INFÂNCIA

Autores da própria história

20:25 · 30.07.2011
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Narrar fatos reais de forma lúdica e única, ajuda crianças e adolescentes a criarem um vínculo forte com o mundo

A infância é um período único e repleto de experiências que levamos para toda a vida. O contato com parentes, professores e amigos, brincadeiras, medos, frustrações e aprendizados juntos fazem parte da construção de uma história que começa bem antes do nascimento. É a partir dessa ligação com o passado que a nossa identidade se forma. Em muitos casos, no entanto, o registro desses momentos é interrompido, deixando vários "álbuns de vida" incompletos.

Juliana (nome fictício), 15, chegou à Sociedade da Redenção há pouco mais de um ano. A instituição abriga mães adolescentes que, por estarem em situação de vulnerabilidade social, não têm condições de permanecer com a família. Hoje, a adolescente vive com a filha Clara (nome fictício), de um ano. Renata (nome fictício), 17, é outra moradora da casa, mas que, infelizmente, perdeu seu bebê durante o período de abrigamento.

Como as duas meninas, muitas são as crianças e os adolescentes que, por diversos motivos, são obrigados a sair do convívio com a família e passam a morar em abrigos. Devolver a história que pertence a cada um deles é o principal objetivo do "Fazendo Minha História", um dos programas que fazem parte da organização não-governamental Instituto Fazendo História.

Para isso, uma grande equipe de voluntários trabalha em várias cidades do Brasil junto a instituições de acolhimento de jovens vítimas de abandono, violência e negligência. A Sociedade da Redenção é um dos seis abrigos atendidos pelo projeto no Ceará desde 2010.

Além do incentivo à leitura, que envolve a doação de uma biblioteca e contação de histórias, o trabalho também é realizado através da produção do livro Fazendo Minha História, que, segundo a psicóloga, voluntária e técnica responsável pelo projeto no Ceará, Bárbara Machado Monte, tem como eixo principal a história de vida; fazer com que essas crianças possam conhecer suas trajetórias que são únicas e singulares, pois, contá-las e preservá-las torna mais claro quem são, as escolhas que podem fazer e que lugar ocupam diante dos acontecimentos da vida

Não é somente com crianças que vivem em entidades sociais que os benefícios da leitura e dos registros de vida se tornam importantes, pois toda criança tem o direito de conhecer a própria história e, a partir dela, reconhecer-se enquanto indivíduo e aprender a lidar com a realidade na qual vive.

"E a literatura é a principal ferramenta de acesso às histórias pessoais, pois as narrativas possibilitam a organização do mundo interno da criança. Através dos livros, além de ampliar o repertório cultural, podem trabalhar temas como amor, morte, separação, medo, amizade, saudade", explica Bárbara Monte.

Registros da infância

Após as leituras dos livros recomendados e doados pelo instituto, as crianças são incentivadas a construir as próprias narrativas a partir do álbum, no qual compartilham suas vidas e registram momentos importantes, sejam anteriores ou durante o período em que estão no abrigo.

Aurilene Ribeiro é educadora e, ao lado de Bárbara Monte,  media os momentos de leitura e fabricação dos álbuns na Sociedade da Redenção. Os encontros com Juliana, Clara e Renata ocorrem às quintas-feiras, de 18h30 às 20h30, há quase um ano.

"Para mim isso é muito importante, sim. Representa uma segurança. Porque têm algumas coisas difíceis que a gente não consegue contar para ninguém. Com o álbum, sai tudo mais fácil", revela Juliana, ainda tímida.

Desenhos, frases, textos, fotos e colagens compõem o trabalho final, desenvolvido ao longo de um ano. Durante os momentos lúdicos, enfatiza Bárbara Monte, as crianças conseguem falar e lidar melhor seus sentimentos e se reconhecem como autoras da própria vida.

Orgulhosa, Renata mostra o álbum repleto de fotografias (algumas conseguidas com a família, outras tiradas quando chegou à Redenção por meio de recursos do instituto) e desenhos feitos com capricho. "Esta foto é da minha família e esta outra é de quando cheguei aqui", comenta.

Até Clara, que nem mesmo sabe escrever ainda, já possui o próprio álbum elaborado com dedicação pela mãe, Juliana. "Isso faz parte de outro programa do instituto que é o "Palavra de Bebê", no qual já procuramos registrar a história dos bebês que nascem nos abrigos e fortalecer o laço deles com as mães", explica Bárbara Monte.

Apesar de morarem na instituição, as meninas continuam a manter contato e a receber visitas das famílias. Os encontros completam os registros do álbum e ajudam a conservar nelas a esperança de um dia poderem voltar aos lares.

Enquanto isso,  nas instituições, colaboradores e voluntários atuam juntos na formação educacional, no  incentivo ao desenvolvimento profissional e  no suporte psicológico para que esses jovens não voltem a mesma situação da qual vieram.


Voluntárias

"As narrativas infanto-juvenis permitem abordar temas de formas menos dolorosa"

Bárbara Machado Monte
Psicóloga e colabora do Fazendo História


"Todas as meninas que passam por aqui levam consigo sua história nos álbuns"

Aurilene Ribeiro
Educadora e colaboradora do Fazendo História


ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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