Doenças Cardiovasculares

Atenção redobrada aos fatores de risco

00:23 · 16.04.2013
Federação Mundial do Coração lança no Brasil a ação que visa reduzir a mortalidade em 25% até 2025

Ser magro, mas exagerar no consumo de sal/sódio. Praticar exercícios físicos regularmente, mas não dispensar generosas doses de bebida alcoólica toda semana. Ter os níveis de colesterol e glicose sob controle, mas persistir no vício e fumar quase um maço de cigarros por dia. Estar acima do peso, mas ter a pressão arterial ideal, ou seja, inferior a 120mmHg/80mmHg).

Dra. Márcia Barbosa assume a presidência da Sociedade Interamericana de Cardiologia., entidade que representa as iniciativas nas américas fotos: Divulgação

As combinações são propositais e mostram que de nada adianta compensar vícios nocivos à saúde com hábitos saudáveis, uma vez que ao final, o organismo é que sofrerá as consequências, pois estará vulnerável a uma série de doenças não transmissíveis (DNTs).

Para alertar a população sobre a importância de manter atenção redobrada sobre os fatores de risco, a Federação Mundial do Coração (World Heart Federation/WHF), com sede em Genebra, Suiça, maior organização voluntária de cardiologia do mundo, lançou no Brasil a primeira edição do simpósio "Reduzindo a Mortalidade Global em 25% até 2015". A ação aconteceu durante o 30º Congresso de Cardiologia da Sociedade de Cardiologia do Rio de Janeiro, dia 5, no Rio de Janeiro, e percorrerá diversos países. A meta está alinhada com os planos da Organização Mundial de Saúde de reduzir em 25% a mortalidade prematura causada por doenças cardiovasculares e outras não transmissíveis.

Fatores de risco

Os especialistas recomendam que seja mantido o controle sobre os seguintes fatores de risco: índice de massa corpórea (IMC), sendo o ideal entre 18,5 e 25kg/m2; pressão arterial (120mmHg/80mmHg); colesterol (inferior a 200 mg/dl); e glicemia de jejum (menos 100 mg/dl). Além disso, indicam combate ao tabagismo; praticar atividade física (30 minutos cinco vezes por semana), e se ingerir bebida alcoólica, apenas duas doses diárias.

A preocupação da classe médica é fundamentada em várias pesquisas como o estudo Vigitel (realizado por telefone em 2011 com adultos brasileiros). O resultado foi o seguinte: 15% fazem uma atividade física de lazer; 18,2% incluem na dieta frutas e verduras cinco ou mais dias por semana; 34% incluem alimentos ricos em gordura e 28% consomem refrigerantes em cinco ou mais dias da semana. Esses índices estão associados ao aumento do sobrepeso e da obesidade, que atingem hoje a marca de 48% e 14% dos adultos, respectivamente.

Ação mundial

Conseguir conter o nível e tempo de exposição da população aos fatores de risco é um passo importante quando se trata de reduzir o número de óbitos gerados pelas DCVs como infarto, derrame, insuficiência cardíaca e morte súbita.

Segundo Johana Ralston, diretora presidente da WHF, as DCVs - como insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral - são as maiores causadoras de mortes prematuras em todo o mundo, respondendo por cerca de 17,3 milhões de óbitos por ano, 31,3% de todos os casos. No Brasil, este número chega a 300 mil/ano.

Os dados da América Latina, incluindo o cenário brasileiro, também são preocupantes: 40% das mortes precoces ocorrem durante os anos mais produtivos de uma pessoa, ou seja, antes dos 60 anos de idade (e a tendência é afetar pessoas cada vez mais jovens).

"Esses números podem ser contidos se a população se conscientizar para a necessidade de hábitos saudáveis", reforça Johana, CEO da Federação com 200 organizações-membro em mais de 100 países. O foco é a luta contra as doenças cardíacas e o AVC, em especial nos países de baixa e média renda.

O Brasil foi escolhido para sediar o primeiro simpósio da WHF em função do trabalho desenvolvido pelo governo brasileiro e Ministério da Saúde no propósito de reduzir em 2% ao ano a mortalidade prematura causada por doenças não transmissíveis.

O plano de ação do Brasil consiste em incluir os objetivos e métricas aprovados pela OMS em torno da pressão arterial elevada, principal indicador de risco para as doenças cardiovasculares, bem como o tratamento medicamentoso para prevenir infarto e derrame. Detalhe: o Dia Mundial da Saúde (7 de abril) foi focado na hipertensão arterial.

Nas Américas

O resultado do Global Burden of Disease Study 2010 (CMD), o mais amplo estudo sistêmico sobre o peso das DCVs, confirmou que os distúrbios cardiovasculares estão entre as principais causas de morte, invalidez e morte prematura no mundo.

Foi registrado um aumento de pelo menos 20% na incidência de doenças entre 1990 e 2010 devido à doença isquêmica do coração e ao derrame, condição atribuída à pressão alta e ao tabagismo, cujos fatores de risco são dieta pobre em frutas e verduras, álcool, IMC elevado e inatividade física.

"O leigo tem a ideia de que infarto é coisa de gente rica. Isso não é verdade, pois está provado que as doenças não transmissíveis são, efetivamente, as mais prevalentes na população de baixa renda. É a que possui menor controle dos fatores de risco como obesidade e pressão arterial elevada", afirma Dra. Márcia de Melo Barbosa, que assume em junho próximo a presidência da Sociedade Interamericana de Cardiologia.

Embora a maioria dos países da América Latina já tenha leis em vigor que determinam os "ambientes livres de cigarro", muito ainda tem que ser feito para viabilizar leis mais severas visando a redução os índices de gordura saturada e sódio nos alimentos industrializados. "O que o Brasil fizer neste sentido, todo o mundo estará atento", pontua a médica que é ecocardiografista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

FIQUE POR DENTRO

Obesidade interfere na função do coração

"Tudo o que nos desvia da vida ideal é a carga que uma doença adiciona ao processo de envelhecimento. Os danos cardiovasculares são os mais determinantes na curva da vida ideal". É o que afirma o Dr. João Lima, professor de Medicina, que liderou programas pioneiros de ressonância magnètica cardiovascular e tomografia cardíaca.

Dr. João Lima já liderou programas pioneiros no mundo na área de ressonância magnéticardiovascular e tiomografia cardíaca


Embora considere importante focar em todos os fatores de risco, Dr. João Lima é enfático no combate à obesidade. "Interfere diretamente na função do coração. Se assemelha a uma inflamação crônica e enfraquece o coração". Segundo pesquisas, a influência genética parece ser mínima ou influi muito pouco na questão cardiovascular. "O que pesa mais, afirma, é o que sua mãe cozinha, formando os hábitos alimentares iniciados na infância. É o que a família carrega do ponto de vista socioambiental", diz.

O especialista chama atenção para a necessidade da prática de exercícios físicos visando ao ganho de massa muscular, seja uma atividade aeróbica ou anaeróbica. "O importante e se exercitar. Tanto é bom para a saúde do coração como há estudos que mostram ser um fator importante para a prevenção de demências", diz. Também condenou os excessos (inclusive de exercícios), assim como restringiu a prática de musculação para menores de 18 anos.

Dr. João Lima dirigiu por vários anos o Laboratório de Ecocardiografia da Universidade Johns Hopkins (EUA), sendo responsável pelo desenvolvimento de métodos de ressonância magnética para medir a extensão do infarto e a gravidade da obstrução microvascular em pacientes com infarto agudo do miocárdio.

GIOVANNA SAMPAIO *
EDITORA DO VIDA
*A jornalista viajou ao Rio de Janeiro a convite da World Heart Federation ((WHF)

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