DOENÇAS CEREBROVASCULARES

Conhecer os fatores de risco é fundamental

00:00 · 12.11.2013
92% dos casos de AVC podem ser evitados e, com tratamento, há chances de reduzir as sequelas pela metade. Fotos: Helosa Araújo

Tudo aconteceu em um sábado. "O Celso havia acabado de chegar de uma viagem, com muita dor de cabeça. Tomou um remédio, deitou na cama e teve o AVC. Foi súbito. A boca ficou torta e ele tentava se comunicar comigo, mas não conseguia mais. A artéria principal ficou obstruída e as chances dele eram mínimas. Tinha apenas 20% de chance de viver".

A lembrança angustiante ainda está viva na memória da advogada Socorro Medeiros. Seu marido, o engenheiro eletricista Celso Medeiros, 60, teve um acidente vascular cerebral (AVC) aos 54 anos. Hoje, já recuperado, ele convive com as limitações trazidas pela enfermidade.

Assim como Celso, outros 18 mil cearenses são vítimas de AVC anualmente. Popularmente chamado de derrame, é uma das doenças que mais matam no mundo. Em mulheres, faz mais vítimas do que o câncer de mama e de colo do útero. Já entre os homens, os índices superam os do câncer de próstata. Por ano, dos 6 milhões de mortos em todo o planeta, 68 mil são brasileiros e 4.208 do Ceará, de acordo com o Núcleo de Informação e Análise da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa).

"O acidente vascular cerebral é uma doença caracterizada pela perda súbita de uma ou mais funções neurológicas secundárias e pelo comprometimento do fluxo sanguíneo cerebral", explica o neurologista João José Carvalho, coordenador da Unidade de AVC do Hospital Geral de Fortaleza (HGF). Para discutir os mais recentes avanços no tratamento das enfermidades cerebrovasculares, como o AVC, Fortaleza recebe, a partir de amanhã até sábado, dia 16, 2.500 profissionais da saúde para o IX Congresso Brasileiro de Doenças Cerebrovasculares, no Centro de Eventos do Ceará.

O Ceará foi o primeiro estado do Brasil a contar com uma coordenação específica de enfrentamento ao AVC, o Comitê de Atenção às Doenças Cerebrovasculares, assim como a garantir o acesso à medicação trombolítica aos pacientes em estágio agudo da doença e a definir uma rede de assistência com unidades em hospitais públicos regionais. A Unidade de AVC do HGF, a maior do País, e o Hospital Regional do Cariri já fazem parte da rede. Até o fim do ano, segundo João José Carvalho, a intenção é inaugurar uma outra unidade no Hospital Regional de Sobral.

Fatores de risco

Conhecer os fatores de risco é importante para prevenir um AVC. Muitos deles, como a idade, a raça, a constituição genética e o sexo não podem ser modificados. Outros, no entanto, podem ser diagnosticados e devidamente tratados. A hipertensão arterial, o colesterol elevado, a diabetes, o tabagismo, o sedentarismo, a obesidade, a enxaqueca, o uso de anticoncepcionais hormonais e a ingestão abusiva de bebidas alcoólicas estão entre os fatores que comprometem a circulação sanguínea e podem contribuir para o entupimento ou rompimento dos vasos. O acompanhamento regular de um médico e uma alimentação saudável são o primeiro passo para evitar um acidente.

Em 92% dos casos, o AVC pode ser evitado e, mesmo quando ocorre, há chances de diminuir em 30% as mortes e em 50% as incapacidades decorrentes da doença. "Tratando ou prevenindo os fatores de risco e atendendo os pacientes com AVC em unidades especializadas, as chamadas Unidades de AVC, os países desenvolvidos já conseguiram baixar a doença para a quarta causa de morte", ressalta o neurologista.

Sequelas

Quando chegou ao hospital com o marido, Socorro ouviu do médico que os danos poderiam ter sido bem maiores se o atendimento tivesse demorado mais de três horas para ser iniciado. Felizmente, naquela ocasião, Celso foi atendido rapidamente, mas a gravidade do acidente ainda deixou sequelas. "Ele ficou com afasia (perda da capacidade e das habilidades de linguagem falada e escrita) e deficiências motoras. O lado direito do corpo não mexe. Nem o braço, nem a perna. Hoje, ele anda com a ajuda de uma bengala", relata a esposa.

Conforme a região cerebral atingida e a extensão das lesões, as consequências de um AVC podem ser bastante danosas. Os acidentes de menor intensidade quase não deixam sequelas. Os mais graves, contudo, podem levar à morte ou a um estado de absoluta dependência, sem condições, por vezes, de nem mesmo sair da cama.

"Já vimos sequelas de toda ordem. Frequentemente, no início, os pacientes passam a precisar de ajuda para caminhar, se alimentar, falar, para a higiene pessoal, para colocar e tirar a roupa e, não raro, apresentam dificuldades no controle da urina e das fezes. Para um paciente com uma fraqueza ou paralisia num dos lados do corpo, por exemplo, o simples virar na cama pode ser impossível sem ajuda", aponta João José Carvalho.

Desse modo, a prontidão no atendimento pode ser o diferencial. Perceber os sintomas, diagnosticar a doença e tratá-la rapidamente pode evitar ou minimizar as sequelas.

Segundo o Comitê Estadual de Atenção às Doenças Cerebrovasculares, 25% dos 18 mil pacientes cearenses que sofreram um AVC em 2012 perderam a vida. Outros 25% estão severamente incapacitados ou restritos ao leito e mais 25% encontram-se moderadamente incapacitados. Apenas 25% dos pacientes retornaram ao trabalho. A reabilitação torna-se, então, fundamental no processo de retomar a rotina anterior ao acidente.

Tratamento e reabilitação

"O mais difícil foi encarar a nova situação. O Celso era um homem super ativo, que vivia super bem e, de repente, a coisa se inverteu. A reabilitação exige muita força de vontade", considera Socorro. Após o acidente, o engenheiro tinha sessões de fisioterapia e fonoaudiologia duas vezes por dia. A atividade física, por sua vez, o acompanha até hoje. E assim, com o tempo, ele foi aprendendo a conviver com as limitações - e a superá-las.

O tratamento e a reabilitação de uma pessoa vitimada por um AVC devem ser multidisciplinares. "Na fase aguda, o paciente tem que estar no hospital o mais breve possível, pois a medicação que dissolve o coágulo só pode ser aplicada nas primeiras três horas. Já a reabilitação se inicia logo nos primeiros dias de internação e continua em casa, às vezes por meses ou anos", esclarece o especialista.

Cinco anos depois do AVC sofrido por Celso, a esposa faz questão de ressaltar que a rotina saudável durante a reabilitação garante a ele qualidade de vida. "O Celso viaja, trabalha, sai para jantar comigo, a gente vai ao shopping. Ele é muito disciplinado e também muito independente", conta.

Para o engenheiro, ter pessoas queridas por perto foi fundamental para a recuperação. "Minha família e meus amigos me encheram de esperança. O AVC faz parte da minha vida. Não foi bom, nem foi mau. Foi uma casualidade. Eu tenho meus projetos elétricos, dou assessorias, faço atividade física há dois anos, tenho meus momentos de lazer. A vida é a vida, e eu vou vivendo", reflete Celso.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.