ARTETERAPIA

Arte como terapia

01:33 · 24.07.2011
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A entrega possibilita que a tinta e o pincel possam agregar ao fazer artístico intensa sensação de prazer, quietude, paz e liberdade. A fuidez da tinta abre os caminhos para uma pintura sem amarras, na qual o ´artista´ pod
A entrega possibilita que a tinta e o pincel possam agregar ao fazer artístico intensa sensação de prazer, quietude, paz e liberdade. A fuidez da tinta abre os caminhos para uma pintura sem amarras, na qual o ´artista´ pod ( FOTO: WALESKA SANTIAGO )
Processo criativo da arte permite o auto-conhecimento ao expressar as emoções

Soltar a criatividade e se expressar através de cores, formas, movimentos e sons, além de promover intensa sensação de prazer, pode, como forma de terapia, ultrapassar o simples fazer artístico, no qual o "artista" acaba por se confundir com a própria obra. A fluidez da aquarela, por exemplo, faz com que não haja limites para essa expressão, que escorre livre pelo papel.

"Na terapia, aprendo a ser eu", relata Mila (nome fictício), de12 anos. Com a ajuda da arteterapia, na qual o processo terapêutico se apropria das linguagens expressivas das diversas modalidades de arte, além de descobrir quem ela é, a garota aprende, sobretudo, a aceitar e a gostar dessa descoberta.

Para qualquer indivíduo, a passagem pela adolescência é uma fase difícil. Ser tímido ou se interessar por atividades que a maioria não se interessa pode fazer com que se tenha a sensação de não-pertencimento ao contexto social no qual se vive. As consequências, muitas vezes, são a introspecção, a baixa autoestima e a não-aceitação de si mesmo.

Ao possibilitar a auto-expressão, a arteterapia dá liberdade ao praticante de colocar para fora todo esse eu aprisionado e fazer com que ele se sinta à vontade para simplesmente ser, independente do suporte em que o trabalho seja realizado. "O nosso foco não está no produto final da arte, no quadro pronto, embora ele seja uma parte importante. O foco está no processo criativo, em saber o que acontece com o indivíduo", explica a arte-terapeuta Cristiana Moura, que faz esse tipo de trabalho desde 2001, ministrando cursos para a formação de novos profissionais.

Segundo ela, quando expressamos a arte, estamos expressando a nós mesmos, e o mais interessante é que isso não ocorra apenas através do que vemos ou tocamos, mas também do que sentimos, somos e vivemos. A partir daí, essa criatividade, que inicialmente é dedicada à pintura, desenho, modelagem, dança, música, literatura, dentre outros, é trazida para o cotidiano, possibilitando ao indivíduo encontrar soluções e fazer experimentos.

Com a facilitação do processo criativo (exercido tanto na forma de elaboração de conteúdos pessoais quanto no próprio fazer artístico), a tendência é que o indivíduo o leve para o seu cotidiano. É nesse momento que a criatividade transforma a vida. "É um trabalho projetivo, pois eu me coloco ali em forma de emoções, sentimentos. Transformo esse algo abstrato em algo matérico e que está fora de mim. Eu posso me ver ali", informa a terapeuta

Lugar de liberdade

A casa ou o trabalho são lugares que ajudam na constituição do próprio eu e onde estabelecemos relações. Quando somos destituídos de nossa liberdade, como acontece nos presídios, perdemos essa identificação com o ambiente. Nada nos pertence e aquele ambiente torna-se um não-lugar.

Nesse contexto, a utilização da arteterapia pode, nem que por alguns instantes, romper essas barreiras e trazer de volta a sensação de liberdade. É o que a psicóloga Cristiana Moura pôde perceber durante o período de um ano e meio em que assistiu a um grupo de detentas do Presídio Auri Moura Costa.

"Ali não havia ´o espaço delas´, uma vez que tudo estava desconstruído. Em uma certa ocasião, uma delas se referiu à terapia como um ´lugar de liberdade´, pois sentia que, enquanto estava produzindo, tinha a sensação física de não existirem muros. Era um lugar de sonho, onde podia ser livre", relata Cristiana.

Como para elas os dias pareciam todos iguais, não havia a noção de tempo. Quando a arte chegou na vida dessas mulheres, de algum modo, isso foi quebrado. As quintas-feiras eram um dia diferente, onde podiam se aproximar de suas casas e famílias, nem que fosse por meio da imaginação.

Cuidar

"Gosto de dizer que a arteterapia é o cuidar do ser usando como ferramenta os vários tipos de arte"

Cristiana Fernandes Moura
Psicóloga e arteterapeuta

ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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