Aproveitamento

As sobras que rendem refeições saudáveis

00:39 · 11.06.2013
Sem formação técnica em culinária, mas repleta de experiências, a paraibana Regina Tchelly conta que, no Nordeste, principalmente no interior, há uma cultura de aproveitamento total dos alimentos, diferente das grandes cidades. "Cresci vendo minha mãe não desperdiçar nada. Ela cozinhava cascas, sobras, e o que não servia para comer dava aos animais", relembra.

A paraibana Regina Tchelly (à esquerda e a frente na foto), prepara opções saborosas e nutritivas com o que, geralmente, reservamos ao lixo Foto: Marcelo Regua

Há 12 anos morando no Rio de Janeiro e percebendo o desperdício constante, Regina Tchelly uniu sua vontade de ser cozinheira e o conhecimento adquirido às necessidades das comunidades e feiras da cidade carioca e criou a Favela Orgânica em setembro de 2011. "Via o tanto de alimentos que sobravam nas feiras livres e pegava para fazer sopa para mim", conta. Depois do projeto, as feiras se tornaram parceiras e fornecem talos de brócolis, couve, couve-flor, folhas, entre outros alimentos.

Empreendedorismo

Com a iniciativa de lançar um buffet especializado em gastronomia alternativa, Regina passou a atender festas de aniversários e eventos corporativos, além de promover oficinas por todo o País. Inicialmente, as aulas eram disponibilizadas aos moradores do Morro da Babilônia, sobretudo às mães. Mas, com o tempo, hospitais, empresas e instituições passaram a contratá-la para workshops sobre aproveitamento integral dos alimentos. Contatos: (21)8212.9221 e facebook.com/favelaorganica.

A meta é usufruir ao máximo da comida. Regina defende que muito do que geralmente se joga fora possui uma porção significativa de nutrientes e possibilita uma variedade de refeições. "Com abacaxi, por exemplo, prepara-se três pratos: Da casca se faz suco com capim limão; do bagaço, doce; e a polpa, come-se", pontua.

O que sobra ainda assim tem destino certo: a compostagem caseira. Além das atividades que desenvolve, a empreendedora cultiva hortas na comunidade, onde ensina compostagem caseira, uma alternativa de obter fertilizante natural para os jardins. Os alimentos orgânicos e naturais descartados ganham utilidade.

Compostagem

São necessários dois baldes sobrepostos. O primeiro com pequenos furos. Neste, serão despejadas as sobras com minhocas e serragens, componentes do adubo, que deve ser misturado uma vez na semana. Pode-se adicionar folhas secas e depois utilizar nas plantas. Assim como o líquido produzido pela decomposição, que restará na bacia de baixo. Segundo Regina, com um pouco de água a substância deixa as plantas mais nutridas.

SAIBA MAIS

Lavar as verduras e frutas com hipoclorito de sódio. Mergulhe os alimentos antes de manusear em um litro de água para cada colher de sopa do produto.

Armazene os alimentos vindos do supermercado em um recipiente plástico ou em saco plástico transparente. Quando for utilizar, lavar com hipoclorito de sódio.

Técnica de branqueamento: Para conservar o alimento, deve despejá-lo em água fervente por três minutos. Depois de retirá-lo, colocá-lo em água com gelo pelo mesmo período. Escorra e armazene na geladeira. Isso mantém a propriedade nutricional do alimento. Para utilizá-lo, não necessita passar pelo hipoclorito de sódio. Os itens que possuem superfície mole (como mamão, chuchu e melancia) não devem ser submetidos à técnica.

Fonte: Nutricionista do Programa Mesa Brasil do SESC, Lidiane Fernandes

Ação contra o desperdício

O Serviço Social do Comércio (Sesc) trabalha com a mesma cultura de aproveitamento por meio do programa Mesa Brasil, que abrange o território nacional. No Ceará, o projeto existe há 11 anos.

Iniciou com o nome Amigos do Prato e, desde 2003, passou a atender a todo o País e mudou de nome. O objetivo é minimizar a fome e combater o desperdício. "Os alimentos que são próprios para o consumo, porém fora dos padrões comerciais, são coletados. É uma cenoura machucada que o consumidor despreza, ou alimentos que estão próximo da data de validade, mas que podem ser consumidos", explica Lêda Azevedo, gerente do programa Assistência que agrega o Mesa Brasil.

Para isso, possui parcerias com redes de supermercados, indústrias alimentícias, armazéns e associações de produtores rurais, onde são coletados verduras, frutas e legumes. São encaminhados às entidades cadastradas após uma triagem pela equipe de nutrição do Sesc.

Há uma variedade delas, desde creches, organizações que trabalham com população de rua, idosos, entre outros. Em Fortaleza são mais de 400 instituições atendidas que recebem oficinas sobre armazenamento de alimentos, transporte seguro, manipulação, produção de refeições seguras, além de ações que dão suporte para melhoria da gestão social dessas entidades. "O enfoque é aproveitar os alimentos utilizando cascas, folhas, talos e sementes, de forma a estimular o consumo, que sai mais barato e nutritivo", diz a nutricionista do programa, Lidiane Fernandes.

Inscrição

Para participar, é preciso enviar um ofício à Central de Documentação do Sesc, no período de junho a agosto. A entidade será submetida a uma verificação quanto a existência de uma estrutura adequada para a produção e armazenamento. No Ceará, o Sesc atua em cinco unidades: Fortaleza, Iguatu, Crato, Juazeiro do Norte e Sobral.

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