PESQUISA

Arroz fortificado contra a desnutrição

23:53 · 16.07.2011
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Organizações internacionais que trabalham no progresso da saúde e alimentação em mais de 70 países, desenvolveram uma tecnologia de enriquecimento do arroz com ferro, zinco e vitaminas do complexo B.
Organizações internacionais que trabalham no progresso da saúde e alimentação em mais de 70 países, desenvolveram uma tecnologia de enriquecimento do arroz com ferro, zinco e vitaminas do complexo B. ( )
Tecnologia Ultra Rice foi testada com sucesso na população infantil de Sobral

Versátil por natureza, o arroz compõe a Cesta Básica Brasileira, seja o tipo branco polido, parboilizado polido (25% do consumo) ou integral (consumo ainda é restrito devido ao custo elevado). Em função de sua aceitação no país, o arroz foi escolhido para ser o portador de micronutrientes essenciais ao organismo, tendo em vista o combate a doenças como a anemia e a desnutrição.

Pensando numa solução de baixo custo para esse problema, o Programa de Tecnologia Apropriada para a Saúde (PATH) e a Aliança Global pela Melhoria da Nutrição (GAIN), organizações internacionais que trabalham no progresso da saúde e alimentação em mais de 70 países, desenvolveram uma tecnologia de enriquecimento do arroz com ferro, zinco e vitaminas do complexo B.

Pesquisa

O alimento enriquecido foi testado no Brasil e na Índia. Uma das cidades escolhidas pela pesquisa foi Sobral, onde 180 crianças se alimentaram do arroz fortificado entre os meses de agosto e dezembro de 2010.

Os resultados da pesquisa foram apresentados no Iprede, no último dia 5, em workshop organizado pelo PATH. De acordo com Sergio Segall, coordenador da organização no Brazil, os resultados começaram a ser vistos na terceira semana da pesquisa, quando a proporção de crianças anêmicas caiu de 27% para 11%, ou seja, das cerca de 50 crianças com sinais de anemia que se alimentaram com o arroz fortificado, 30 conseguiram se recuperar da doença. Em virtude dos resultados da pesquisa, a Prefeitura de Sobral decidiu adotar o alimento fortificado na merenda escolar de toda a rede pública de ensino do município, o que corresponde a 40 mil crianças com até 10 anos de idade.

A próxima etapa da pesquisa será feita em Vespasiano (MG) e irá analisar os efeitos do arroz fortificado em meninas de 11 a 13 anos de idade, fase em que ocorre a puberdade e aumentam as necessidades nutricionais das adolescentes, afirma Mark Beinner, coordenador da pesquisa em Minas Gerais. Segundo Beinner, os estudos mostraram que o arroz fortificado é tão eficaz quanto os suplementos de ferro administrados a crianças. "A nossa intenção é que o Brasil seja o país modelo na implementação do arroz fortificado, para que essa tecnologia se espalhe por todo o mundo", garante.

Ultra Rice

A tecnologia de fabricação do arroz fortificado, chamada Ultra Rice, consiste na utilização da quirera do arroz, de baixo valor comercial. Depois de moída, são acrescentados gliconutrientes, sendo enfim moldados na forma dos grãos de arroz. Esses grãos são misturados ao arroz tradicional, representando de 2% a 3% do total consumido, suficiente para garantir a quantidade necessária das vitaminas e sais minerais, explica Segall.

Ele afirma ainda que a quantidade de nutrientes inseridos no arroz pode ser adaptada a partir das carências nutricionais da população beneficiada. "Se em determinado local há uma ocorrência maior de crianças com anemia, o arroz pode vir com uma carga maior de ferro, e assim por diante", diz.

O objetivo é expandir o arroz fortificado para o varejo, capacitando os moinhos a exercerem a fortificação. A ideia é oferecer o alimento a um preço similar ao do arroz branco tradicional, para que também seja acessível às classes de menor poder aquisitivo, principal objetivo da organização que detém a tecnologia.


OBJETIVO

"A intenção é que um milhão de pessoas no Brasil tenham acesso ao arroz fortificado em três anos"

Sergio Segall,
Coordenador da PATH no Brasil


Fique por dentro

Mais nutrientes

A fortificação de alimentos é uma estratégia estimulada pelo governo federal para suprir a carência de determinados nutrientes na população. O sal de cozinha, por exemplo, tem adição de iodo obrigatória desde 1956. A ausência do iodo no organismo pode causar o bócio, doença popularmente conhecida como ´papo´, que provoca um aumento da glândula tireóide, localizada na região do pescoço e pode gerar problemas de respiração. Além disso, a falta de iodo na gravidez pode ocasionar a má formação do feto e ainda levar ao aborto.

As farinhas de trigo e de milho também tem enriquecimento exigido pelo Ministério da Saúde desde 2004, numa tentativa de combater os altos índices de anemia e de doenças ocasionadas pela falta de ácido fólico e ferro na população brasileira.

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