COMPANHEIRISMO

De solitários a solidários

03:37 · 13.02.2011
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Ao ver na mídia as manchetes de alguns casos - mesmo raros - de pessoas com mais de duas décadas que convivem com o HIV e nunca tiveram que tomar o coquetel de medicamentos e, também, um tratamento específico (para leucemia) que fez com que o HIV desaparecesse totalmente do sangue de um paciente, curado da Aids, o físico e hoje terapeuta quântico, Harbans Lal Arora, não se surpreendeu. Na verdade, ficou ainda mais animado para computar cientificamente o quadro viral das pessoas que acompanha nos últimos 10 anos.

Sua abordagem orienta cada soropositivo a tomar a vida em suas próprias mãos, buscando o acompanhamento sequencial e regular (exames trimestrais da carga viral, consultas ao infectologista e uso de medicamentos, quando necessário), integrando a esses cuidados algumas práticas de respiração, meditação e, sobretudo, afeto, amor e compaixão para com quem sofre.

Isolamento adoece

Os integrantes da Rede Solidária Positiva, que em entrevista optam por ficar no anonimato para não deixarem expostos seus familiares ou sofrerem rechaço no trabalho, saíram há muito tempo da posição de vítimas do HIV.

Conseguiram entender que, embora ainda exista no pensamento coletivo (incluindo aqui até um porcentual da classe médica) o vírus como o grande vilão da Síndrome, a consciência adquirida com o impacto do diagnóstico e de um período conturbado que penalizou seu próprio corpo, funcionaram como uma alavanca para avaliarem seu estilo de vida desregrado, e promoverem mudanças necessárias para saírem do completo isolamento, prejudicial para esta e outras doenças.

A ponta do iceberg da reintegração interior e exterior já havia sido observada por Arora há quase duas décadas atrás, quando ele ainda era professor de Física da Universidade Federal do Ceará e decidira acompanhar pacientes oncológicos no Hospital do Câncer, muitos dos quais chegaram à total recuperação.

A ampliação de seu foco para as pessoas vivendo com HIV/Aids foi natural. Percebeu que muitos problemas podem ter seus quadros alterados quando se atua com inclusão e integração de abordagens.

João (nome fictício), tem 35 anos e um filho de 22. Apesar do semblante bem alegre e o corpo robusto, recorda já ter estado à beira da morte. E sabe bem porque. Com uma carreira promissora (conseguiu se aposentar), lembra que, vez por outra, fazia programas sexuais por divertimento. Se os clientes pagassem bem, podia ser sem preservativo. Uma roleta russa quase com um final trágico.

A negação e recusa em procurar comprovação do problema que o fazia perder muito peso e sentir-se fraco fez com que adiasse até o último momento, quando teve de ser internado no Hospital São José às pressas, onde passou vários meses.

E mais doloroso do que isso tudo foi o que sofreu por parte dos familiares: "Fiquei em um quartinho dos fundos, escondido do mundo. Estava anêmico e muito magro. Todos sentiam vergonha e me tratavam com desprezo". Hoje, com baixa carga viral (duas mil), participa da Rede Solidária. Realizando trabalho de conscientização da população, entregando preservativos nos terminais de ônibus e conversando com as pessoas.

O HIV continua sendo um desafio enorme para todos que convivem com ele, médicos e cientistas. Hoje já se entende que o sistema imune tem relação direta com o comportamento. E responde bem quando se sai da negação e do rechaço (que sempre desemboca em uma vitimização) para a autoresponsabilidade, tanto na prevenção e autocuidados, como na cooperação e solidariedade.

ONGs como a Rede Solidária e a Propares, que esclarecem os soropositivos e as populações com conduta de risco (esta última mantendo o foco na saúde sexual e reprodutiva dos jovens), constituem hoje esse ponto de luz e suporte para as mudanças necessárias, até a breve e definitiva cura .

Rede de resultados

Segundo relatório de 12 soropositivos que integram a Rede de Solidariedade Positiva, acompanhados com as terapias quânticas:

Vivem com o HIV em um período de quatro a 24 anos;

Apresentam bom enfrentamento do problema;

trocam experiências com outros soropositivos;

Têm atitude ativa e solidária para com grupos de soropositivos;

Participam de atividades e de grupos de apoio (Ong) que assistem pacientes com HIV/Aids;

Contam com apoio familiar sobre seu problema;

Cultivam uma atitude de fé, religiosidade e esperança;

Cuidam-se melhor e regularam seu estilo de vida;

Praticam exercícios físicos;

Compreendem e aceitam a doença;

Cultivam amor pela vida.

Com base em exame realizado nos últimos três meses, todos inicialmente com carga viral detectável, entre 2 mile 50 mil cópias: 8 apresentam hoje carga viral indetectável; 4 com carga viral detectável (entre 2 mil cópias a 16 mil cópias). Praticamente todos praticam algum exercício de Yoga (polegar, respiração e meditação).

MAIS INFORMAÇÕES

Telefones:

Rede Solidária: (85) 3221.1418
Propares: (85) 9991-6797
Nami /Unifor: (85) 3477-3626
Harbans Arora: (85) 3234.0789

Entrevista
Keny Colares*

Ambulatório de Infectologia do Nami assiste a pacientes soropositivos

Desde quando o Ambulatório de Infectologia do Nami funciona?

Iniciamos no dia 5 de agosto do ano passado. O serviço é muito jovem, ainda em fase de implantação. Sua criação é resultado de uma ampliação expressiva das áreas de atendimento médico do Nami. Por sua vez, consequência da implantação do Curso de Medicina da Unifor, em 2006. Os pacientes vivendo com HIV/Aids (uma das linhas prioritárias) são atendidos desde nosso primeiro dia.

Por que desse interesse?

Avaliamos ser importante que nossos alunos tivessem oportunidade de serem treinados no atendimento a esse tipo de paciente, por ser um aspecto importante na formação técnico-científica dos futuros médicos. E, ainda, mais decisivo na formação ética e humana dos profissionais, necessárias para enfrentar tantas condições que surgem ao cuidar de pessoas, que apresentam um amplo espectro de comportamentos.

O senhor se refere a doenças estigmatizadas e/ou desconhecidas?

Na verdade, assuntos como sexualidade, uso de substâncias ilícitas, prostituição e uma diversidade de comportamentos ainda são tabus para os profissionais de saúde, sem preparo para lidar com isto. Talvez esta seja uma explicação do motivo pelo qual, muitas vezes, a discriminação tenha origem entre os próprios profissionais de saúde.

Devemos ser os primeiros a acolher nossos pacientes de forma plena e igualitária. Quando procuramos os gestores estaduais e municipais do programa de DST/Aids, contamos com imediata colaboração, visto que já existia a compreensão da necessidade urgente de ampliação de vagas para atender tais pacientes. Rapidamente, firmamos nosso convênio com a Rede.

Como, a seu ver, os profissionais de saúde, estudantes e população encaram hoje a Aids?

Há agora menos preconceito do que nos anos 80. Mas, é triste perceber que o avanço científico na compreensão e tratamento da Aids se deu muito mais rápido do que o avanço comportamental da sociedade. Em pleno século XXI ainda existem pessoas de todos os estratos sociais que cruelmente maltratam indivíduos que precisam de apoio.

Por que ser grosseiro ou evitar um paciente com HIV/Aids e ser solidário com um paciente com câncer ou outra doença? Já não está provado e comprovado que não existe risco de contágio no contato social? Não são doentes que merecem cuidados?

Nesses últimos 30 anos, o que mudou na avaliação da Aids?

Atualmente, evitamos utilizar o termo "grupo de risco" e sim "comportamento de risco". A diferença parece sutil, mas é importante. Por exemplo: não é o fato de ser profissional do sexo -, antes considerado grupo de risco - que há maior chance de infecção.

Este indivíduo pode ser muito cuidadoso na utilização de medidas preventivas, como o uso de preservativos. Já outro indivíduo, excluído nos grupos descritos, pode se comportar de forma bem arriscada. Estes termos discriminavam certas categorias e davam a falsa sensação de segurança a quem não estava nelas enquadrados.

Mulheres são mais acometidas?

Desde os anos 90 houve uma evolução preocupante dos casos entre as mulheres e, mais recentemente, preocupa o surgimento de um grande número de casos entre os mais jovens, que parecem acreditar que a doença não assusta mais, além dos mais idosos que, por vários motivos, têm passado a ter uma vida sexual mais ativa, dispensando os cuidados preventivos. Estas são as categorias que atualmente mais nos preocupam e com as quais temos grande atenção.

Como é a assistência dada pelo Nami aos soropositivos?

Nesta fase inicial temos recebido bastante pacientes recém-diagnosticados. Avaliamos como o paciente está lidando com a nova situação, a qual provoca enorme ansiedade e todos costumam ter necessidade de compreender a doença e saber qual o impacto que terá em sua qualidade de vida.

A conversa é parte fundamental do atendimento e as consultas costumam ser demoradas. Mas é recompensador acompanhar um paciente que chega falando de morte, suicídio, depressão e algumas consultas depois está recobrando a alegria de viver, ao perceber que este é apenas um desafio a mais na sua vida, que será superado.

Inicialmente, os alunos tremem de medo de conversar com os pacientes. Nos dias seguintes estão plenamente integrados e superam o medo do que desconheciam; adoram conversar com os pacientes e vice-versa. Isto certamente será importante no futuro.

Médico, professor do curso de Medicina da Unifor*

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