Dificuldades

Diagnóstico de transtorno bipolar pode levar 10 anos

00:11 · 13.08.2013
Quando uma pessoa adoece ela não adoece sozinha. Infelizmente, a máxima é aplicada para diferentes patologias; com o transtorno afetivo bipolar não é diferente. Daí ser tão importante se chegar ao diagnóstico correto no menor tempo possível, uma vez que "a demora pode levar, sim, à cronificação da doença, prejuízo funcional e na qualidade de vida de pacientes e familiares", descreve a Dra. Valéria Barreto Novais e Souza.

Dra. Valéria Barreto Novais e Souza: "A Associação Brasileira de Psiquiatria tem feito um trabalho importante de educação mental, mas é necessário um maior envolvimento de outras entidades médicas e governamentais" foto: Alex Costa

Identificação de sintomas

O diagnóstico do TB requer pelo menos um episódio de mania (bipolar I) ou hipomania (bipolar II), não sendo necessário que o paciente tenha apresentado episódio depressivo e de elevação do humor.

"Como na maioria das vezes o paciente só procura ajuda quando está deprimido, isso dificulta o diagnóstico correto, que pode demorar até 10 anos para ser realizado", afirma a médica.

A dificuldade é maior quando o paciente é bipolar do tipo II, ou seja, apresenta depressão e hipomania (estado difuso de bem-estar e sensação de energia mais elevada que a média). Isso ocorre porque os portadores conseguem se manter em plena atividade, seja no trabalho, nos estudos ou socialmente, embora passem a ser vistos como pessoas muito instáveis.

Além de o fato da demora para obter o diagnóstico preciso do TB ser observado não só no Brasil, mas no mundo como um todo, de acordo com a Dra. Valéria Novais e Souza: "é importante ressaltar que os portadores desse transtorno ´tentam´ e ´conseguem´ se matar mais do que a população em geral".

A falta de estrutura e assistência psiquiátrica amplificam o sofrimento do paciente e de seus familiares. "Quando a assistência é precária, existem dificuldades de acesso a atendimento médico e hospitalar, assim como a medicamentos. Os riscos de quadros mais graves aumentam, assim como o abuso e dependência química, além de HIV e suicídio".

Dra. Valéria Novais e Souza informa que a prevalência de transtornos de humor bipolar em estudos na população varia de 1,3 (Epidemiologial CatchmentAreaStudy, 1984/1988) a 5,8 (Zurique, 2003). Os estudos em famílias de pacientes com TB mostram um risco sete vezes maior para parentes de primeiro grau.

A manifestação dos sintomas pode surgir após fatores desencadeantes: situações de estresse (acidente, sequestro, assalto, violência), perdas importantes (de uma pessoa querida, separação, poder aquisitivo, emprego, etc.).

O tratamento do TB continua tendo o lítio como padrão. Outros fármacos (anticonvulsivantes e antipsicóticos) também são eficazes. "A maioria dos pacientes é tratada com a combinação de pelo menos três psicofármacos. Não se consegue estabilizar o humor com menos. Apesar de ter melhorado, a informação para a comunidade precisa de um projeto mais abrangente e contínuo. Os meios de comunicação podem contribuir para desmistificar as doenças mentais".

FIQUE POR DENTRO

Quando se perde a medida entre alegria e tristeza

Não há quem não tenha vivenciado emoções de alegria e tristeza. Mas quando a intensidade e a frequência são aumentadas - comprometendo a atividade funcional do indivíduo - o comportamento passa a ser visto como algo patológico e precisa de ajuda médica.

"Muitas vezes a pessoa consegue continuar suas atividades, mas é com um custo alto, e precisa fazer um esforço para se manter funcionante", esclarece a Dra. Valéria Souza.

O humor oscila ao longo da vida dos pacientes bipolares. Nos períodos de mania/hipomania, vivencia tudo "demais"; tanto vale para a alegria (euforia), muita energia, pensamentos e ideias e planos. A pessoa fala em demasia e rapidamente, torna-se explosiva, gasta com o mesmo ritmo e acaba acumulando dívidas. Passa a dormir tarde e acorda cedo; inicia atividades que não consegue dar continuidade. Se despe de autocrítica, passa a ser inconveniente, acha-se capaz de tudo. Costuma envolver-se em atividades perigosas e relacionamentos sexuais de risco.

Na depressão, perde o interesse e prazer no que sempre gostou de fazer, torna-se pessimista, tem alteração no sono e no apetite (para mais ou para menos). Cansa facilmente, tendo dificuldade de concentração e memória, e suas atividades são feitas com muita lentidão. Mais grave: a ideia e a tentativa de suicídio.

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