NUTRIÇÃO

Aleitamento reduz em até 25% risco do distúrbio

01:51 · 20.02.2011
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Excesso de proteínas do leite de vaca sobrecarrega os rins ainda imaturos dos bebês

O fenômeno conhecido como "programming", que se baseia na premissa de que fatos vividos e alimentos ingeridos ainda na barriga da mãe e nas primeiras semanas de vida ficam expressas no organismo de maneira irreversível e se projetam por toda a vida é relatado pela dra. Christiane Leite, professora adjunta da UFC, Mestre e Doutora em Pediatria pela USP.

Até onde a amamentação ajuda na prevenção da obesidade?

O leite materno é um alimento dinâmico e apresenta modificações em sua composição ao longo da lactação, propiciando que se ajuste às necessidades da criança. Outro fator de proteção é a autorregulação, da quantidade de leite ingerida pelo bebê, que possibilita a modulação do apetite e influencia no mecanismo de saciedade.

Há também mudanças no sabor que podem variar de acordo com a alimentação materna e que estimulam o aprimoramento de experiências sensoriais, o que provavelmente contribuirá para maior variabilidade de aceitação alimentar futura. Os hormônios envolvidos na regulação do apetite, do gasto energético, e no próprio metabolismo celular estão presentes no leite materno.

Há evidência de que o conteúdo proteico do leite materno (quantitativamente e qualitativamente perfeito), em comparação às fórmulas infantis, acarreta uma redução do risco de obesidade, visto que o consumo excessivo de proteínas na fase de lactente está ligado ao aparecimento de alterações endócrinas que condicionariam à obesidade.

Esses achados foram demonstrados em estudos que relataram valores significantemente mais elevados do IMC (aferido no 2º ano de vida) no grupo de crianças que recebeu fórmulas infantis com maior conteúdo proteico, comparado a de crianças amamentadas e as que usaram fórmulas com menor teor proteico.

Além dos benefícios nutricionais, imunológicos e endócrinos, qual a influência benéfica do aleitamento no comportamento?

A nutrição tem grande relevância, pois além dos problemas alimentares e nutricionais, têm se observado também alterações no campo emocional advindas do tipo de alimentação e da maneira de nutrir. Os aspectos emocionais, que começam a se desenhar desde a gestação, sofrem grande influência do vínculo mãe-filho, que tem no ato de amamentar um de seus cenários mais ricos. A comunicação entre mãe e filho passa a ser uma troca.

Enquanto ela o amamenta, cuida e aconchega, o bebê vocaliza, sorri e faz mímica expressando seus desejos. Está estabelecido o diálogo. A amamentação torna-se, além dos benefícios nutricionais, o catalisador do desenvolvimento de interação e vínculo sadio. Os aspectos emocionais podem ser determinantes para a manutenção e no desencadeamento de distúrbios alimentares.

Estudos mostram que a nutrição e o crescimento na vida intrauterina e no 1º ano de vida podem influir no desenvolvimento de doenças na vida adulta.

O foco das pesquisas direciona-se hoje para o conhecimento dos efeitos em longo prazo da relação entre a nutrição em fases precoces da vida e o desenvolvimento futuro de doenças crônicas não-transmissíveis. No entanto, apesar das várias evidências que alicerçam esses conceitos, a verdadeira importância da nutrição nesse sentido, nos primeiros anos de vida, ainda não é reconhecida nem mesmo pelos profissionais de saúde.

Isso dificulta a instalação de políticas públicas que propiciem a boa nutrição nessa faixa etária, visando à prevenção dessas doenças. A nutrição adequada durante a gestação é fundamental para o crescimento fetal e a prevenção de doenças.

Nesse período, excessos ou restrições alimentares podem culminar com o baixo peso ao nascer, o que representa em si um fator de risco para o desenvolvimento de obesidade futura. O monitoramento do peso da gestante, a orientação nutricional e o incentivo à atividade física são essenciais. Infelizmente, esses objetivos são difíceis de alcançar se o acompanhamento pré-natal não engloba esses conceitos.

Fale-nos sobre o fenômeno descrito como "Programming" que se baseia na premissa de que fatos vividos e alimentos ingeridos ainda dentro da barriga da mãe ficam expressos no organismo de forma definitiva.

A indução, deleção ou prejuízo do desenvolvimento de uma estrutura somática permanente, assim como o ajuste de um sistema fisiológico, em face de um estímulo ou agressão, em fases precoces da vida exerceriam consequências de longo prazo para a função desses sistemas. Esse conceito nomeou o termo "programming" baseado na teoria da origem desenvolvimentista da doença e da saúde.

A compreensão de como essa "memória" fica impressa é fundamental. Há duas hipóteses para explicar esse fenômeno. Uma delas é o papel das mudanças epigenéticas que persistem ao longo da vida. As condições do ambiente são determinantes para a história genética dos indivíduos, mesmo ainda dentro do útero materno.

Essa hipótese está apoiada em estudos do material genético de humanos, os quais sofreram "fome" no período pré-natal, submetidos ao embargo de comida imposto pelos alemães (Holanda, final da 2ª Guerra Mundial), tendo sido constatado alteração no DNA do gene da IGF-2.

Esse processo é chamado de alteração epigenética e é diferente da mutação tradicional. Ou seja, o ambiente exerce um poder muito grande sobre os nossos genes. Outra hipótese sugere que a aceleração precoce do crescimento afeta permanentemente o eixo hormonal que regula o peso corporal, interferindo na ingestão alimentar, no metabolismo energético e na deposição de gordura.

Significa que a ingestão alimentar aumentada no pós-natal pode alterar o perfil hormonal que regula a saciedade, predispondo à obesidade na vida adulta. Deve-se atentar principalmente para o conteúdo proteico tendo em vista que, à luz do conhecimento atual, as necessidades de proteínas (no 1º ano de vida), são menores do que se preconizava.

Quais as consequências que resultam do desmame precoce?

A diminuição da proteção contra doenças infecciosas, em especial as diarreicas e as respiratórias, o que acarretaria um maior risco de desenvolvimento de doenças relacionadas ao sistema imunológico (asma, diabetes e doenças inflamatórias intestinais); prejuízo da função cognitiva, provavelmente relacionado à relação ótima entre ômega-3 e ômega-6 e o conteúdo de ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa (LC-PUFAs) e DHA presentes no leite humano; risco de obesidade e de doenças crônicas não-transmissíveis (cardíacas e diabetes).

O que pode ocorrer ao organismo quando se ingere leite de vaca integral ainda no 1º ano?

Em nosso meio, em razão de fatores econômicos, aspectos culturais e práticas populares, é comum que o leite usado no 1º ano de vida seja o de vaca integral, ou seja, não-modificado. Muitas vezes, desde os primeiros meses de vida, é adicionado de açúcar e cereais, o que pode levar, em alguns casos à substituição quase total de uma dieta variada pelo leite adoçado acrescido de cereal (mingau).

Essa composição pode ocasionar um ganho de peso até superior ao esperado, no entanto, o lactente apresentará deficiência de micronutrientes (fome oculta). Provavelmente, a dieta com baixa biodisponibilidade de ferro (característica do leite de vaca integral- LVI) é a variável que explica a elevada prevalência de anemia encontrada em lactentes não amamentados.

O LVI apresenta baixos teores de vitamina C (fator que estimula a absorção de ferro). Apresenta desproporção da relação cálcio/fósforo, o que determina menor incorporação do cálcio e prejuízo da absorção do ferro. Soma-se a isto, o fato de que os lactentes alimentados com LVI apresentam uma perda intestinal de ferro, cerca de 30% maior que os que recebem leite materno ou fórmulas infantis, mesmo após os seis meses de idade. O ferro, fundamental para a manutenção da qualidade e da quantidade de hemácias, é vital para o desenvolvimento neuropsicomotor e intelectual e a imunidade.

Os elevados teores de sódio, potássio, cloretos e proteínas do LVI determinam sobrecarga de solutos renais. Esse dado implica num maior risco de distúrbios hidroeletrolíticos e desidratação, quando expostos a situações que predispõem (diarreia, vômitos, altas temperaturas) e se deve, provavelmente, à limitada capacidade de concentração urinária dos lactentes menores de um ano.

O LVI tem quantidades inadequadas de vitaminas e ácidos graxos essenciais (principalmente ácido linoléico) prejudicando o crescimento e desenvolvimento do lactente, além de dificultar a maturação do Sistema Nervoso Central.

Quanto as necessidades proteicas, o LVI tem um porcentual maior de caseína em relação às proteínas do soro (também acarreta sobrecarga proteica nos três primeiros meses de vida); é responsável por uma menor digestibilidade. Além dos prejuízos para a função renal, essa sobrecarga de proteína é um dos fatores para o risco de obesidade, diabetes e outras doenças crônicas não-transmissíveis.

Relação

"Os aspectos emocionados desenhados desde a gestação sofrem influência direta do vínculo mãe-filho"

Dra. Christiene Leite
Mestre e Doutora em Pediatria pela USP

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