Carcinoma

As emoções diante de um novo diagnóstico

00:58 · 02.07.2013

Avançado ou metastático, o retorno do câncer de mama gera na mulher culpa e um labirinto de sentimentos

São cerca de 250 mil mulheres no mundo com câncer de mama avançado ou metastático (CMA). Já entre as brasileiras, os quadros de CMA representam quase a metade dos diagnósticos de câncer de mama, segundo levantamento feito pela Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Os dados foram divulgados no workshop "Desafios do Câncer de Mama", realizado durante o II Simpósio Internacional de Câncer de Mama para Oncologista Clínico. O evento também divulgou a pesquisa global "Count Us, Know Us, Join Us" (Conte-nos, Conheça-nos e Junte-se a nós), liderada pela Novartis Oncologia, que entrevistou 1.273 mulheres diagnosticadas com a doença em 12 países, inclusive no Brasil.

O estudo revela que apesar de serem maioria, as pacientes com a doença em estágio avançado têm a sensação de que as pessoas não entendem o que elas estão enfrentando. Dois terços (67%) estão inseridas nesse contexto. Já no Brasil, são 49% dessas mulheres que demonstram o mesmo sentimento.

Vibração positiva

A advogada Laís Barbosa, portadora do CMA, concorda com as estatísticas e revela sua história. Em 2003, detectou o câncer de mama, realizou o tratamento completo e, finalmente, se considerava curada.

No entanto, em 2012 a doença retornou. Laís conta que foi bem mais difícil aceitar a recidiva, mas isso não a impediu de lutar. "Com mais experiência, totalmente sozinha, já que sou separada, não tenho filhos e minha mãe já faleceu, só contava comigo mesma. Então, me perguntei para que lado iria: me entregar ou lutar. Como a coisa que eu mais amo na vida é advogar, decidi que lutaria não só por mim, mas pelas outras pessoas", relembra.

Quando tinha condições de trabalhar, Laís fazia questão de ir. Nas vezes que estava impossibilitada, varria a casa sentada em uma cadeira de rodinha para não se entregar à doença. "Fiz meu tratamento e a quimioterapia. Com as veias bem arrebentadas, tive que colocar cateter. Ficava sozinha no hospital. Foi tudo muito difícil, mas eu venci. Foram três meses sem nenhuma manifestação até que voltou".

Dessa vez, em pequenos tumores no cérebro; foi quando Laís partiu para uma terceira batalha. O otimismo reduziu: "O cérebro era a coisa mais importante que tinha, com todos os meus pensamentos positivos. Pensava que, de repente, ficaria sem conseguir falar".

A ideia não permaneceu e a advogada, junto com a mastologista e presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femana), Maira Caleffi, fez os procedimentos que precisava.

Laís revela que se surpreendeu com o aparecimento do câncer, já que sempre teve uma alimentação saudável, sem gorduras, e "politicamente correta" como descreve.

Culpabilidade

Contudo, o médico oncologista Drauzio Varella esclarece que este é um comportamento comum. Além da surpresa, surge a culpa que a mulher sente diante da notícia de que é portadora do câncer de mama. Para ele, as mulheres aceitam a culpa de uma forma inacreditável e têm mania de achar que esse tipo de doença acontece porque falharam em algum ponto. Além disso, aponta a sociedade como um incentivador de todo esse conflito.

Não se ´faz" um câncer

"Existe um psicologismo de porta de botequim que diz que a pessoa fez o câncer por ser muito estressada. Se é assim, faz um tratamento psiquiátrico e desfaz. De onde tiram essa ideia absurda, essa ignorância de que alterações tão sutis dos mecanismos de transmissão de sinal das células são provocadas pelo psiquismo? Para atirar no doente a culpa da doença. A sociedade sempre fez isso. Quem tinha lepra no passado eram os índios que não acreditavam em Deus. Quem tinha tuberculose, antigamente, eram os que levavam uma vida devassa. Quem tinha aids eram os promíscuos, aqueles que tinham a vida sexual aberta, esquecendo que havia senhoras infectadas que tiveram um único parceiro sexual na vida inteira", descreve.

De acordo com o médico, as campanhas sobre o autoexame reforçam a responsabilidade do diagnóstico da doença à mulher, sabendo que se diagnostica pelo autoexame um tumor em média de três centímetros, o que representa um estágio já perigoso da doença.

Prevenção

Drauzio Varella acrescenta que o grande problema está nas pessoas que não possuem acesso aos recursos e às informações essenciais, encontrando-se dependentes dos hospitais públicos. Ainda ressalta que existe dificuldade em todo o processo, desde o diagnóstico até a cirurgia e o tratamento adjuvante, os quais são realizados tardiamente.

O oncologista clínico Rafael Kaliks complementa ao afirmar que, mesmo com a lei dos 60 dias, o tempo não é adequado. Diante desse quadro da falta de tratamento temporal (na hora certa), a mamografia deve ser feita a partir de 40 anos, com um prazo de dois anos no máximo, pois o exame salva 40% de vidas entre mulheres com câncer.

"A aderência à mamografia é a única chance que temos para reduzir a mortalidade de maneira significativa no Brasil", encerra.

FIQUE POR DENTRO

Femama busca regulamentação da lei dos 60 dias

Presidida pela mastologista Maira Caleffi, a Femana lança campanha para divulgar a nova lei que exige o prazo de 60 dias para dar início ao tratamento do câncer de mama a partir do diagnóstico realizada pela Rede Sistema Único de Saúde (SUS).

Diante da lei em vigor desde o dia 23 de maio, a iniciativa busca estimular a população e o poder público em prol da regulamentação do código, para assim atender as necessidades e limitações dos pacientes.

Com o mote "O tempo corre contra", a campanha se mantém até o Outubro Rosa, movimento internacional de conscientização e combate ao câncer de mama no Brasil.

"Com a campanha lançada nacionalmente, poderemos colocar a lei dos 60 dias para a mulher diagnosticada, porque o tempo faz toda a diferença e ele corre contra", destaca a presidenta voluntária da Femana, Maira Caleffi.

*A repórter viajou a convite da Novartis Oncologia


 

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