TRATAMENTO

Coração batendo no ritmo

18:24 · 20.08.2011
Fibrilação atrial é responsável por quase metade dos casos de acidente vascular cerebral (AVC). Novo princípio ativo promete um tratamento mais eficaz da doença

A fibrilação atrial é a perda de ritmo nas contrações do coração, problema que pode afetar gravemente a capacidade de realizar tarefas cotidianas. Dai a importância de ficar atento aos sinais da doença que, além das palpitações, incluem tontura, dores no peito, falta de ar e cansaço repentino, ocasião em que o indivíduo perde todas as forças para desempenhar atividades que pratica regularmente.

Segundo dados apresentados em workshop para a imprensa no último dia 9, no Brasil 1,5 milhão de pessoas possuem fibrilação atrial, o que representa 0,8% da população. Esse número pode ser ainda maior, de acordo com Dr. Dalmo Moreira, chefe da seção médica de eletrofisiologia e arritmia cardíaca do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (SP): "Esses dados são apenas das pessoas que vão ao hospital e fazem eletrocardiograma e check-ups periódicos. Nós não temos a dimensão de quem tem essa arritmia e não sabe. Em média, 25% dos indivíduos com fibrilação atrial não sentem absolutamente nada, o que dificulta a procura pelo serviço público". Dr. Dalmo Moreira explica que a fibrilação é uma doença intermitente, ou seja, pode se manifestar e desaparecer a qualquer momento, o que justifica o fato das pessoas esquecerem de procurar ajuda médica.

AVC

A arritmia cardíaca provoca uma mudança no fluxo sanguíneo, o que possibilita a formação de coágulos. Se algumas gotas de sangue de um dedo cortado, por exemplo, caem sobre uma mesa, em pouco tempo ele ficará sólido e formará um coágulo. "Se esse processo acontece dentro de artérias que conduzem o sangue para o cérebro, pode haver um AVC, maior causa de morte no país. Em 2008, 97 mil pessoas morreram em virtude de um derrame", afirma Dr. Dalmo.

O AVC caracteriza-se pela interrupção da chegada de nutrientes no cérebro, feita pelo sangue. Quando isso acontece, a área do cérebro afetada acaba morrendo, podendo levar a pessoa ao óbito, ou tornando-a incapaz de realizar as atividades comandadas pela região do cérebro danificada. Diversos motivos podem desencadear o acidente vascular cerebral, como colesterol elevado, sedentarismo, obesidade e diabetes.

Os perigos aumentam com a idade: após os 55 anos, a possibilidade de ter um AVC duplica a cada década. Mas dentre os fatores de risco que favorecem o acidente vascular cerebral, a fibrilação atrial é o que traz piores danos, sendo fatal na maioria dos casos. "Pacientes com fibrilação atrial têm um risco cinco vezes maior de ter um AVC. Aqueles que sofrem o acidente vascular cerebral por fibrilação ficam mais graves que os pacientes que tiveram um AVC por outras causas. Se a pessoa sobreviver, ficará com sequelas para o resto da vida", garante o Dr. Alexandre Pieri, responsável pelo Ambulatório de Acidente Vascular Cerebral da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Dr. Alexandre diz, ainda, que 80% dos pacientes que passam pelo ambulatório não conseguem retornar às atividades que exerciam antes de sofrerem o derrame. "Costumo dizer que o AVC não mata a pessoa, mata a família. É uma doença extremamente incapacitante, mas que tem tratamento".

Quanto mais grave for o AVC, maior é o tempo de internação, que pode chegar de 28 a 60 dias. Isso significa também que os gastos públicos são maiores, dai ser importante realizar campanhas de prevenção. "Nos países europeus, o paciente com nível mais grave custa 35 mil euros/ano, enquanto o paciente menos grave custa cerca de 11 mil euros/ano. O Brasil é considerado um país que investe pouco no tratamento dos pacientes com AVC. Aqui um paciente grave custa pelo menos R$ 5 mil/ano", afirma Dr. Alexandre Pieri.

Embora seja um fator de alto risco para o desencadeamento de um AVC, nem todo mundo que possui fibrilação atrial desenvolve a formação de coágulos. De acordo com Dr. Alexandre, os médicos dispõem de métodos de investigação que lhes dão a capacidade de estimar o quanto o paciente está sofrendo os riscos.

Tratamento

O tratamento da fibrilação é feito através de medicamentos que afinam o sangue, dificultando a sua coagulação. Eles são indicados principalmente para as pessoas que são diagnosticadas com alto perigo de passarem por um AVC, geralmente as que possuem mais de um problema que facilite a ação da doença ou que já tiveram derrame alguma vez na vida.

Mas alguns fatores de risco podem ser controlados para prevenir a fibrilação atrial. "O tabagismo, por exemplo, pode aumentar em 600% as chances de ter o problema. A ingestão excessiva de álcool, o colesterol elevado, o diabetes e o sedentarismo são fatores que podem acarretar na fibrilação e no derrame, mas que poderiam ser repensadas com a mudança de hábitos", conclui Dr. Alexandre Piere. Outra atitude essencial é realizar regularmente o autoexame do pulso, checando o ritmo da pulsação sanguínea. O mais importante é estar sempre atento a qualquer alteração nos batimentos cardíacos. Deixar passar uma anormalidade casual pode trazer danos maiores no futuro.

TRATAMENTO
Nova alternativa de medicamento

Pesquisa feita pela Boehringer - Ingelheim em 44 países, entre dezembro de 2005 e março de 2009, com 18.113 pessoas portadoras de fibrilação atrial, testou um novo medicamento para a prevenção do acidente vascular cerebral (AVC). Os pacientes, que tinham uma idade média de 72 anos - faixa etária mais afetada pela doença - receberam por dois anos doses de etexilato de dabigatrana (Pradaxa).

Há mais de cinquenta anos, o único tratamento eficaz contra o AVC causado por fibrilação atrial é baseado no princípio ativo varfarina, que inibe a atuação da vitamina K, responsável pela coagulação sanguínea no corpo humano. Tal vitamina é encontrada em legumes e verduras, por isso os pacientes que administravam o medicamento não podia ingerir esses alimentos.

Além disso, a varfarina tem um alto grau de interação com outros medicamentos, por isso os pacientes tinham de fazer exames periódicos para ajustar a dosagem do medicamento.

O etexilato de dabigatrana, diferentemente da varfarina, impede a ação da trombina, substância presente no corpo que provoca a coagulação do sangue. Dessa forma, a dabigatrana não interage com alimentos, possui baixa reação com outros medicamentos e apresenta efeitos mais rápidos e mais eficazes que a varfarina na prevenção do AVC causado por fibrilação atrial (o remédio consegue atingir o seu efeito máximo em duas horas, enquanto a varfarina só mostra resultados a partir de três dias). O medicamento passou a ser comercializado em larga escala na última semana e o custo máximo é R$254,00, mas já está passando por análise do Ministério da Saúde para incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS).

Do medo ao controle

O engenheiro civil José Gonçalves, 53 anos, casado, duas filhas, afirma que sempre teve uma vida muito corrida, principalmente em função do trabalho. Num dia comum de serviço, começou a sentir-se mal. "Tinha a impressão de que eu ia desmaiar. Estava mal, mas não sabia o que era. O coração batia na altura do pescoço, e de repente parava", afirma.

José diz que começou a sentir muito medo, pois episódios como esse passaram a ocorrer com maior frequência. "Fui ao médico, mas não foi descoberto do que se tratava num primeiro momento. É como você sentir um barulho estranho no seu carro, mas quando chega na oficina para descobrir o problema, o barulho some. Isso foi o que aconteceu comigo". Depois de se submeter a outra bateria de exames foi descoberto o que era. "O médico disse que eu estava fibrilando. Na medida em que ele foi explicando, o medo aumentava mais um pouco", relata o engenheiro.

Pego de surpresa

O evento mais grave aconteceu há cerca de seis anos, quando José Gonçalves estava buscando o carro num estacionamento e de repente foi surpreendido por um súbito mal estar, tontura e caiu no chão: teve um acidente vascular cerebral.

"A sorte é que minha irmã estava comigo. Ela chamou o resgate e logo quando chegaram ao local fizeram uma massagem cardiorrespiratória. O médico do resgate falou pra minha irmã que eu tinha entrado em óbito, mas o enfermeiro continuou insistindo, até que voltei a respirar. Depois que me levaram para o hospital, constataram que eu devia estar tomando remédio para afinar o sangue, porque senão poderia ter outro AVC. Quando acordei, meu medo ficou dez vezes maior", conta José. Desde então, o engenheiro não foi surpreendido com outro evento. Consciente da possibilidade de ser acometido por outro AVC, José Moreira continua cuidadoso com a saúde e faz exames regulares para ajustar a dosagem da medicação visando o controle da fibrilação atrial. "Depois que se descobre a doença, o medo aumenta. Mas o mais importante é não descuidar do tratamento e dos remédios recomendados pelo médico", conclui o paciente.

INCIDÊNCIA

500 mil é o número estimado de pessoas que apresentam AVC anualmente no Brasil. Desses casos, 170 mil são internados, enquanto cerca de 100 mil casos evoluem para o óbito

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