LUTO

Despreparo para as perdas

22:20 · 28.05.2011
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As perdas significam um investimento emocional frustrado, projetos interrompidos e vínculos destruídos
As perdas significam um investimento emocional frustrado, projetos interrompidos e vínculos destruídos ( FOTO: ARQUIVO )
A morte é uma etapa do ciclo da vida difícil de ser encarada. Seja pelo medo da própria morte, seja pela ausência de um ente querido, ela representa uma perda, e o homem nunca esteve preparado para perder. "A morte é vista como uma das maiores derrotas, pois é onde a humanidade encontra seu limite maior e entende que não pode brincar de ser Deus", diz a psicóloga mestre em Ciências da Religião pela PUC/SP, Clarissa de Franco.

As perdas têm a ver com investimento emocional frustrado, projetos interrompidos e vínculos destruídos. A morte, em especial, foi vista de diversas formas pela sociedade. Durante a Idade Média, era entendida como um alerta para o Juízo Final, um controle social por parte da Igreja. Durante o Romantismo, era exaltada por ganhar um aspecto mítico e idealizado. "Nos tempos modernos, a morte é vista como uma adversária a ser combatida por seres humanos ávidos por superação, beleza e juventude", afirma a psicóloga.

Apego, negação, culpa

O apego é uma das questões que dificultam a lida com a perda. Uma espécie de sentimento de que fomos "roubados"; como se a vida houvesse tirado algo de nós, e isso se contradiz dentro da noção de poder de escolha que acreditamos ter. No entanto, Clarissa de Franco, que lida com pessoas em período de luto em clínicas e hospitais, defende a ideia de que a morte é um marcador que impulsiona a vida, pois, se tivéssemos todo o tempo do mundo, não produziríamos tanto.

Somos capazes de ver a morte de diferentes formas. As crianças costumam relacioná-la aos sonhos ou objetos que desaparecem; os adolescentes atribuem à morte uma ideia trágica e dramática; os adultos jovens se voltam para o isolamento, negação e questionamentos existenciais. Já os idosos tentam vivenciar a morte em silêncio, refletindo a própria morte que se aproxima.

A psiquiatra suíça Elizabeth Klüber-Ross, pioneira nos estudos sobre o tema, alerta em seu livro "Sobre a morte e o processo de morrer", que, diante de uma perda, as pessoas tendem a passar pelos estágios da negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, que não são necessariamente subsequentes, podendo ocorrer simultaneamente.

"Negar é não poder ver e usar recursos para afastar a realidade que dói. Entre esses recursos está acreditar que o morto voltará, manter todos os seus objetos intactos, ou negar a dor da situação de modo desproporcional ao que o momento pediria, ou entregar-se a algum vício", explica Clarissa de Franco.

No momento de raiva, tenta-se procurar um responsável pela dor. Na barganha, tenta-se negociar com o destino, agarrando-se a promessas, sendo a depressão o último estágio antes da aceitação. E isso não ocorre por acaso. "Quem se deprime está mais perto de ver as coisas como elas são e ver a devastação que a morte causou. O perigo desse estágio é o tempo de permanência", revela.

A aceitação só é possível quando nos tornamos capazes de ver, tocar, falar sobre a morte, o que não significa esquecer ou deixar de sofrer ao pensar na perda, mas fazer as pazes com o tempo e dar chance para a vida. Uma forma de fazer isso é pensar no quanto foi prazeroso o tempo em que se pôde desfrutar da presença desse ente querido.

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