Entrevista com Caroline Sampaio

Amamentação influi no alinhamento dentário

02:58 · 06.08.2013
O ato de sugar é determinante sob vários aspectos. A forma de mastigar pode influir até no peso corporal

Como o fonoaudiólogo trabalha a questão da alimentação infantil?

O profissional pode atuar desde a gestação, orientando as futuras mamães quanto à importância do aleitamento materno exclusivo até o sexto mês. Após o nascimento podemos estar junto das mães e dos bebês que apresentam dificuldade na amamentação. Durante a primeira infância, vamos orientar sobre como pode acontecer a transição alimentar de forma mais adequada.

"O seio da mãe oferece a anatomia perfeita para acomodar a língua do bebê e auxiliar no alinhamento dentário harmônico", diz Caroline Sampaio, fonoaudióloga do Instituto AMO e do Hospital Dr. Waldemar de Alcântara FOTO: LUCAS DE MENEZES

O que a amamentação pode influenciar no hábito da mastigação?

O ato de sugar faz com que a criança trabalhe toda sua musculatura orofacial, favorecendo o crescimento ósseo da mandíbula e maxila. Apenas o seio da mãe oferece uma perfeita anatomia capaz de acomodar a língua do bebê, deixando-a numa postura adequada, auxiliando um alinhamento dentário mais harmônico. Outro fator que merece destaque é a respiração. O bebê é um respirador nasal e, com o ato da amamentação, ele aprende a coordenar respiração, sucção e deglutição, mantendo seus lábios sempre fechados. Todo esse conjunto vai auxiliar numa mastigação mais harmônica, pois quando não temos essa musculatura trabalhada, nossos dentes não estão bem alinhados e não respiramos bem. Com isso, nossa mastigação acaba sendo prejudicada.

Como deve ser realizada a fase de transição alimentar?

A partir do sexto mês de vida, a criança já tem condições de receber a alimentação complementar ao leite materno. Sua musculatura já está bem trabalhada, começam a surgir os primeiros sinais de dentição, e seu trato gastrointestinal está maduro para receber outros tipos de alimentos. Esse alimento não precisa ser passado em liquidificador, como muitas mães fazem. O ideal é que a comida seja amassada com o garfo para que a criança comece a experimentar outra consistência e treine os movimentos da mastigação. No início, é uma mastigação primitiva que vai aprimorando à medida que vamos alterando as consistências. Deve-se usar uma colher firme para dar estabilidade e a criança consiga ir aprendendo a retirar o alimento da colher. Aos poucos, a consistência da comida vai sendo cada vez mais sólida.

Quais as principais características de uma mastigação correta?

Passa por três fases: pressão do alimento (a mordida); a trituração das partículas grandes; e a pulverização (transformação dessas partículas em menores). Devemos evitar pular etapas. A mordida é realizada pelos dentes centrais (incisivos, enquanto a mastigação, pelos dentes posteriores (molares), devendo ser bilateral. É preciso criar condições para que a mastigação aconteça dos dois lados, fazendo essa troca no mesmo bolo alimentar. Não existe uma quantidade certa de mastigações, pois isso dependerá da consistência do alimento. Quanto mais sólido, mais é preciso mastigar. O importante é triturar bem, colocar pedaços pequenos na boca e mastigar o suficiente para que o bolo alimentar fique bem pastoso antes de engolir.

Há crianças que possuem aversão a determinados tipos de texturas. Como isso ocorre?

Normalmente, as crianças que apresentam dificuldades com consistências alimentares são aquelas que não fizeram uma transição alimentar de forma correta. Muitas vezes, ao iniciar a transição alimentar, as mães têm dificuldades, porque a criança, acostumada com a consistência líquida do leite materno, passa a receber alimentos mais pastosos e chegam até a vomitar, ter ânsia, tossir, cuspir. Com isso, os pais pensam que os pequenos não estão gostando do alimento ou podem engasgar e acabam desistindo. Inicialmente, a criança irá rejeitar o diferente até se acostumar. Com relação ao engasgo, as crianças que mamam o suficiente irão trabalhar bem a musculatura. Então, iniciando a introdução da alimentação complementar na idade correta, dificilmente ela apresentará engasgos.

Como é o procedimento para que haja uma mudança na alimentação?

Quando a criança tem dificuldade na aceitação de consistências mais sólidas e opta por líquidos ou restringe suas consistências, é indicado trabalhar a sensibilização da região intraoral para introduzir diferentes tipos de alimentos. Para tanto, é imprescindível a participação e cooperação dos pais, que são orientados para que sejam realizados estímulos diversos na criança.

Que tipos de alterações o fato de comer rápido ou engolir os alimentos sem mastigar podem causar?

Quando não se mastiga bem, não se trabalha a musculatura orofacial, o que pode gerar uma respiração oral. A arcada dentária poderá sofrer influências negativas em relação ao ato inadequado de mastigação. Pode haver um desalinhamento dentário (mordida cruzada ou disfunção de ATM). O trato gastrointestinal está sujeito a determinados problemas: a potencialização do refluxo gastroesofágico, gastrites e má digestão. O estômago não tem dentes, então, é preciso fazer esse trabalho por meio da boca, pois mastigando bem o alimento chega ao estômago da forma correta. A forma de mastigar pode influir até no peso corporal. Quando mastiga-se rápido, não há tempo suficiente para o cérebro produzir substâncias responsáveis pela saciedade, ou seja, sente-se fome antes do tempo e come-se mais.

Como evitar e tratar o mau hábito de uma mastigação inadequada?

A prevenção é o melhor remédio. Buscar ter tempo para as refeições, aprender a saborear os alimentos, mastigar devagar, passando o alimento para os dois lados. Nas pessoas que apresentam o mau hábito, é feito o treino da mastigação com alimentos e exercícios específicos para trabalhar a musculatura orofacial. O importante é buscar a ajuda de um profissional especialista.

A influência da mídia nos hábitos

Constantemente somos bombardeados por informações publicitárias via televisão, internet, marketing ou merchandising que ditam tendências, comportamentos, regras a serem seguidas, principalmente voltadas para os alimentos.

Nadine Filgueiras, psicóloga e pós-graduanda em Psicoterapia Psicanalítica Foto: Bruno Gomes

Segundo Hawkes (2006) a publicidade televisiva é talvez a mais usada na promoção de alimentos e bebidas. Evidências recentes mostram que o marketing afeta a escolha e influencia os hábitos.

Miotto et al. (2006) diz que os comerciais versam sobre produtos que, em sua maioria, contêm níveis não saudáveis de gordura, açucares e sal. Por entrelaçar necessidade, desejo e prazer, o alimento acaba por causar uma confusão no indivíduo. De acordo com Freitas (2009) a necessidade do alimento é de ordem fisiológica e nela cabe a escolha frente aos alimentos por estes serem, também, uma forma de prazer. Já o desejo é de ordem subjetiva.

Porém acabamos por misturar o que instiga o desejo, o marketing, e o que realmente se precisa e quer. A todo momento estamos em busca de sentidos para viver, sensações como a de completude, satisfação, felicidade, um ´algo a mais´. É porque desejamos ou nos falta algo que movimentamos nossas vidas.

Por essa lógica que o marketing tenta pegar carona dispondo os objetos de consumo, incluindo os alimentos, como possíveis realizadores dos desejos.

Se pararmos para escutar o que as propagandas vendem escutaremos algo a mais do que o objeto em si como a venda de felicidade, prazer, reconhecimento pelo outro, amor, poder, sentimento de pertença, inclusão social, satisfação, beleza, status, alegria.

Com o público infantil a lógica não é diferente, pois os produtos prometem força, inteligência, amizade, carinho, amor, etc.

De forma lúdica, as propagandas falam diretamente com a criança, persuadindo de maneira que elas não são capazes de identificar, garantindo um consumidor não apenas exigente e como também constante.

Outro fator que Freitas (2009) chama atenção é a proibição, na atualidade, de sentimentos como a angústia, a frustração e a tristeza, onde os produtos oferecidos prometem "cobrir" essas sensações e ainda que "só fica triste quem não pode ter algumas das oferendas".

Dessa forma, o marketing cria e dita necessidades e objetos em excesso, que, segundo Freitas (2009), substitui sensações, abafa emoções e ´garante´ a satisfação. Porém, nenhum desses objetos é capaz de saciar a demanda, mesmo sendo ela parcial, pois não é esse tipo de satisfação que buscamos.

De acordo com Kehl (2002), "as razões de mercado se consomem em si mesmas, produzem repetidamente seu próprio esgotamento cada vez que são satisfeitas - pois sua satisfação não remete a nada além da fruição presente do objeto, da mercadoria, do fetiche".

A autora coloca que os objetos oferecidos pelo mercado criam a ilusão de que o desejo pode ser satisfeito ao passo que o objeto do desejo é inexistente, cuja busca lança o sujeito numa incansável repetição.

Freitas (2009) aponta que "competir com a mídia é sempre complicado demais e ceder virou quase um sinônimo de amor" ainda complementa ao afirmar que "oferecer materialmente o que a tv sugere como desejo é a luta diária de cada pai e mãe que se desdobram nos pagamentos".

Cabe a nós uma reflexão sobre qual lugar a alimentação ocupa em nossas vidas desde que nascemos. Ele é fonte de energia e um combustível para as crianças crescerem? Ou existe um ´algo a mais´ envolvido? Porque as mães se angustiam tanto quando seus filhos negam o alimento? Essa demanda é porque o médico e as revistas de saúde ordenam ou há outros motivos implicados? O que buscamos quando nos alimentamos? Satisfação de uma necessidade? Um grande prazer imprimido desde a mais terna infância? Que busca é essa?

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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