DANÇA

Balé: amor e abnegação

19:55 · 27.02.2011
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Na hora da sessão das fotos para a matéria, a bailarina e estudante de Direito, Marjorie Mousinho, 20, ouvia, constantemente, as funcionárias da Escola de Dança Madiana Romcy perguntar quando ela retorna aos ensaios. A jovem, descontraída, respondia: "Eu volto logo. Segunda tem ensaio? Eu venho, então".

Até "puxão de orelha" da tia Madiana, como a professora é carinhosamente chamada pelas alunas, Marjorie levou, mas, no final, tudo ficou bem, já que, ali, ela se sente em casa. "Comecei a dançar balé com três anos e logo me apaixonei. Aqui, na Madiana, estou desde 2004. E não pretendo sair. Quando danço, esqueço de tudo lá fora. É uma terapia. Ao me formar em Direito, vou conseguir conciliar a carreira com o balé".

Integrante da turma de balé técnico da escola, Marjorie é apontada como uma das melhores, mas admite que sofre por estar acima do peso. "Já ganhei alguns solos e fiquei feliz com as oportunidades. Ao mesmo tempo, já ouvi gente de fora, que veio me assistir dançar, dizer que eu sou ótima, mas que meu peso me limita".

No entanto, não se deixa abater: "Por mais que tente, eu nunca vou ser seca como as outras bailarinas. Tem papéis que nunca vou poder fazer devido ao peso, como o do cisne. Quando criança, estudei em uma escola onde pressionavam para que emagrecesse. Fiquei tão impressionada que passei dois dias sem comer! Hoje, sei que tenho que respeitar meus limites. Não desistirei do meu sonho porque sou gordinha. Se ficar pensando nisso, enlouqueço! ".

Muito amor

A garota conta, ainda, que o balé acaba influenciando a sua vida social e que, por isso mesmo, é preciso amar muito para levá-lo adiante. "A gente não pode sair no meio da semana para farra. O problema é que eu adoro curtir a noite. Já faltei ensaio e levei grito por conta disso. A conscientização tem que ser diária". Devido ao rigor da disciplina, os amigos costumam reclamar. "Não entendem quando deixo de fazer algo por conta do balé. Acham que estou exagerando ou ficando doida".

O problema segue no campo afetivo. "Tive dois namorados em época de festival, período em que fico mais ocupada, ensaiando até nos finais de semana. Eles não compreendiam que tinha que dormir cedo, não podia viajar com eles nem jantar sempre à noite, já que a minha alimentação tinha que ser especial", diz.

A bailarina Claudia Bezerra, 31 anos, está solteira atualmente, mas afirma que já passou por dificuldades com namorados devido sua dedicação ao balé. Além de dançar, ela exerce a profissão de dentista em dois lugares. Sai de casa com as sapatilhas e encontra tempo, de segunda a sexta, para ensaiar 1h30 min. "Saio do trabalho às 19h, pego aquele trânsito e busco não ficar neurótica. Às vezes chego atrasada, mas, quando ouço a música clássica e dou os primeiros passos, esqueço tudo lá fora".

Claudia começou a dançar balé aos três anos. No entanto, após um período de intercâmbio nos EUA, e posterior vestibular/faculdade, ela acabou passando cerca de oito anos parada. "Voltei do exterior 12 a 15 quilos mais gorda. Não queria dançar assim. Dificulta os movimentos. Só voltei à ativa em 2006, quando já tinha perdido quase tudo que havia ganho".

No tempo em que ficou distante do balé, Claudia recebeu apoio e incentivo dos ex-colegas e professores. Mas garante que não fez nenhuma loucura para retornar ao seu peso. "Comecei a fazer dança de salão, pela qual eu também me apaixonei. Não fiz dieta, apenas passei a comer menos", garante.

Para não se perder entre tantas tarefas, a dentista/bailarina conta que teve que abrir mão de alguns sonhos. "O balé é um prazer, uma terapia. Nunca me entregaria a ele ao ponto de colocar em risco à minha saúde. Tive que desistir do sonho de fazer solos, pois eles exigem muito. Nesse caso, existe uma maior cobrança por tempo, precisão e perfeição", revela.

Mas Claudia aponta uma saída. Ela realiza solos na dança de salão, que exigem menos ensaios. Hoje em dia se diz mais consciente em relação à necessidade de se alimentar da maneira correta. Procurou uma nutricionista, que indicou comer banana para evitar cãibras. É essencial se alimentar adequadamente - o gasto calórico, com o balé, é de 400 a 600 calorias por hora", conclui.

Entrevista
Dra. Cristiane Vasconcelos

A competição é saudável, mas deve-se ficar atento aos excessos

A cobrança por um padrão estético como o das bailarinas pode mexer com a saúde mental de que maneira?

Pode desenvolver um processo anoréxico, que não deixa de ser uma psicopatologia, doença psíquica que gera sofrimento humano.

A busca pela perfeição, encontrada no caso das bailarinas, pode ser visto como um exemplo do que acontece em outras relações sociais, em que essa perfeição é encarada como primordial para o sucesso?

A busca do sucesso sempre pode gerar ambição que passe da frequência normal gerando também TOC (transtorno obsessivo compulsivo) ou um narcisismo exacerbado que não permite limites.

Você já lidou com o caso de alguma paciente em situação similar, de cobrança pessoal extrema, ao ponto de desenvolver uma obsessão pela perfeição e, no caso, perda da própria auto estima? Como agir nesses casos?

Sim. Já atendi a um atleta de natação que o segundo lugar para ele significava ser o primeiro perdedor. No final, se não ganhasse a competição, se considerava um fracassado em tudo. Foi preciso psicoterapia.

Como a bailarina deve agir para não se deixar tomar pelos ideais de perfeição e magreza extrema, ao ponto de colocar a saúde em risco? Torna-se essencial o apoio e o acompanhamento da família?

Sim. É necessário o acompanhamento da família e dos amigos, assim como de psicoterapia e de receber o acompanhamento de um nutricionista. Também deve haver espaço para a prática de técnicas de relaxamento.

Outro agravante para a saúde mental seria a alta competição entre as bailarinas, sempre almejando o papel principal?

A competição em si é saudável não passando dos limites. O ruim é sempre o excesso. É necessário a consciência de sermos pessoas e não máquinas onde o fracasso sirva como busca da perfeição sempre.

As bailarinas em idade de formação, ainda sem maturidade, seriam mais vulneráveis a desenvolver distúrbios? Por que?

Sim, pensando em adolescentes, sim. Essa fase é de mudança. Chamamos de estado limite entre o que os pais querem e o que o sujeito quer. Sendo assim, é uma passagem normalmente difícil onde a bailarina verifica se o desejo é dela ou dos outros sobre o balé.

Que outros fatores considera importante ressaltar?

Acho que sobre o desejo de ser bailarina. Se partir da menina é excelente, pois ela suportará tudo. Se for dos outros - tia, avó, mãe certamente acabará adoecendo.

A opinião do especialista
Balé e doença mental

O filme Cisne Negro, de Darren Aronofsky, retrata o provável primeiro surto de esquizofrenia de uma jovem bailarina - Nina (Natalie Portman). Ela apresenta automutilação (arranca pedaços da pele), delírios de perseguição, alucinações auditivas, visuais e tácteis, além da dissociação do Eu, com o fenômeno do duplo (vê uma outra Nina, fora de seu próprio corpo).

Nina apresenta vários fatores de risco para doença mental: É solitária, sendo a mãe dominadora seu único contato mais íntimo. Vive num meio com alto nível de emoção expressa, com a inveja e ambivalência da mãe, a concorrência corrosiva das outras bailarinas e a intensa pressão por sucesso e perfeição.

Embora exista pelo menos um caso real de esquizofrenia no balé - o inigualável Nijinsky, que morreu num asilo aos 29 anos - essa não é a doença mental mais comum entre os bailarinos. Há trabalhos na psiquiatria mostrando que muito mais comuns são a depressão, o transtorno dismórfico corporal (preocupação patológica com a aparência e supostos defeitos físicos graves, irreais) e os transtornos alimentares (como a anorexia e a bulimia), dos quais Nina apresenta sintomas como o vômito induzido e a obsessão pelos exercícios.

Testemunhando os sacrifícios e dores das bailarinas de perto, Aronofsky afirma que "balé é um esporte olímpico". Alguns profissionais do esporte criticam a frase que diz "esporte é saúde", preferindo "atividade física é saúde", pois o esporte pode ser extenuante e causador de lesões. Já a atividade física é benéfica até para a saúde mental, influenciando a plasticidade e as conexões neuronais.

Praticado erradamente, o balé pode gerar ansiedade, reforçar o narcisismo ou justificar rituais obsessivos com o corpo e a alimentação. Os pais podem projetar inconscientemente seus desejos e frustrações nas crianças, para que vivam por eles o sucesso e a perfeição inatingíveis, como no filme. Mas isso não acontece só na profissão de bailarina.

Mais comumente, o balé favorece a integração social, o desenvolvimento neuropsicomotor e o reforço positivo da feminilidade. Como sempre, o bom senso, a moderação e o diálogo franco entre pais e filhos são o melhor caminho.

Dra. Eliane Souto de Abreu
Psiquiatra e psicoterapeuta. Professora do Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor)

Transtornos no cinema

Dragão vermelho: Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes) é um assassino serial que apresenta diversos sintomas psicóticos. O transtorno dismórfico corporal é expresso através de uma cicatriz, que apesar de discreta, o deixa profundamente incomodado.

Cyrano de bergerac: o personagem-título (interpretado por Gerard Depardieu) se acha terrivelmente feio em função de seu imenso nariz. Ele sempre temeu a zombaria das mulheres e chega a ameaçar de morte quem ousa falar de seu narigão.

O preço da perfeição: Ellen Hart (Crystal Bernard) descobre uma ótima maneira de comer à vontade e não engordar nada: vomitar.

Maus tratos: Elena (Elena de Haro) apresenta um quadro típico de anorexia nervosa; emprega vários métodos para perder e não ganhar peso. Fonte: "Cinema e loucura - Conhecendo os transtornos mentais através dos filmes" (Artmed Editora)

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