Álcool e drogas

Dependência afeta as finanças, a vida social e a rotina da família

00:00 · 16.12.2013

Quase todo mundo tem na família ou já ouviu falar de um parente que passa da conta quando bebe, do pai que incentiva o filho a experimentar bebidas alcoólicas no início da adolescência, da filha que começa a beber com os amigos sempre que sai para se divertir e por aí vai. A cena é mais comum do que se pensa e se repete em milhares de lares.

Pais, cônjuges e filhos sofrem as consequências do uso abusivo de álcool e drogas, mas são as mães e "chefes de família" as mais atingidas FOTO: TUNO VIEIRA

De acordo com o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II Lenad), o País tem hoje mais de 8 milhões de dependentes químicos; e em 57,6% das famílias há algum parente que faz uso de substâncias ilícitas. São, na maioria, usuários de álcool, maconha e cocaína.

A ingestão abusiva de álcool e drogas está entre os fatores responsáveis pela morte prematura e perda de vida saudável e produtiva nas Américas. As conclusões são do relatório sobre a Carga Global das Doenças da OMS. Entretanto, não são apenas os usuários e os governos que sofrem com as dimensões sociais, econômicas e de saúde pública do uso dessas substâncias. As experiências vividas pelas famílias são devastadoras nos aspectos físico, financeiro, de relações interpessoais e sociais.

Foco na família

É o que revela o Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (Lenad Família), estudo realizado pela Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas (Inpad).

Entre junho de 2012 e junho de 2013, 3.142 famílias de dependentes químicos em tratamento foram entrevistadas em todo o Brasil. Comunidades terapêuticas, clínicas de internação e grupos de ajuda participaram da pesquisa, uma vez que pouco mais de 53% dos pacientes estavam internados durante a entrevista.

Perfil do paciente

O II Lenad estima que, atualmente, pelo menos 28 milhões de brasileiros vivem com um dependente químico na faixa etária dos 12 aos 82 anos. Grande parte são homens com idade média de 32 anos; 1/3 possui ensino superior completo ou incompleto. 80% dos familiares são mulheres e quase a metade delas é a mãe do usuário. São elas as responsáveis pelo tratamento em 66% dos casos e desempenham o papel de "chefes de família". As consequências da dependência também chegam a outros familiares próximos (cônjuges, pais e filhos). É preocupante, contudo, o fato de que as primeiros goles e as primeiras tragadas começam, muitas vezes, dentro de casa.

Influência familiar

Os parentes dos pacientes em tratamento apontam as más companhias (46,8%) e a autoestima baixa (26,1%) como principais fatores responsáveis pela dependência. No entanto, a falta de orientação da família pode implicar diretamente para que ela aconteça.

Na maioria das vezes, a ingestão de álcool e drogas só é percebida pelos familiares quando existem mudanças no comportamento do usuário. 44,3% deles identificam o parente como agressivo, alienado e indiferente, mas a percepção demora a vir à tona e atrasa o tratamento. Apesar da idade média dos pacientes ser de 13 anos, o conhecimento do uso pela família vem, em média, somente após 8,8 anos.

Os impactos na estrutura familiar não demoram a aparecer. A dependência afeta a rotina, as funções, a comunicação, a vida social e as finanças da família. Comportamentos que incluem violência doméstica, abuso infantil, roubo de bens, condução de veículos em estado de embriaguez e ausências prolongadas são descritos pelos familiares.

Tratamento

Tanta vulnerabilidade torna-se um risco para a saúde. O Lenad Família mostrou que familiares de dependentes químicos apresentam mais sintomas físicos e psicológicos decorrentes disso.

A recusa do paciente é a principal razão da demora do tratamento. Entre os usuários de cocaína e crack, o tempo médio para procurar ajuda após ter o conhecimento do consumo foi de dois anos. Para os dependentes de álcool o retardo é ainda maior: passa dos sete anos, na maioria dos casos. Somente um terço dos familiares procurou ajuda imediatamente após ter descoberto a situação do parente.

FIQUE POR DENTRO

CAPS-AD presta serviço para dependentes

O Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD) é um serviço do Sistema Único de Saúde (SUS) especializado em saúde mental que atende pessoas com problemas decorrentes do uso dessas substâncias.

O objetivo é acolher indivíduos dependentes (álcool e outras drogas), estimular a integração com a sociedade e a família, além de apoiá-los em suas iniciativas de busca da autonomia e oferecer-lhes tratamento especializado.

O serviço é ambulatorial e o tratamento abrange atividades que vão desde o atendimento individual ao acolhimento, passando pela observação, repouso, desintoxicação para usuários que precisem de acompanhamento. O Ceará conta hoje com 18 CAPS-AD e, em Fortaleza, há um disponível para cada regional.

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