Grupos de apoio

Como vencer o embate diário com a comida

00:40 · 28.05.2013
Identificado com prevalência na população entre 20 e 25 anos, o transtorno de compulsão alimentar periódica (Tcap) pode ser diagnosticado por meio da observação do próprio paciente como também de familiares.

Entre as características marcantes do transtorno, estão os episódios de ingestão rápida de grande quantidade de alimentos em período superior ao convencional. O ato vem quase sempre acompanhado da sensação de falta de controle por não conseguir parar de comer, além do sentimento de culpa, vergonha e de repulsa por si mesmo.

"A compulsão alimentar não pode estar associada ao uso de comportamentos compensatórios como purgação, jejuns, etc. Isso exclui, por exemplo, indivíduos que ´beliscam´ o dia todo pequenas quantidades de alimentos. Por fim, ocorre sofrimento relativo a esse comportamento recorrente", descreve Gisele Vasconcelos Serpa.



Orientações

Em busca de melhorias, há duas formas de tratamento. Geralmente, baseado na reeducação alimentar, uma das condutas consiste em programas de apoio endocrinológico, nutricional e psicológico. Em alguns casos, também é preciso o suporte psiquiátrico, enquanto o uso de medicação é necessário para o tratamento de sintomas compulsivos graves ou comorbidades psiquiátricas (transtorno depressivo maior e de ansiedade).

Entretanto, há também aqueles que optam pelo tratamento por meio do auxílio dos grupos, tendo a companhia de outros exemplos de indivíduos que compartilham do mesmo transtorno, como é o caso do CCA. Para a psiquiatra, as reuniões funcionam como uma poderosa terapia de grupo. É uma rede mundial de apoio e tratamento psicoterápico por meio de técnicas de prevenção de recaída, também utilizadas em outros grupos, a exemplo dos Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos, dentre tantos outros.

"É muito eficaz quando pacientes com sofrimentos físicos e psíquicos semelhantes se reúnem, sempre com a mediação de um profissional da saúde mental, com programas e técnicas de reabilitação de terapia cognitivo-comportamental", diz. Além disso, a médica acrescenta que, em ambos os casos, o apoio da família e de pessoas próximas é fundamental para garantir o sucesso do tratamento.

Dinâmica do CCA

Há 23 anos em Fortaleza, o grupo Comedores Compulsivos Anônimos (CCA) estimula o voluntário a falar sobre sua relação com a comida e, a partir daí, avaliá-la de forma crítica com a finalidade de gerar mudanças.

Os encontros acontecem semanalmente e são divididos em duas etapas: estudo da literatura do grupo de apoio e relato de experiências. Esse é o momento em que a história de cada indivíduo é compartilhada a todos para servir como exemplo e caminho de descobertas individuais.

É cumprindo essa rotina que a professora e voluntária do CCA, Fátima* (nome fictício), lida com a compulsão alimentar desde 2008, quando foi identificado o quadro do transtorno. "A única pessoa que pode se considerar comedora é a própria. Mas, muitas vezes, perceber esse hábito como uma doença é uma grande dificuldade, já que muitos o enxergam como um dos maiores prazeres da vida", afirma.

Antes de ingressar no CCA, Fátima* havia procurado ajuda médica, não tendo obtido êxito pois sempre recuperava os quilos perdidos. Com 25 quilos a mais, a professora relembra que o fato motivador foi quando o sobrepeso a levou ao hospital por duas ocasiões. "Comi duas caixas de chocolate e passei muito mal. Nesse dia, prometi a mim mesma que nunca mais comeria chocolate. Após seis meses, sofri novamente com o mesmo problema e, só então, procurei ajuda", descreve.

Um dia de cada vez

Os passos seguidos pelos integrantes do CCA ajudam no embate diário com a comida. São eles: "vá com calma; só por hoje; viva e deixe viver; até que ponto isso é importante?; que comece por mim; primeiro as primeiras coisas; solte-se e entregue-se a Deus; um dia de cada vez".

Fátima* reforça que, quando se é um comedor compulsivo, come-se sentimentos ou assume a função de ´lixeira da casa´. "São pessoas que comem quando estão com raiva, culpa, angústia e até felizes, ou ainda quando sobra comida do filho, temos a desculpa de não jogá-la fora", diz.

Conforme a voluntária, o CCA está disponível a todos que desejam parar de comer compulsivamente, não estando afiliado a nenhuma organização pública ou privada, movimento político, doutrina ideológica ou religiosa, e não possui posicionamentos sobre assuntos externos.

FIQUE POR DENTRO

Tempo de excessos e falta de controle

A relação com a comida vai muito além da alimentação em prol da sobrevivência. "Ao contrário do que a humanidade enfrentou em períodos críticos de guerra, de epidemia e de pobreza, o momento atual é de abundância e facilidade de acesso e oferta de uma diversidade de alimentos a todas as classes sociais, principalmente em grandes centros urbanos", destaca a psiquiatra Gisele Serpa.

O aumento na oferta de opções (o apelo mercadológico para a aquisição de produtos, etc.) acelera o crescimento de indivíduos que estabelecem relações patológicas com a comida. Não raro encontrar quem ingere de 5 a 7 mil calorias em um curto espaço de tempo.

Lembra, ainda, que a comida sempre esteve relacionada à satisfação e ao contexto social, sendo difícil conseguir um controle pleno em relação à quantidade e à saciedade. Tal condição torna mais frequente a busca de meios para controlar os excessos, e faz da moderação a melhor saída para manter o bem-estar e a saúde.

SAIBA MAIS

Comedores Compulsivos Anônimos (CCA)

Tels: (85) 8940.3855; 9779.6531
Email: mariaalcca@hotmail.com

Grupo Abstinência

Reuniões: terça-feira, às 15 horas
Igreja de São Gerardo
Av. Bezerra de Menezes, 1256
Bairro São Gerardo

Grupo Só por Hoje

Reuniões: quinta-feira, às 14h30
Igreja Presbiteriana
Rua Carolina Sucupira, 93

Bairro Aldeota

Geurpo Liberdade
Reuniões: sábado, às 17 horas
Igreja de Fátima
Av. 13 de Maio, 200
Bairro de Fátima

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