionado é a equiparação entre homens e mulheres nas ocorrências de patologias que envolvam complicações cardiovasculares. Os motivos possíveis e principais: estresse e vida agitada. João David informa que, hoje, a mulher está submetida aos mesmos fatores de risco que os homens, no entanto, as alterações hormonais são consideradas mais um agravante. "Apesar disso, os sintomas de aparecimento das doenças cardiovasculares (infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico) são similares em ambos os sexos", pontua.

O cardiologista destaca a necessidade de uma atitude preventiva. "É preciso a realização de campanhas junto à população, principalmente na região Nordeste, onde os maus hábitos alimentares estão enraizados há muito tempo. Eles precisam ser modificados gradativamente para que os problemas cardiovasculares sejam evitados", conclui.

FIQUE POR DENTRO

Ômega-3: aliado na prevenção de eventos clínicos

Os ácidos graxos Ômega-3 são entendidos como ácido docosaexaenoico (DHA) e ácido eicosapentaenoico (EPA), de origem marinha e alfalinolênico (ALA) de origem vegetal. Eles provocam inúmeros efeitos, como a melhora da função autonômica, antiarrítmico, diminuição da agregação plaquetária e da pressão arterial, melhora da função endotelial, estabilização da placa de ateroma e de triglicérides.

Embora seja consenso que o consumo regular de peixes ricos em ácido graxo Ômega-3 faça parte de uma alimentação saudável, a recomendação de suplementá-la com cápsulas de óleo de peixe é cercada por controvérsias, fomentadas por resultados conflitantes de inúmeras pesquisas.

Vários estudos clínicos sugerem que os ácidos graxos Ômega-3 podem exercer uma proteção particular contra morte súbita, sobretudo nos pacientes vitimados por infarto do miocárdio. É possível também que o ácido graxo Ômega-3 exerça papel protetor de eventos cardiovasculares. Em um estudo randomizado, a suplementação com óleo de peixe mostrou que os ácidos Ômega-3 rapidamente se incorporam na placa aterosclerótica e podem induzir modificações significativas.

JÉSSICA PETRUCCI
REPÓRTER

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