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Corpo bem condicionado

01:27 · 19.02.2013

Deixa de ser sedentário quem pratica exercícios que elevam em até 70% do metabolismo na condição de repouso

Para quem pensa que as atividades realizadas em casa - como varrer e passar pano no chão, subir e descer escadas e lavar louça - substituiriam a malhação, engana-se. Apesar de estas tarefas domésticas condicionarem o organismo para o gasto de energia e manter o corpo em movimento, elas não isentam o indivíduo de ser considerado um sedentário.

Patrícia Daniel mantém uma rotina que lhe garante energia e disposição

O mito criado em torno dessas atividades como uma fuga ao sedentarismo é facilmente explicado. Segundo o nutricionista Daniel Coimbra, especialista em Nutrição do Exercício Físico e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), a diferença consiste no condicionamento que o corpo adquire a partir das tarefas realizadas em casa (não programadas) e dos exercícios feitos em academia ou ao ar livre (programadas).

No segundo caso, explica Coimbra, o condicionamento físico é alcançado porque o corpo fica preparado para executar exercícios regulares, adquirindo maior metabolismo. Assim, fica evidente que as atividades realizadas em casa não possuem o mesmo nível de metabolismo quando comparadas com os outros tipos de exercícios.

Rotina

Na prática, o cotidiano de uma dona de casa tende a deixá-la mais cansada do que se praticasse exercícios. É o que acontece com Maria de Fátima Bantim, 53 anos. Mesmo sem executar uma atividade física, Fátima acreditava que seu dia estafante lhe garantia um bom condicionamento físico.

A rotina intensa de tarefas não isenta Fátima Bantim de ser considerada sedentária, a exemplo de grande parcela da população Fotos: Kelly Freitas


A rotina é intensa, pois Fátima responde por todas as tarefas do lar (lava, passa, cozinha, varre a casa, vai ao supermercado), além de tomar para si as rédeas de toda a lojística da casa, como os pagamentos. "Me pergunto quem consegue pensar em se exercitar após um dia de trabalho desses".

De acordo com o educador físico Walter Cortez, especialista em Fisiologia do Exercício e professor da Unifor, tarefas como as de Fátima Bantim são benéficas, sim, pois ajudam no gasto energético e evitam que o corpo permaneça muito tempo com o metabolismo baixo.

Embora reconheça que realizar atividade física visando suprir as necessidades específicas de cada um seja mais recomendado, Cortez diz que o esforço diário (mesmo que não formal) é essencial, pois define claramente o grupo de indivíduos considerados ativos.

Deixa de se enquadrar na condição de sedentário quem pratica exercícios que representam uma elevação de 50% a 70% do metabolismo de repouso, durante no mínimo três vezes por semana, com uma duração de cerca de 30 minutos diários. A indicação está de acordo com o que preconiza entidades como a Organização Mundial de Saúde (OMS), a American Heart Association e o Colégio Americano de Medicina Esportiva.

Acúmulo de gordura

É fato, as pessoas estão gastando menos energia, consumindo mais alimentos industrializados e aumentando a concentração de calorias no organismo. Para Daniel Coimbra, "sem a prática de pelo menos um exercício regular, essa energia fica acumulada e é transformada em gordura".

Foi consciente disso que a dentista Patrícia Rocha Daniel, 33 anos, decidiu retomar sua rotina de exercícios. Ela percebeu o rápido acúmulo de gordura logo após ficar um tempo sem caminhar e correr na Avenida Beira-Mar. "Meu corpo já estava condicionado ao exercício e quando parei percebi logo a mudança. Voltei a caminhar há pouco mais de um mês (três vezes por semana). Recuperei a disposição para realizar outras atividades", argumenta.

Corpo inativo

Definida como doença do milênio, o sedentarismo é um comportamento induzido por hábitos decorrentes da vida moderna, repleta de facilidades automatizadas a exemplo do controle remoto e elevador.

Como consequência, temos, hoje, uma parcela significativa da população cujo aparelho locomotor e demais órgãos vitais entram precocemente em um processo de regressão funcional, acelerando o envelhecimento e aumentando os riscos de várias doenças. Assim, o sedentarismo está associado direta e indiretamente às causas ou ao agravamento de problemas crônicos como obesidade, estresse, dislipidemias, cardiopatias e hipertensão.

Sandra Falcão, Doutora em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), alerta para os riscos resultantes da inatividade (seja em função da ausência de atividades programadas ou não programadas). Segundo ela, em especial, quanto à maior propensão que o indivíduo sedentário tem para desenvolver trombose (formação de trombo, coágulo no interior do vaso sanguíneo).

FIQUE POR DENTRO

Um alerta para os atletas de fim de semana

O ideal é que as atividades físicas sejam incorporadas à rotina diária e não como fazem muitos pseudo atletas de fim de semana. O comportamento de jogadores de futebol (do famoso racha), diz a cardiologista Sandra Falcão, é prejudicial porque trata-se de um esporte que exige uma alta demanda do corpo. "Correr atrás de uma bola requer movimentos rápidos e preparo físico". Sobre a saúde do coração, a médica lembra que o órgão é um músculo que precisa ser condicionado para os movimentos que exigem muito esforço.

A lógica de que "é melhor fazer isso do que não fazer nada" não justifica os excessos cometidos nos fins de semana. Quem faz uma atividade sem pensar nas consequências está sujeito a lesões imediatas (agudas), e com o tempo vir a desenvolver lesões crônicas, sem contar nos riscos cardiovasculares. O nutricionista Daniel Coimbra reforça o alerta e recomenda atenção especial à necessidade os exercícios virem sempre acompanhados de uma dieta balanceada. "As pessoas começam a dieta e mudam a alimentação, mas não corretamente. Isso pode não ocasionar a perda de gordura desejada".

Como o sedentarismo representa uma condição temporária - pois o início de qualquer exercício físico determina o seu fim - os médicos alertam para os cuidados quando do ingresso na vida ativa.

Walter Cortez diz que é preciso, primeiro, verificar se a pessoa está apta ou não ao exercício e em quais condições deve ser realizado. "Após a liberação médica, é preciso procurar orientação de um educador físico e seguir a rotina planejada". No entanto, salienta que nenhum profissional pode se responsabilizar pela mudança comportamental de quem é sedentário. "Deve partir de cada um. Como proceder, esta sim, cabe aos profissionais, assim como a motivação para continuar nos exercícios", descreve.

SAIBA MAIS

Usar roupas adequadas: Durante o exercício, a roupa tem como função proporcionar proteção e conforto térmico. Agasalhos que geram sudorese excessiva devem ser evitados, pois aumentam as chances de desidratação

Hidratar-se adequadamente: Deve-se ingerir líquidos antes, durante e após os exercícios. A perda de líquidos e a desidratação, consequentemente, constituem a principal causa de mal-estar durante a prática

Sentir bem-estar: Escolha a modalidade e, sobretudo, a intensidade dos exercícios que tragam prazer e boa tolerância. Ao fazer atividades prolongadas, ajuste a intensidade que permita a comunicação verbal sem que a respiração prejudique a fala

Consulte o médico: Qualquer dúvida ou desconforto procure orientação profissional. Realizar uma avaliação física para elaboração de um programa de treinamento deve ser o primeiro passo.

MAURÍCIO VIEIRA
ESPECIAL PARA O VIDA

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