Arritmias - Como conviver com as limitações - Viva - Diario do Nordeste

RITMO

Arritmias - Como conviver com as limitações

15.11.2008

Campanha “Coração na batida certa” conscientiza a população sobre os fatores de risco

O coração normal trabalha com a batida certa, isto é, seqüência de batidas com ritmo. Quando isso não acontece, temos as chamadas arritmias cardíacas, ou seja, em que o coração bate rápido (taquicardia), lento (bradicardia) ou apenas com certa irregularidade. Mais do que temer o diagnóstico, o importante é saber como prevenir tais ocorrências e saber que, na maioria dos casos, as arritmias podem ser tratadas, curadas ou amenizadas.

“Há situações em que podem ocorrer percepções de alterações leves do ritmo do coração sem maiores conseqüências. A segurança passada pelo profissional - após detalhada avaliação - trará mais conforto para os pacientes, que quando não pode curar-se completamente, poderão conviver de forma tranqüila com as mesmas. Muitas vezes o sintoma é o medo e não a arritmia”, diz o cardiologista Eduardo Arrais Rocha, especialista em arritmia e marcapasso pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular e diretor científico da SBC (Secção Ceará).

O que são arritmias cardíacas?

São alterações no ritmo normal, regular e silencioso do coração, podendo manifestar-se com aumento na frequência cardíaca (taquicardias), redução na freqüência (bradicardias) ou batimentos adicionais, isolados, fora do ritmo que são as extra-sístoles. Estas extra-sístoles representam as arritmias mais comuns e, na grande maioria dos casos, não representam riscos de vida. Podem ocorrer taquicardias ou bradicardias normais em respostas às atividades físicas diárias, porém costumam ser rítmicas, graduais, leves a moderadas, aumentar com o esforço ou emoção e atenuar-se com o repouso ou sono. Existem inúmeros tipos específicos de arritmias, podendo originar-se na parte superior do coração (átrios) ou inferior (ventrículos). Podem ser benignas (maioria) ou potencialmente graves. Manifestam-se por sintomas como palpitações, taquicardias, acelerações ou desmaios.

Quais são os fatores de risco que podem influir no desenvolvimento das arritmias cardíacas?

Hipertensão, diabetes, tabagismo, dislipidemia (colesterol elevado), obesidade, sedentarismo e estresse podem contribuir por aumentarem as chances de acometimento por doenças cardíacas. Fatores adicionais mais específicos são: uso de cafeína, bebidas alcoólicas, descongestionantes nasais, de aerosol com doses elevadas de broncodilatadores, de energéticos e estimulantes, anabolizantes, drogas ilícitas (cocaína, ecstasy, maconha), remédios para emagrecimento e antigripais. Em pacientes sensíveis, estas substâncias podem estimular focos de arritmias. Muitos pacientes têm uma arritmia cronicamente controlada que pode manifestar-se clinicamente com sintomas ou riscos após surgimento dos diversos fatores mencionados acima.

Até que ponto o portador de arritmia está propenso a sofrer morte súbita? Por que?

A morte súbita cardíaca pode ser a manifestação de uma doença cardíaca grave, muitas vezes desconhecida, ignorada ou silenciosa, que se expressa clinicamente através de uma grave arritmia (taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular). Atualmente, grande parte destas doenças são tratadas com sucesso com o uso de medicamentos, marcapassos, desfibriladores internos automáticos ou ablação (cauterização) dos focos das arritmias. Felizmente grande parte das arritmias cardíacas não são acompanhadas do risco de morte súbita, como por exemplo, o caso das arritmias supra-ventriculares (extra-sístoles supra-ventriculares, taquicardias supra-ventriculares ou fibrilação atrial).

Como explicar o fato da morte súbita acometer pacientes sadios? Há consenso quanto ao perfil do indivíduo que sofreu morte súbita?

Algumas pessoas, aparentemente sadias, são portadoras de doenças genéticas que podem se manifestar através de uma grave arritmia cardíaca, principalmente quando expostas a atividades físicas acentuadas. Elas representam 5% dos casos de morte súbita cardíaca. 80 % dos casos estão relacionados a doenças coronarianas (angina, infarto e rupturas ou erosões de placas coronarianas), enquanto 15 % são relacionadas com as miocardiopatias (Doença de Chagas, miocardiopatia dilatada). Na população abaixo de 35 anos, entretanto, predomina a incidência de doenças genéticas como hipertrofias do coração (miocardiopatia hipertrófica) ou outros tipos de síndromes arrítmicas.

Como é feito o diagnóstico?

Essas doenças são em grande parte de fácil diagnóstico por exames cardiológicos convencionais (eletrocardiograma, Holter 24 hs, teste ergométrico e ecocardiograma). Entretanto, muitos atletas (profissionais ou não), optam por não se submeterem à avaliações cardiológicas periódicas. Existem raras doenças que podem exigir uma complexa e detalhada investigação, com exames específicos para arritmias (estudo eletrofisiológico invasivo, que analisa todas as condições do sistema elétrico cardíaco.

Os casos de morte súbita envolvendo atletas - nos anos de 2003 e 2004 - alertaram a população para o problema. O que efetivamente tem sido feito para equipar os serviços de emergência?

Muita atenção foi dada para os atletas especificamente, entretanto sabemos que a chance maior de morte súbita ocorre com a população geral que está assistindo aos jogos em casa ou nos estádios, com elevado nível de ansiedade e emoção, as vezes modulada pela bebida alcoólica. Os cuidados para atingirmos o público em geral com medidas preventivas ainda precisa melhorar muito. A Sociedade Brasileira de Cardiologia tem procurado atuar em conjunto com as secretarias de saúde para aperfeiçoar as ações nesse sentido. Felizmente, o SAMU (192) já detém boa infra-estrutura para atendimento desses casos, algumas vezes prejudicado pelos trotes, pelo trânsito, a demora no acionamento ou pelos chamados para casos não urgentes.

E no caso dos equipamentos disponíveis nos locais públicos de maior circulação de pessoas?

Diversos locais, a exemplo dos estádios, já contam com desfibriladores externos automáticos (DEA), equipamento que pode representar a diferença entre uma ressuscitação efetiva e a morte. Entretanto, shoppings, academias, praças e outros ambientes com grande fluxo de pessoas deveriam adquirir os DEA. O treinamento de paramédicos e da população que trabalha nesses ambientes é fundamental, pois representa um aumento significativo nas chances de reanimação do paciente com sucesso.

É sabido que a morte súbita ocorre durante a primeira hora, entre o início dos sintomas até ser constatado o óbito. Fale-nos sobre a evolução desses sintomas.

Sintomas como fortes, rápidas, súbitas e prolongadas acelerações, palpitações no peito esquerdo, falta de ar acentuada, dores no peito esquerdo ou na região do esterno (centro do tórax), intensas, irradiadas para o braço esquerdo, pescoço ou mandíbula, assim como sensações de perda de consciência ou desmaios devem alertar para o indivíduo a procurar imediatamente um atendimento cardiológico. Caso o paciente já tenha histórico de cardiopatia, infartos prévios, coração crescido, diabetes mellitus e Doença de Chagas, o aparecimento desses sintomas poderá representar um risco de vida ainda mais elevado.

FIQUE POR DENTRO

Tratamentos asseguram qualidade de vida

Diversas arritmias simples (extra-sístoles) não requerem tratamento, mas cuidados com fatores desencadeantes. Com base nos sintomas, são indicadas drogas anti-arrítmicas (com critério devido efeitos colaterais). Algumas arritmias supra-ventriculares (originadas na parte de cima do coração) se manifestam por fortes e súbitas crises de acelerações no coração. Apesar de não oferecerem riscos de vida, podem acarretar desmaios, sudorese, fortes palpitações e queda na pressão, sendo curadas através do estudo eletrofisiológico invasivo, da ablação por radiofreqüência (aplicação de energia de baixa intensidade com cauterização dos focos em 80-95 % dos casos).

As arritmias ventriculares podem acarretar risco de vida, sendo tratadas com implantes de desfibriladores cardíacos internos automáticos (existem 160 casos no Ceará, com resultados muito bons). Este é o principal método de prevenção de morte súbita cardíaca em populações selecionadas.

Os marcapassos são implantados por pequenas incisões, com anestesia local e sedação leve, através de veias da região abaixo do ombro, com colocação de eletrodos no coração, visualizados através de imagens computadorizadas. Tal método pode curar diversas arritmias causadas por bradicardias graves (coração muito lento). Nos últimos cinco anos, foram criados marcapassos específicos para insuficiência cardíaca congestiva (coração grande e fraco) que podem restaurar a qualidade de vida dos pacientes. ´Em 120 pacientes que implantamos marcapassos multisítios ou biventriculares, observamos melhora em quase 80 % dos casos´, esclarece Dr. Eduardo Arrais Rocha.

QUALIDADE

"A segurança passada pelo médico trará mais conforto para os pacientes".
"Quando não pode curar-se completamente, poderão conviver de forma tranqüila com as limitações".
Dr. Eduardo Arrais Rocha
Cardiologista

ESTATÍSTICA

1970

foi o ano em que ocorreu o pico de mortalidade por doença cardiovascular no Brasil. De 1979 até os dias atuais, a incidência de mortalidade tem demonstrado queda progressiva.

GIOVANNA SAMPAIO
Editora

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