Distúrbios do sono

Diagnosticar a causa-base é determinante

00:08 · 09.04.2013

Se os homens são de Marte e as mulheres, de Vênus, há distúrbios do sono que perturbam mais um do que o outro

A quantidade de sono médio da população corresponde cerca de 7h30 a 8 horas, não havendo diferença significativa entre homens e mulheres. No entanto, essa relação de igualdade muda entre os sexos quando se trata de transtornos. Para Manoel Sobreira, neurologista especialista em Medicina do Sono, a insônia prevalece nas mulheres, enquanto a síndrome da apneia obstrutiva do sono, em homens.

Dificuldade para iniciar o sono ou para mantê-lo, acordar e não conseguir mais dormir são efeitos da insônia. Além de doença por si só, ela também se apresenta, na maioria das vezes no sexo feminino, como um sintoma. “A exemplo das patologias psiquiátricas, em particular a ansiedade e a depressão, que são mais frequentes nas mulheres, devido, entre outros aspectos, a fatores sociais. Ou seja, os motivos que justificam a maior prevalência da insônia em mulheres passa pela causa das ocorrências de depressão, ansiedade e outras doenças”, justifica o médico.

Por isso, antes de iniciar o tratamento, é necessário diagnosticar a causa básica. “É preciso identificar o que está provocando a insônia para tratar a causa e, não simplesmente, a ausência de sono”, explica. O diagnóstico é realizado por meio de avaliação clínica.

Nos casos em que a insônia é detectada como patologia, o tratamento pode acontecer de duas maneiras: uso de medicamentos prescritos pelo médico ou Terapia Cognitiva Comportamental específica para o distúrbio. A terapia é realizada por um psicólogo especializado que trabalha as causas daquela insônia. “Há ocorrências em que o indivíduo teve um quadro depressivo e, mesmo após a melhora, desenvolveu alguns hábitos de sono inadequados. A terapia foca nisso e, muitas vezes, é melhor do que a medicação, por ser mais efetiva e mostrar resultados a longo prazo. Outras vezes, une-se o tratamento medicamentoso com a terapia”.

Os marcianos

Já no sexo masculino, prevalece a obstrução intermitente das vias aéreas, chamada de apneia obstrutiva do sono. Caracteriza-se pela interrupção da respiração no sono, fazendo o sujeito despertar para resgatar o ato de respirar. Processo que ocorre aleatoriamente e diversas vezes durante o sono, esse transtorno ocasiona um sono fragmentado.

A incidência no homem se deve pela maior prevalência de obesidade no gênero, uma vez que a deposição de gordura não acontece apenas na região abdominal, como também em estruturas internas do organismo, inclusive na região da faringe e da laringe, tornando-os favoráveis à apneia. Outro fator é a predisposição genética que apresenta uma conformidade crânio-facial, forma de alinhamento das estruturas do crânio, da face e da laringe que contribuem para a doença. E, por fim, o envelhecimento, provocando a flacidez do corpo como um todo, caso da laringe e da faringe.

Com esses fatores, é comum ter no ronco um dos efeitos da apneia. “Antes de acontecer a obstrução nas vias aéreas, o indivíduo ronca, porque a via aérea está mais estreitada do que deveria estar, mas não chega a ficar obstruída. Em determinados momentos, isso pode acontecer. Por isso, deve-se ficar atento a quem ronca para verificar com um médico se o estreitamento na via aérea é suficiente para causar a síndrome da apneia obstrutiva do sono. Ou seja, todo indivíduo que tem apneia ronca, mas nem todo indivíduo que ronca tem apneia”, alerta.

O diagnóstico do distúrbio é feito por um exame que avalia o sono, a polissonografia. São colocados eletrodos ao longo do corpo (na cabeça, no nariz, na boca, no queixo, nas pernas, além de uma cinta torácica e abdominal). “A pessoa dorme na clínica para verificar as etapas do sono, entre vários outros aspectos”.

Para o tratamento, há três modalidades. A mais eficaz, considerada padrão ouro, é feita pelo aparelho de pressão positiva à via aérea chamado C.P.A.P. (Continuous Positive Airway Pressure). Outra opção é o dispositivo intraoral, indicado em casos leves e moderados, cuja função é anteriorizar levemente a mandíbula. É possível também em casos leves e alguns moderados, realizar a cirurgia uvulopalatofaringoplastia, que consiste em uma plástica na úvula, no palato e na parede lateral da faringe, a fim de diminuir a região que está causando os roncos e as apneias. “Todas as modalidades devem ser recomendadas pelo médico. Do contrário, não haverá eficácia”, encerra.

Utilizado durante o sono, o aparelho cria uma coluna de ar na via aérea do paciente, impedindo a ocorrência de episódios de apneia. Na maioria das vezes, o benefício sobrepõe o incômodo aparente causado pelo C.P.A.P. Foto: Marília Camelo


Padrão ouro

C.P.A.P.

Abreviatura que denomina Pressão Positiva Contínua Nasal (em português). Quando recomendado pelo médico, o aparelho é considerado padrão ouro pela sua eficiência no tratamento da apneia obstrutiva do sono.


Quarto é local para dormir

Cada indivíduo é um ser subjetivo e o método de higiene do sono varia de eficácia conforme cada caso. “Existem pessoas que relaxam com o simples ato de chegar em casa, tirar os sapatos, tomar um banho e conversar. Outras, transferem para o papel tudo o que viveram no dia incluindo os fatos perturbadores. Há também os que preferem extravasar os problemas em uma academia, e assim por diante”, diz a psicóloga e professora doutora Catarina Nívea.

O ambiente do quarto deve ser um lugar propício para uma boa noite de sono. Daí, é importante optar por cores neutras e claras; ausência de elementos estimulantes (televisão, computador, livros); baixa luminosidade (no máximo, uma luz de penumbra); temperatura agradável e nível de ruído reduzido.

O colchão e os travesseiros devem ser confortáveis. Em relação à posição, é preciso dormir com a coluna alinhada de maneira confortável. Além disso, nunca é demais lembrar que a cama deve ser usada apenas para o sono ou para ter relações sexuais. “O cérebro trabalha em associação. Se realiza muitas ações no quarto, a relação entre a cama, o ato de dormir e relaxar não é estabelecida”, ressalta.

Horário regular para deitar e acordar são essenciais para criar hábitos saudáveis. É prudente evitar cochilos prolongados durante o dia (máximo de 45 minutos). Do contrário, a tendência de não ter sono à noite é maior.

Também deve-se evitar permanecer na cama quando não se tem sono. Os esforços não terão efeitos positivos, afirma o neurologista Manoel Sobreira. “O sono não é uma questão de persistência. Quanto mais se tenta dormir, mais o indivíduo tem dificuldade em conseguir, podendo gerar ansiedade”. O ideal é levantar da cama e desenvolver atividades relaxantes.

A alimentação é outro aspecto que deve ser observado com atenção. É indicado comer pequenas porções ou alimentos leves no período noturno; evitar bebidas alcoólicas e cafeinadas (café, chá preto, chá verde, chocolate, refrigerantes e guaraná), principalmente nas 6 horas que antecedem o período de sono. Aos que bebem para conseguir dormir, o neurologista garante que o efeito origina o sono de pior qualidade, fragmentado e superficial.


Escolha

"Exercícios físicos são sempre boas escolhas. Mas dê preferência a exercícios no período matutino ou vespertino".
Manoel Sobreira
Neurologista Especilista em Medicina do Sono


Vicky Nóbrega
Especial para o Vida

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