dança da vida

Cada sessão é pensada a partir da demanda do grupo

00:00 · 02.12.2013
Em um grupo regular de biodança, que reúne homens e mulheres de diferentes idades, uma sessão se estende por um período de duas a três horas e é dividida em dois momentos. O primeiro é o da intimidade verbal, que dura em torno de um terço do encontro, no qual os participantes conversam sobre determinado tema, que pode ser inclusive a própria biodança.

No Projeto 4 Varas, no Pirambu, o grupo de biodança assiste à comunidade de forma integrativa. A abordagem é diferenciada, pois busca a intimidade verbal dos participantes. foto: bruno gomes

A intenção não é interpretar o que o outro diz, mas compartilhar relatos da reunião anterior e, nessa troca, externar sentimentos, sentidos e significados por meio de uma fala profunda, existencial.

Fase vivencial

Passado um breve intervalo, é chegada a hora do segundo momento da sessão: a fase vivencial. A partir daí, não há mais conversa. Entre olhares e movimentos, a comunicação flui por meio da linguagem corporal.

"A ideia é que esse momento seja vivenciado de uma outra forma e, para isso, os exercícios usam a música, o movimento do corpo, sempre em contato com o outro. Afinal, o outro é muito importante". De acordo com a educadora Carla Weyne, a biodança é uma abordagem grupal, portanto nunca é feita de forma individualizada.

Elementos efetivos

Seja em uma roda, em um caminhar, são muitos os exercícios da biodança. Por meio das consignas, que têm componentes poéticos, técnicos e filosóficos, o facilitador descreve e demonstra os movimentos propostos ao grupo. Entretanto, não existe certo ou errado, não há coreografia. O importante é sentir a música.

A sessão é pensada a partir da demanda do grupo. "O que acontecerá com cada um é muito pessoal. É colocada uma música e proposto um exercício, mas o que ele suscita nas pessoas é diferente, depende do que ela está necessitando. Por isso a biodança é tão efetiva, pois alcança várias possibilidades de cada pessoa na medida em que ela está precisando", diz a facilitadora.

As músicas, por sua vez, são as mais abrangentes possíveis. O pré-requisito para a escolha está na capacidade integradora da melodia, da cadência e de cada instrumento. "Não depende só de letra. Utilizamos música clássica, orquestrada, instrumental, em outras línguas (africana, árabe, francesa, alemã, japonesa), desde que ela tenha os elementos para a integração. A música entra na dinâmica do exercício", explica Cleusa Denz.

Tanta pluralidade reflete a essência da biodança, cujas sessões nunca são iguais. "Difere de uma ginástica, que tem início, meio e fim e pode ser sempre daquela forma. Podem ter rodas, mas terão sempre consignas e músicas diversas; o grupo já não é mais o mesmo do que estava no dia anterior. A biodança, a partir dos exercícios, faz com que a pessoa perceba por si só onde está o seu limite, o dia a dia, como está a existência nessa perspectiva", garante Cleusa.

Identidade coletiva

Com a ação terapêutica, a reaprendizagem das funções originárias da vida ultrapassa os grupos regulares. No coração do Pirambu, em Fortaleza, o Projeto 4 Varas leva a biodança à comunidade há quase dois anos.

A facilitadora Cleusa Denz executa o método sob a perspectiva comunitária no espaço Terra Prometida e reconhece a importância de uma abordagem diferenciada - que leva em conta cada realidade - para o fortalecimento da identidade coletiva.

"Existe o fortalecimento da identidade das pessoas e da própria comunidade. Para a intimidade verbal, por exemplo, muitas vezes se traz questões referentes à comunidade, para que a biodança não seja só um momento prazeroso dentro do salão, mas de crescimento e desenvolvimento pessoal, no qual as coisas vivenciadas lá sirvam para o dia a dia na família, no trabalho ou na vida comunitária", analisa.

Para idosos

Cleuza Denz, que é facilitadora desde 1997, também já trabalhou com idosos e percebe a intensidade com a qual as pessoas mais velhas se entregam às vivências. "Com eles acontece uma coisa impressionante, pois estão mais abertos, são mais sensíveis à vida e têm muito menos censura na fala", revela.

A facilitadora destaca, ainda, que a biodança não depende só do facilitador, mas também da predisposição das pessoas para o crescimento e o desenvolvimento pessoal. Em grupos mais jovens, por exemplo, podem ocorrer mais restrições, já que os participantes são mais preocupados com a exposição e estão mais ligados à intelectualidade da autoimagem.

"O idoso, por sua vez, já está, de um modo geral, mais desprendido disso e absorve mais cada momento do processo. Pensa que, há qualquer momento, pode não estar mais aqui, então entra com mais intensidade nos exercícios. Mesmo sendo mais comedidos, os resultados da biodança são mais rápidos, garante.

Cinco linhas de vivência e um objetivo em comum

A biodança acontece com cinco linhas de vivência - afetividade, sexualidade, criatividade, vitalidade e transcendência - que são entendidas como potenciais genéticos naturais. Ou seja, não são canais de expressão culturalmente determinados, todos os seres vivos os carregam junto a si. Cada sessão reúne as cinco linhas em conjunto.

Cleusa Denz é facilitadora do grupo de biodança do Projeto 4 Varas, no Pirambu FOTO: BRUNO GOMES

A afetividade enfoca o contato consigo mesmo e com o planeta. Uma afetividade saudável é aquela que dá abertura para o outro e que também sabe colocar limites quando ele está sendo invasivo. "Ela resgata em nós essa ternura, a possibilidade de ver o outro ser humano sem tantos julgamentos, porque vivemos em sociedade que julga demais, analisa demais, rotula demais. Tudo se desenvolve com essa perspectiva: de poder se despojar um pouco mais e de ter afeto com nós mesmos. De se cuidar, se gostar. Tem pessoas que não se cuidam, não se olham, não se percebem, e às vezes as doenças acabam vindo em decorrência disso", acredita Cleuza Denz.

Na sexualidade, por sua vez, o foco é o prazer. De acordo com a facilitadora, não só o sexual, mas também a satisfação de viver, de comer uma fruta e senti-la em sua essência. "A partir de exercícios e de músicas, tentamos resgatar esse prazer de estar e de se sentir vivo".

Já a vitalidade passa pela consciência de autorregulação. "É a capacidade de eu mesma saber o meu limite, visitá-lo e, ao mesmo tempo, perceber que esse limite se ampliou um pouco e eu preciso respeitá-lo", explica a facilitadora Carla Weyne.

A criatividade está relacionada à capacidade de lidar com o novo, com o inesperado, com a imprevisibilidade da vida. "Na biodança, nosso material é o nosso corpo. É a nossa existência ali no salão, a música e a gente. Então essa vivência é muito mais uma perspectiva de trabalhar a criatividade na nossa vida. Estou me recriando a cada instante, no momento que vejo onde tenho que melhorar, o que tenho que fazer, como tenho que me portar diante de uma situação ou outra. A criatividade incentiva que a pessoa se olhe e se perceba nessa perspectiva", afirma Cleusa Denz.

A linha da transcendência, por fim, não se refere a algo místico ou religioso, uma vez que a biodança é centrada na espiritualidade. "Essa linha de expressão É a capacidade de se sentir pertencente a um todo, de se sentir parte da teia da vida", declara Carla Weyne.

Para ela, os exercícios de transcendência são voltados a uma percepção que se traduz da seguinte forma: "eu faço parte de algo maior, então me sinto irmão dos elementos da natureza, dos seres da natureza. Sinto-me parte desse algo maior e por isso desenvolvo o sentimento de respeito e de gratidão à vida".

Mais informações:

Escola de Biodança do Ceará
Centro de Desenvolvimento Humano (CDH)
http://www.cdh-centrodedesenvolvimentohumano.com/
http://www.universidadebiocentrica.com.br/

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