Entrevista com Antonio Eduardo Muzzi

Bem-estar do trabalhador

00:14 · 10.09.2013
A busca do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal impõe mudanças que reverberam na saúde como um todo

Qual o paralelo entre as antigas e as novas relações de trabalho que visam a saúde e o bem-estar do trabalhador?

Mudanças no ambiente e atribuições de trabalho relacionadas a maior presença da mulher, ambientes virtuais, conexão 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano, rápida e intermitente inovação tecnológica são fatores que impactam nas relações e nos tipos de ocupação laboral. Entretanto, há fatores socioculturais demográficos que impactam não apenas no trabalho, mas no estilo de vida. Suas consequências podem ser sentidas em todos os setores da vida, entre elas no trabalho: aumento das doenças crônicas, dos fatores de risco (obesidade, sedentarismo, dieta inadequada, álcool, fumo, drogas), dos custos em assistência médica, envelhecimento da força de trabalho. As relações e atribuições do trabalho precisam considerar variáveis para se organizarem como um sistema sustentável e competitivo. São desafios do mundo atual: lidar com trabalhadores mais velhos, maior número de mulheres, convivência com limitações impostas pelas doenças crônicas e seu custo elevado, estímulo para que trabalhadores reaprendam seu ofício em novas plataformas tecnológicas, gestão do tempo e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Como base em sua experiência, Antonio Eduardo Muzzi, gerente de Qualidade de Vida do Sesi, diz que mais da metade das empresas de médio e grande porte possuem programas de qualidade de vida com objetivos definidos Foto: Divulgação

Quais iniciativas no âmbito da empresa são reconhecidas como promotoras efetivas de saúde e bem-estar ?

O modelo de intervenção moderno denominado Ambiente de Trabalho Saudável, propugnado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), defende que as organizações devem oferecer serviços em quatro vias de influência. São elas: recursos pessoais do trabalhador (voltados para capacitar os indivíduos a participar da manutenção da sua saúde e bem-estar); ambiente físico de trabalho; ambiente psicossocial de trabalho (normas e valores presentes no funcionamento da empresa); além do papel da empresa na comunidade. Este modelo permite a integração sistemática e estratégica das políticas e programas de saúde, segurança e meio ambiente em um contínuo de atividades que aumentem a saúde global e previnam as doenças ocupacionais. Podemos exemplificar o potencial dessa integração que pode ampliar a capacidade física e muscular do trabalhador por meio de programas de atividade física e nutrição. Tal condição pode aumentar sua capacidade de evitar a ocorrência de acidentes e lesões.

Quais as influências positivas de um ambiente saudável e propício ao bem-estar?

Além dos benefícios para o trabalhador e para a produtividade da empresa, verificou-se recentemente que as corporações podem ser consideradas um microcosmo da sociedade, podendo influenciar na sua força de trabalho, nas pessoas e comunidades que não seriam atingidas em outras situações. Ou seja, a atuação das empresas na promoção de saúde é um instrumento social poderoso para combater doenças crônicas e desafios relacionados à qualidade de vida.

Como o trabalhador pode contribuir para uma melhor qualidade de vida?

Pesquisas demonstram a mesma tendência de que a capacidade de participar da promoção de sua própria saúde está relacionada ao grau de autonomia e escolaridade do indivíduo. Mesmo em países com alto índice de escolaridade, em especial os EUA, existem desafios que se tem chamado de "epidemia de doenças crônicas não transmissíveis".

Qual a diferença entre doenças relacionadas ao trabalho e as ocupacionais?

As doenças ocupacionais são aquelas diretamente ligadas à ocupação laboral do trabalhador (decorrentes das tarefas de sua função), enquanto as relacionadas ao trabalho são mais abrangentes. Incluem as doenças ocupacionais e doenças que não estão relacionadas ao tipo de ocupação laboral, mas aos perigos aos quais os trabalhadores são expostos no trabalho. Por exemplo, doenças respiratórias podem estar ligadas a trabalhadores de ambientes administrativos, mas não necessariamente às atribuições administrativas. Segundo o INSS, entre os afastamentos relacionados ao trabalho em 2010, 62,33% referiu-se a lesões e traumatismo, 26,43% a doenças do sistema osteomuscular e 3,88% a transtornos mentais e comportamentais. Estudo publicado no American Journal of Industrial Medicine (Barbosa-Branco, Souza e Steenstra,2011), registrou 3,5 vezes mais afastamentos devido a causas não relacionadas ao trabalho.

Até onde o ambiente físico pode prejudicar a saúde como um todo?

Entre os inúmeros fatores de risco, chama atenção o estímulo do ambiente de trabalho a comportamentos que são sedentários. Estudos recentes demonstram que pessoas mesmo fisicamente ativas no âmbito do lazer, se expostas a mais de duas horas seguidas de inatividade física, têm chances aumentadas de sofrer morte precoce causada por doenças cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio, entre outros). Períodos continuados de inatividade têm relação direta com a produção da enzima lipase pelo pâncreas, que influi no aumento da circunferência abdominal. Neste sentido, algumas corporações fora do Brasil têm adotado mobiliário que permite que seus funcionários intercalem momentos sentados e de pé. Também têm estimulado os trabalhadores para que façam pausas ativas ao longo do dia de trabalho.

É comum espaços onde há uma série de itens inadequados?

O Brasil possui ampla legislação de proteção à saúde do trabalhador relacionada aos perigos do ambiente. Um dos desafios é apoiar as empresas a implementar as recomendações do Programa de Prevenção a Riscos Ambientais. Além dos perigos químicos, biomecânicos, biológicos, há aspectos do ambiente físico associados a estilos de vida de risco e fatores psicossociais. Algumas empresas oferecem bicicletário, vestiário, escadas e rampas que facilitam os hábitos saudáveis. Os espaços são ambientes de autoexpressão. Portanto, permitir que o trabalhador exponha fotos de familiares ou outros itens pessoais de relevância individual são exemplos de adaptação do ambiente físico visando o bem- estar da força de trabalho.

Como observa a importância da prática de ginástica laboral? O Sesi acompanha, desde 2010, os impactos de seus serviços voltados para a promoção de saúde do trabalhador, em especial os que focam a promoção de estilos de vida saudáveis em cerca de 2.500 indústrias e 700 mil trabalhadores, cuja amostra é de 1.500 indústrias e 150 mil trabalhadores. Observamos uma redução de 8,8% na percepção de dores e desconforto ao realizar as tarefas de trabalho; 9% na inatividade física de lazer; e de 2,9% na indisposição para o trabalho. Análise de razão de chances realizada com dados da pesquisa em Estilo de Vida e Hábitos de Lazer dos Trabalhadores da Indústria (2009) mostrou que um trabalhador industrial de uma empresa que oferece ginástica laboral possui 37% mais chances de praticar atividades físicas nas horas de lazer; 26% de ter percepção positiva da saúde; e 14% de se sentir mais disposto ao fim de um dia de trabalho.

As empresas estão mais atentas ao bem-estar do trabalhador?

Pesquisa revela que no Brasil as prioridades das empresas são: produtividade/redução de presenteísmo (60%), moral e engajamento da força de trabalho (58%), manutenção da capacidade de trabalho (52%). Nossa experiência demonstra que mais da metade das empresas de médio e grande porte possuem programas de qualidade de vida com objetivos definidos. Ainda são poucas as que evidenciam os resultados desses investimentos tanto para os trabalhadores quanto para a produtividade da empresa.

Como a empresa pode investir em seu pessoal e isso resultar em ganhos para o seu negócio?

Estudos de psicologia e sociologia do trabalho indicam que o bem-estar e qualidade de vida do trabalhador estão relacionados a uma escala de valores que varia de necessidades básicas e materiais as psicossociais (reconhecimento, autonomia, realização, clima da organização e autoexpressão). Quanto maior o nível de escolaridade e a ocupação no plano de carreira, maior a importância da autonomia e do espaço de expressão. Na indústria ainda predominam as ocupações manufatureiras ou operacionais. Contudo, espaços sistemáticos de autoexpressão (a hora do diálogo/conversa) favorecem o bem-estar do trabalhador. A oferta de diversos canais extra laborais para socialização tem sido fundamentais. São comuns relatos de trabalhadores que se sentem ´enxergados´ ou ´incluídos´ com a existência de equipamentos esportivos (mesa de pingue-pongue em empresas paulistas e quadras de bocha em empresas do RS).

O Sesi possui estatísticas sobre a saúde do trabalhador?

Em 2009 o Sesi publicou estudo sobre estilo de vida e hábitos/ lazer dos trabalhadores da indústria: 44,3% são inativos fisicamente no lazer; 72,8% no deslocamento; 36,6% fazem uso abusivo ocasional de álcool; 51% não usam proteção solar; 71,7% não consomem frutas e verduras diariamente; 21,4% consomem refrigerantes e sucos artificiais diariamente. As regiões Norte e Nordeste registram os piores resultados.

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