DIVERSIDADE

Cura pela convivência

23:03 · 09.04.2011
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A praça da cura, inaugurada neste sábado, é um espaço bucólico e verde no meio do concreto de espigões urbanos que se proliferam em Fortaleza. O chão é um horizonte da cura
A praça da cura, inaugurada neste sábado, é um espaço bucólico e verde no meio do concreto de espigões urbanos que se proliferam em Fortaleza. O chão é um horizonte da cura ( Fotos: Geórgia Santiago )
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Jovens peregrinos se unem com intuito de servir, promover a paz e a reconexão com o ambiente

Do alto dos prédios de uma das áreas mais cobiçadas da cidade, onde o metro quadrado é disputado pela elite, grifes com suas lojas suntuosas e outdoors que estampam congelados sorrisos de felicidade, pode-se avistar um grupo de jovens levantando os dedinhos para simbolizar a paz e o amor. Eles se dispuseram a viver de forma simples e se colocaram à serviço da comunidade. O propósito é partilhar esse estilo de vida com os demais moradores circunscritos em residências que cobrem áreas vizinhas das avenidas Virgílio Távora e Dom Luiz.

O que têm a oferecer vai desde conhecimentos que adquiriram em suas peregrinações por outras comunidades similares (ecovilas), espalhadas hoje em diversas partes do Brasil e do mundo e, sobretudo, suas descomplicadas vivências do cotidiano, seja preparando uma refeição ou colhendo flores de um jardim, seja ministrando palestras sobre permacultura, reutilização do lixo e alimentação natural.

Brincar na praça

A psicopedagoga, especialista em Programação Neurolinguística e Coaching, Magui Guimarães, é madrinha de A Cura do Planeta, nome de batismo desta ONG, que tem apenas um ano de fundação. Como articuladora, conseguiu, dentre outras parcerias, uma específica com a Secretaria de Cultura do Estado para um dos projetos da ONG, o Brincando na Praça. "Por meio deste projeto, procuramos levar crianças às praças públicas para participarem de atividades lúdicas. É gratificante oferecer uma opção de lazer ativo, distinto dos entretenimentos passivos a que estão habituadas desde cedo (dos jogos eletrônicos, ao computador e a TV)".

O propósito essencial é resgatar a experiência da vida comunitária. O contato com ambientes naturais possibilita a aproximação das famílias entre si, e estas com a consciência de fazer parte disso tudo, diz Magui, que estimula em seus cursos o desenvolvimento de competências e, sobretudo, a conduta ética.

Com a ajuda de empresários de vários setores, ao longo de anos, vem buscando (e agora junto aos jovens da ONG), criar um espaço público voltado à educação ambiental. Com isso, a entidade tenta mostrar a importância da ecologia desde as construções das casas, até o uso dos espaços e a seleção do lixo cotidiano.

Neste sábado foi inaugurada a Praça da Cura, projeto dentro desta vertente ambientalista, dentro do qual é servida a pizza da cura, com vários sabores, preparada com queijo vegano.

Tanto em A Cura do Planeta como outras ONGs ambientalistas, a convocação para a vida comunitária e coesão social tem sido intensos. Magui diz já estar sendo provado que o sucesso material individual é relativo e não levar à felicidade genuína, pelo contrário. Na prática, tem se comprovado que a felicidade depende dos relacionamentos e outros aspectos não materiais, como a confiança. "Pesquisas recentes revelam que a confiança causa muito mais bem estar do que o fator renda".

Alimento que cura

Edna Marinheiro, mais conhecida como Madre, é evangélica e cozinheira no restaurante vegano de A Cura do Planeta. Ela trabalha lado a lado com Gilberto Félix, cujo nome espiritual é Govinda, seguidor Hare Krishna. O respeito à diversidade de crenças e formas de expressão no mundo é um dos desafios dos cerca de 30 adultos jovens (entre 25 e 35 anos) que atuam regularmente na ONG. "Tem hora que todos escutam um CD de louvor junto comigo. Então, chega a vez de ouvirmos as músicas devocionais de outro membro. Tudo de forma respeitosa", diz Madre.

Bruno Setúbal, diretor operacional da entidade, tem formação em arte educação. Esclarece que na casa que serve de moradia ao grupo (disponibilizada por um empresário local), ao lado do restaurante, convivem 12 dos integrantes da ONG. Esse número é variável - alguns agregados são de outras localidades e países e se achegam para troca de experiências e convívio.

Seja no restaurante vegano, oferecendo comida que "cura", seja nos cursos, palestras e consultorias, que tentam viabilizar a perspectiva ecológica, a instituição se mostra aberta a buscar formas distintas de gestão. Há um conselho administrativo que procura sempre investir no novo, fugindo dos padrões tradicionais, diz Bruno. "Temos uma visão diferente de liderança. O líder é aquele que serve de coração".

A alimentação natural é a base para a cura, na perspectiva do grupo. Os chefs do restaurante, Madre e Govinda, também destacam a atitude do servir devocional que mantêm na cozinha.

"Aprendemos que as mãos são tanto receptoras quanto transmissoras de informações e energias", justifica Govinda, que também tem formação em Naturologia. Diz que após o preparo, abençoa todo o alimento que será servido. "O bom alimento, para nós, é essencial. A partir do conforto do estômago, tudo funciona melhor. Com o corpo bem nutrido, todas as demais coisas podem se agregar. Você poderá dar alimento ao espírito (através da leitura e aulas) e esse será melhor assimilado. Seguimos os princípios de Hipócrates, que ensinava fazer do alimento o próprio medicamento".

Permacultura

A permacultura, informa Bruno Setúbal, é mais um estágio da evolução a que todos que pensam em preservar o planeta deverão passar. A gestão do lixo (separação e prensagem, para reutilização), está inserida também neste contexto. Uma rede de supermercados, por exemplo, cede mensalmente à ONG seu lixo reciclável , o que dá em torno de 40 toneladas de papelão - tudo revertido em recursos para os projetos da ONG.

Diogo Emídio Lima, diretor de comunicação da Ong, diz que a praça da Cura pode ser vista como um grande símbolo, ao mesmo tempo que uma pequena mostra ao cidadão comum de como alternativas sustentáveis podem ser inseridas e viabilizadas por meio de ações tão simples.

Fique por dentro
Mundo sustentável

A Cura do Planeta é parte integrante da Associação Sócio-Cultural Universos. Como setor de responsabilidade ambiental da Ong, conta com uma sede onde são realizados eventos, práticas, cursos e aulas nas quais são aplicados valores e objetivos.

Sua missão é preservar a vida, por intermédio da promoção da sustentabilidade e de uma nova visão de consumo. Desenvolve projetos próprios com apoio a pessoas e serviços que ajudem a minimizar os danos ambientais.

Conforme Magui Guimarães, madrinha da Ong, atualmente é importante cultivar valores e felicidade em que se possa conquistar o mundo, sem precisar "custar" o mundo. Ela destaca cinco itens apontados comumente pelas pessoas por meio d os quais elas acreditam conquistar felicidade: os relacionamentos com a família e amigos; a atividade física; contato com a Natureza; continuar aprendendo e refletindo; confiar e doar-se.

Desenvolvimento

Bem- estar psicológico: grau de satisfação, autoestima e otimismo;

Saúde: em suas práticas, hábitos, atividades físicas, sono, nutrição;

Educação: formação do caráter e prática de valores humanos;

Uso do tempo como um dos fatores na qualidade de vida e o ócio;

Confiança: como se vê os líderes melhora a satisfação e ambiente;

CULTURA: participação em festivais, eventos culturais e artísticos ;

AMBIENTE: capacidade em cuidar dos recursos e biodiversidade;

COMUNIDADE: interações, sensação de pertencimento, vitalidade dos relacionamentos afetivos;

PADRÃO DE VIDA: utilização correta da renda financeira .

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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