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Avanços no tratamento da artrite reumatoide no mundo

00:00 · 18.11.2013
Primeiro medicamento por via oral que busca modificar o curso no tratamento da AR é destaque no ACR 2013

No grupo de mais de 100 doenças que afetam as articulações, a artrite reumatoide (AR) é a mais comum, afetando aproximadamente 1% da população. No Brasil, mais de um milhão de pessoas sofrem com a doença. Dor persistente, inchaço e perda da mobilidade das articulações são alguns dos sintomas e, se não tratada, pode gerar deformidades irreversíveis, além de erosão óssea, afetando seriamente a qualidade de vida do indivíduo. Essas características de doença crônica, autoimune e sistêmica tornam o diagnóstico e o tratamento precoces primordiais para que o paciente mantenha uma vida normal.

A dor nas articulações acomete a maioria dos portadores de artrite reumatoide. Trata-se de um problema que incapacita o portador para exercer funções básicas foto: Bruno Gomes

Novo medicamento

A boa notícia é a chegada de um novo medicamento que torna o tratamento da AR menos invasivo e agir de forma mais eficiente. É o citrato de tofacitinibe, cuja vantagem é ser a primeira droga por via oral capaz de modificar o curso da artrite reumatoide lançado nos últimos 10 anos.

Vedete do Congresso do American College of Rheumatology (ACR 2013), realizado no final de outubro em San Diego, nos Estados Unidos, o tofacitinibe já está disponível no mercado norte-americano - sob o nome comercial de Xeljanz, lançado pela Pfizer, após a aprovação pelo FDA (órgão que regulamenta e fiscaliza os medicamentos nos EUA). No Brasil, o medicamento está em fase de avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

"Dos anos 1990 até agora, é a primeira droga que realmente traz uma inovação", afirma a imunologista Maysa Arruda, gerente médica do Grupo de Inflamação e Imunologia da Pfizer. Como explica Mark Flanagon, cientista envolvido nas pesquisas que levaram ao desenvolvimento do medicamento, o tofacitinibe traz um novo mecanismo de ação intracelular que bloqueia a inflamação.

Antes desse avanço, os remédios possuiam restrições, ou seja, alvos únicos e extracelulares. "Essa é uma nova forma de olhar o tratamento. A percepção muda para o paciente, que terá um tratamento para a vida toda, pois substitui a medicação injetável por uma por via oral", comenta Maysa Arruda.

Em busca de controle

Apesar de não ter cura, a AR pode, sim, ser controlada e os pacientes contam com diferentes tratamentos que aliviam os sintomas. São diversas as abordagens farmacológicas, envolvendo analgésicos, anti-inflamatórios, corticoides e medicamentos modificadores do curso da doença (DMCD). Estes últimos podem ajudar a controlar a AR, evitando danos nas articulações, a exemplo do metotrexato, um antimetabólico e antifolato empregado no tratamento de câncer e doenças autoimunes.

No congresso do ACR, os médicos tomaram conhecimento dos dados de segurança e eficácia do novo tratamento com o citrato de tofacitinibe, em estudos de extensão e longo prazo que acompanham as melhorias na qualidade de vida dos pacientes. Tais resultados foram confirmados em sete estudos clínicos envolvendo pacientes com AR nas formas ativa, moderada e severa. Em todas as pesquisas, os pacientes tratados com o medicamento apresentaram melhora na resposta clínica e no desempenho físico em relação aos que receberam placebo.

Mesmo com todos os avanços, os participantes do congresso deixaram claro que cada paciente é um caso a ser avaliado para, só então, ser avaliado se está apto ou não a receber o novo tratamento.

"O consenso é entrar com o tratamento convencional e uns três meses depois avançar para o novo tratamento", afirma Antonio Carlos Ximenes, chefe do Departamento de Medicina Interna do Hospital Geral de Goiânia, um dos especialistas brasileiros a integrar as pesquisas para o desenvolvimento do tofacitinibe.

O reumatologista Flávio Maciel resumiu o resultado do debate do ACR sobre a terapia ideal com a filosofia do tratamento denominada "treat to target", que tem como meta atingir os resultados positivos para o paciente em seis meses: se não houver progressão, muda-se o tratamento, destaca.

Custo x benefícios

Apesar do custo elevado - uma caixa do Xeljanz com 60 comprimidos, suficiente para um mês, custa US$ 2.055 nos Estados Unidos - o novo medicamento apresenta melhores resultados e, com a adoção de um tratamento precoce, traz menos problemas para o paciente no futuro, o que acaba tornando a melhor opção também na relação custo-benefício a longo prazo.

O tratamento apresentado no congresso American College of Rheumatology busca mudar estatísticas. Uma delas é a de que 66% dos pacientes perdem uma média de 39 dias de trabalho por ano em decorrência dos danos causados pela AR. Outros estudos mostram que de 20% a 30% dos portadores tornam-se incapacitados profissionalmente nos primeiros três anos da doença.

"Quanto mais rápido o paciente entrar em remissão, melhor esse se sentirá no futuro. Um dos objetivos a longo prazo é impedir que o paciente sofra com as deformidades nas articulações", descreve Ricardo Machado Xavier, chefe da Divisão de Reumatologia do Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

"Hoje, o indivíduo é capaz de ter uma qualidade de vida normal, com a ingestão de dois comprimidos por dia", confirma Antonio Carlos Ximenes, especialista do Hospital Geral de Goiânia.

O jornalista viajou a San Diego (EUA) a convite da Pfizer

FIQUE POR DENTRO

Nunca ignorar queixas de dores nas articulações

Muitas pessoas ignoram por bastante tempo as dores nas articulações. Quando decidem buscar ajuda, geralmente consultam um clínico geral ou outro médico da família, mas sem formação específica. "Quando finalmente a AR é descoberta e o tratamento é prescrito, dependendo da região , pode haver uma dificuldade maior em se obter com rapidez o medicamento no sistema público de saúde", salienta Geraldo Castelar, professor de reumatologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ivânio Pereira, chefe do Núcleo de Reumatologia da Universidade Federal de Santa Catarina, reforça a importância do diagnóstico e tratamento precoce: Quando o tratamento ocorre nos primeiros seis meses da doença a resposta clínica é bem diferente se comparado a uma pessoa que busca ajuda médica dois anos depois. "Há tanta deformação articular que o tratamento não dá tanto resultado. Cinco anos depois, quem tem mais necessidade de recursos do governo é quem começou (o tratamento) mais tarde", comenta.

O especialista diz que o paciente tratado desde o início tem um custo mensal em torno de R$ 50 (com o medicamento metotrexato). Já o custo do tratamento tardio salta para R$ 3 mil ou até R$ 5 mil mensais, com os agentes biológicos. A AR é a segunda doença mais cara para o s cofres públicos, perdendo apenas para a Aids (se considerados os custos de diferentes tipos de cânceres em separado).

A AR surge geralmente entre os 30 e 40 anos. A incidência é maior na faixa etária de 40 a 70 anos, atingindo três vezes mais as mulheres.

Mais informações

Sociedade Brasileira de Reumatologia
www.reumatologia.com
Dados atualizados sobre a AR nas diferentes regiões do País

EBENEZER FONTENELE
ESPECIAL PARA O VIDA

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