ALIMENTAÇÃO

Bem estar e bom humor retornam com escolhas

20:33 · 09.07.2011
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Foi-se o tempo em que a enxaqueca era diagnosticada como um problema para a vida inteira. Classificada em clássica e comum, é caracterizada como dor de cabeça unilateral (só acontece na metade do crânio), pulsátil (a dor fica martelando), quase sempre associada a fenômenos gástricos (náuseas e vômitos), incapacitante (intolerância a cheiros fortes, som e luz) e, no caso do primeiro tipo citado, relacionada a fenômenos premonitórios (estrelas cintilantes e manchas escuras no campo visual). Muitos profissionais acreditavam que o problema, uma vez observado na família, não podia ser solucionado, já que a genética seria uma espécie de sentença. O que se sabe, atualmente, é que o quadro, além de ser passível de cura, pode ser resolvido com medidas alimentares simples.

De acordo com o clínico geral Francisco Colares Neto, tal condição patológica só vai ser sentença para o resto da vida "quando você reproduzir no ambiente as mesmas circunstâncias que seus pais (ou parentes) utilizavam". E justifica, lembrando que a genética hoje é tida como uma grande biblioteca, de onde você pode tirar qualquer livro para ler. O médico esclarece ainda que o ambiente é representado por quatro amplos grupos principais: fatores emocionais, fatores químicos externos - poluição do ar, da água, drogas lícitas e ilícitas e drogas medicamentosas - atividade física, incluindo repouso, e alimentação. Cada um deles pode ter influência direta na vida de indivíduos que sofrem com a enxaqueca.

Rotina estressante

"Descobri a enxaqueca porque passei cerca de 20 dias seguidos com dor de cabeça. Eu achava que era uma dor normal, mas foi aumentando aos poucos. Chegou uma hora que a dor não passava com remédios e acabei indo parar em uma emergência. Depois de um tempo, percebi que o processo todo era bem relacionado à minha rotina completamente agitada e estressante de jornalista", comenta Paola Vasconcelos, que já foi repórter do Diário do Nordeste e hoje estuda e vive na França. Ainda segundo ela, após a gravidez as crises foram ficando cada vez mais raras. "Hoje em dia, se a dor começa tomo imediatamente um analgésico e ela passa". Além da correria do dia a dia, do sedentarismo e da ausência de repouso adequado, a alimentação é outra causa fundamental para o surgimento e a continuidade das dores de cabeça intensa e do desagradável quadro enxaquecoso.

Dr. Colares ressalta que tudo aquilo que normalmente entra em nosso corpo sofre diversas reações químicas, desde processos como quebra, absorção, metabolização, sensibilização imunológica até a excreção. Tudo isso vai produzir, de acordo com o clínico, metabólicos. "E todos esses metabólicos têm reação em nosso organismo". Ainda conforme o médico, esses compostos são classificados com relação a escala do pH em acidificantes ou alcalinizadores.

Quando os alimentos são acidificantes, provocam no organismo o que hoje se conhece como inflamação sistêmica. Esta é a base para uma série de situações, as quais encontramos também a enxaqueca.

Há alimentos que geram alta acidez, como o leite e seus derivados (sobretudo, o queijo); chocolate; bebidas com cafeína e outras xantinas (café, chá verde, chá mate, chimarrão, etc) e alguns vegetais e legumes.

Outro hábito que deve ser evitado é o consumo concomitante de fruta ácida e carboidrato, o famoso sanduíche com suco de laranja, ou também arroz, macarrão e sucos cítricos. Quando isso ocorre, o ácido oxálico é formado, assevera Colares. "É essencial, no entanto, ressaltar que a combinação é que não pode acontecer, a ingestão individual de frutas ácidas é bastante saudável e forma fibrato de sódio, que é uma base e não causa danos ao nosso corpo", destaca o especialista.

A carne vermelha de qualquer espécie (boi, porco, carneiro, presunto, etc) e a carne de aves (frango, faisão, avestruz, pato, marreco, peru, etc) também ocasionam a acidez, já que esses alimentos possuem um aminoácido chamado metionina, alerta o médico. Dentro desse aminoácido existe um átomo de enxofre, e quando ocorre a ligação peptídica, a metionina libera esse átomo para o meio, formando os ácidos sulfúrico e sulfuroso, que são prejudiciais ao organismo.

Fibras essenciais

Preocupada com a questão do consumo excessivo de carne, a professora universitária e bioquímica Valesca Rabelo criou, há um ano, o Espaço Orgânico Grão da Vida (www. espacoorganicograodavida.com.br), voltado para a saúde e qualidade de vida. No local, montou um restaurante com alimentação vegana, que serve pratos onde estão fora os produtos de origem animal (carne,frango, peixe, leite e ovos)e receitas bem diversificadas.

Conforme reforça Dr. Colares, os hábitos alimentares atualmente são intensamente constipantes pelo fato de serem repletos de cereais refinados (arroz, macarrão e pão branco) e poucas frutas. Nosso intestino deve funcionar de três a cinco vezes por dia, já que nenhum alimento que ingerimos deve permanecer por mais de oito horas em nosso trato digestivo. "O ideal é comer tudo integral. Hoje em dia, por conta do aumento do consumo, está se barateando o custo. E a previsão é a de que, com o tempo, o preço esteja ainda mais acessível", esclarece o especialista.

Com apenas cinco anos de idade, a decoradora Juliana Capelo já sofria com crises de enxaqueca quase que diariamente. Ela recorda e comenta que em muitos momentos foi necessário permanecer dentro de um quarto, sem muita iluminação, por conta da claridade que a incomodava. Nos quatro primeiros meses de gravidez, suas crises, que haviam ficado mais espaçadas, voltaram a acontecer com maior frequência. "Procurei um neurologista que me indicou uma dieta específica. Com a alimentação adequada, percebi melhoras importantes e significativas", diz.

O ideal é a ingestão de sete a oito porções de fruta por dia. A melhor dica, aponta o médico, é colocar uma fruta doce em cada uma das três refeições e uma ácida no horário das merendas. Apesar de ser um derivado do leite, o iogurte é liberado ao consumo, sem nenhum tipo de malefícios ao corpo ou restrição. A razão para isso está no fato de que o iogurte age a partir de uma cultura de bactérias, com ação sinérgica entre elas, ou seja, uma estimula o crescimento da outra. Para a multiplicação, que ocorre exponencialmente, elas usam o próprio leite como alimento. "A bactéria não tem estômago, desta forma, ela joga fora enzimas digestivas que quebram a lactose. O iogurte é uma excelente opção para quem se sente escravo do leite e de seus inúmeros derivados", afirma Dr. Colares.


DICAS ALIMENTARES

Podem ser consumidos:

Feijão verde
Quiabo
Couve-folha
Alface
Iogurte
Peixe e mariscos

Devem ser evitados:

Café
Chá verde
Feijão seco
Leite e derivados
Repolho
Carne vermelha


Dramas e dores do feminino

Para compreensão da relação das mulheres com a menstruação, como também com a SPM - Síndrome Pré-Menstrual e seus diversos sintomas físicos e psíquicos, entre os quais está a enxaqueca, considero imprescindível uma reflexão sobre a influência que a intensa carga cultural negativa, historicamente associada às funções corporais femininas, exerce sobre a saúde do relacionamento das mulheres com seu corpo, sua menstruação, sua sexualidade e sua feminilidade.

Atualmente, mesmo expostas, sistematicamente, a um verdadeiro turbilhão de informações, a menarca, a primeira menstruação, que é um fenômeno que faz parte do desenvolvimento sexual feminino normal, muitas vezes, ainda acontece envolta numa atmosfera de segredo, silêncio, vergonha e desconforto.

Através de uma simples analogia entre a fisiologia da menstruação e o funcionamento da bexiga e dos intestinos, o ginecologista Eliezer Berenstein, demonstra, de forma contundente, como a influência negativa desse fator cultural se evidencia no cotidiano das mulheres. Ele nos lembra que "quando temos vontade de urinar ou evacuar, esses órgãos enviam sinais nos alertando de que é hora de procurar um banheiro. Mas ninguém cresce ouvindo que "fazer xixi" dói! O útero também manda uma mensagem avisando que é hora de eliminar o sangue menstrual. Mas, desde pequenas as mulheres ouvem que menstruar é um estorvo, que dói e incomoda".

Ao longo de suas vidas, as mulheres vivenciam, ciclicamente, transformações físicas e psicológicas, relacionadas ao ciclo menstrual, à gravidez, ao parto e à amamentação.

Acredito que a saúde feminina, entendo saúde como "um estado de razoável harmonia entre o sujeito e a sua própria realidade", depende de uma educação focada no desenvolvimento da consciência desta ciclicidade, que ajude as mulheres a se orgulharem de sua maturidade física, de seus corpos, que contemple as complexidades do fenômeno da menstruação, que as prepare para lidar com as mudanças físicas e psicológicas inerentes à vida menstrual, através da elaboração de um repertório de atitudes de autocuidado que promovam a saúde integral feminina, pois quanto mais conscientes de seus ciclos mais as mulheres serão capazes de cuidar bem de suas vidas e também daqueles que precisam de seus cuidados.


Milena Rebouças Aguiar (*)
* Psicóloga e Psicoterapeuta

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