TEMPO

Desacelere

20:59 · 10.02.2011
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O ato de parar evoca um mergulho interior e a necessidade de cuidar da saúde

O despertar ao som da Ave Maria de Bach/Gounod e espreguiçar aos acordes do Bolero de Ravel podem prenunciar um dia particularmente feliz. E se no intervalo entre um clássico e outro, nos permitirmos ouvir o canto dos pássaros e olhar para dentro de si, teremos reunido energia suficiente para que nem mesmo o trânsito, as cobranças por resultados no trabalho ou as contas a pagar, nos tirem do sério (do eixo/equilíbrio).

Quem nos presenteia com este belo despertar é o empresário e músico Luiz de Melo Andrade, da MRH Gestão de Pessoas e Serviços. Todas as quintas feiras, às seis horas, munido de sax, partituras e um banquinho, Melo faz o que lhe dá mais prazer: levar sua música a todos os recantos do entorno da praça e ajudar a tornar "o hoje e o amanhecer numa dádiva extraordinária", diz.

Ao realizar os concertos semanais na Praça Martins Dourado, no bairro do Cocó (que em 2005 recebeu o prêmio "Gentileza Urbana", do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB/CE), ele põe em prática o que é preconizado pelo "slow life", movimento que ganha cada vez mais adeptos mundo afora e convida a desacelerar para se reconectar a si mesmo, às pessoas e ao lugar em que se vive.

Slow e sempre

Melo prova que é perfeitamente possível conciliar a agenda de compromissos voltados para o trabalho e os outros afazeres com a do "eu cuidar de mim" e conseguir viver sem atropelos. "Fazer tudo na pressa, no corre-corre, vira vício. Tomar banho rápido demais, se vestir sem curtir a roupa (a aparência), rapidez no comer, pressa no transito, falta de tempo para os filhos.....e a vida corre assim, a lugar nenhum", afirma.

O movimento que prega uma maior consciência sobre o tempo - nascido "Slow food", em 1986 - se transformou em várias facetas: na busca por um ritmo mais lento para realizar deslocamentos (mais caminhadas e menos carros); na produção de bens (consumir menos para preservar mais); e até na educação (atenção para as vivências artísticas/artesanais.

A coragem de buscar coisas novas pode ser um bom começo. "Conheço pessoas que falam da vontade de fazer um curso de dança ou Ioga, estudar música, fazer isso e aquilo, mas não se libertam dos compromissos - da prisão sem grades - adiando vivenciar novas experiências e relacionamentos, e continuam no mesmo; sempre apressadas e estressadas, levando uma vidinha chata", argumenta.

Para não se render ao que defende Carl Honoré, em "Devagar - Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade" (Editora Record), de que "viver com pressa não é viver, é sobreviver", Luiz de Melo diz que é preciso se despir do preconceito de achar que não tem tempo para fazer coisas novas. O problema, segundo ele, é que a maioria das pessoas foca o seu tempo no adquirir para o fazer e para os outros (filhos, mulher/esposo, parentes, etc) e esquecem de si mesmos.

A mudança na forma de usar o tempo a seu favor pode começar de várias formas. A dele, confessa, teve início quando decidiu, há cinco anos, ingressar no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno "sem nunca ter pego em um instrumento musical". Conta que teve que vencer medos e preconceitos e até a "gozação dos amigos que não acreditavam que iria conseguir ser um músico".

O empresário descobriu que a prática musical é uma fonte inesgotável; um meio de compartilhar boas lembranças, viver bons momentos, emocionar e se emocionar. Autor, juntamente com o pianista Cleilson Marinho, do CD "Fascinação", Melo se prepara para lançar um novo trabalho este ano e destinar a renda para mais um trabalho social (em 2010 a renda foi investida na Fundação Franklin Roosevelt, que abriga 140 crianças em situação de risco na Serrinha).

Resignificar

"Ser professor para mim é um verdadeiro ócio", afirma o coordenador do Laboratório Otium de Estudos sobre Ócio, Trabalho e Tempo Livre, da Universidade de Fortaleza (Unifor), Clerton Martins. No entanto, nem sempre se permitiu viver o ócio.

A mudança ocorreu após presenciar por anos seguidos - quando atuava como administrador de Recursos Humanos - a grande insatisfação das pessoas, com escolhas desastrosas sobre suas próprias vidas, dificuldade de pararem e resignificarem o tempo. A decisão não foi fácil para chegar a sua nova escolha. O professor diz ter conseguido compreender a tempo que "o que construímos de conhecimento nos pertence e ninguém nunca poderá nos tirar".

A dificuldade das pessoas de pararem para viver o ócio está em se escutarem, revela Martins, que em seu pós-doutorado (pelo Instituto Multidisciplinar de Estudios de Ocio (IEO), da Universidad de Deusto, Espanha), desenvolveu projeto sobre "Educação para o Ócio (2005/2006), no Programa de Doutorado em Ócio e Potencial Humano.

Parar, diz Clerton Martins, indica a necessidade de ouvir seu interior, sem ser afetado por um turbilhão de "afetos" exteriores (incluindo todas as pessoas e coisas que atraem sua atenção e que o afetam). "Parar representa aquele encontro consigo mesmo, encontro tão necessário para retomar o fluxo da vida e permitir que ele continue acontecendo qualitativamente", descreve o professor .

Ócio

"Parar indica a necessidade de ouvir seu interior, sem ser afetado por um turbilhão de afetos exteriores."

Prof. Clerton Martins
Coordenador do Laboratório Otium/Unifor

GIOVANNA SAMPAIO
EDITORA

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