PREVENÇÃO

Adolescentes conscientes

01:51 · 20.02.2011
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Neste carnaval, os jovens integram um dos públicos alvo da atenção à saúde contra as DSTs/AIDS

A marchinha de carnaval de autoria de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, ainda hoje ecoa fundo como emblema do período momino, para a prevenção das DST´s, incluindo a Aids. "Bota camisinha/ bota, meu amor/que hoje tá chovendo/não vai fazer calor/Bota a camisinha no pescoço/bota geral/Não quero ver ninguém sem camisinha/prá não se machucar/neste Carvanal".

O período carnavalesco, para muitas pessoas é um momento de festa e folia. Mas também, como na marchinha, deve rimar com consciência e responsabilidade. Sobretudo, entre um grupo mais jovem, no qual as doenças sexualmente transmissíveis estão se disseminando, por ignorância e conduta alheia quanto aos perigos que o cerca, perigos que repercutem severamente sobre a saúde, comprometendo o desenrolar da própria vida.

A displicência foi justamente a que conduziu o jovem, José Maria (nome fictício) a um comportamento, desde bem cedo, com 12 anos, a festinhas regadas a muito álcool, de vez em quando uso de alguma droga por curiosidade e estímulo dos amigos, aliado à prática de sexo sem preservativo.

A alienação de muito tempo teve um resultado sério, que afetou sua saúde: foi acometido aos 22 anos (hoje está com 26) por tuberculose no intestino. O teste do HIV resultou positivo e a mudança de vida obrigatória. José agora está bem, mas nem sempre foi assim, como acontece com adultos jovens como ele, na faixa de 20 a 29 anos, a qual hoje é a mais vulnerável às DST´s e, sobretudo, à Aids.

Rebeldia

Se esse público mais susceptível à contaminações pelo comportamento rebelde - resultado da inconsciência quanto aos cuidados consigo e daqueles com quem se relaciona - continua sem querer olhar para as causas dos problemas que estão criando, os ainda mais jovens - os adolescentes - começam a ser esclarecidos cedo, a fim de se protegerem de futuros contágios.

A autoestima é um aspecto relevante e um dos primeiros tópicos trabalhados nas oficinas que ministra a jovens mais vulneráveis, em decorrência a uma sexualidade precoce, afirma a filósofa e educadora social, Kitah Soares, da Organização Não Governamental Propares. A ONG atua na área da saúde e direitos humanos de crianças e adolescentes de risco.

"Explicamos a eles que a autoestima é o valor pessoal, o amor próprio e a autoconfiança, essenciais na hora de negociar o sexo seguro, com uso da camisinha. Quem não se ama o suficiente acaba estando mais vulnerável em muitos momentos, com tendência a ser negligente consigo e com os outros, atraindo diferentes situações de risco", diz.

Conforme o médico infectologista, professor de Medicina do Centro de Ciências da Saúde da Universidade de Fortaleza (Unifor), Keny Colares, os adolescentes e adultos jovens constituem grupos que preocupam muito na atualidade em relação à contaminação pelas DST´s e, sobretudo, à Aids. Em relação a contaminação pelo HIV, este s grupos parecem acreditar que a doença não assusta mais, dispensando os cuidados preventivos.

Sexualidade, prevenção e autoestima, salienta Soares, andam de mãos dadas. E, quando o jovem sabe de seu valor pessoal, "ama a própria vida, se cuida e, na hora do sexo, usa camisinha".

Situações de risco

O HIV pode ser transmitido por relações sexuais desprotegidas (sem o uso do preservativo), anais, vaginais e orais; pelo compartilhamento de agulhas e seringas contaminadas; de mãe para filho, durante a gestação, o parto e a amamentação e, por transfusão de sangue. Não é transmitido pelo beijo, toque, abraço, aperto de mão, compartilhamento de toalhas, talheres, pratos, suor ou lágrimas.

Os integrantes da Propares - Protagonismo Juvenil e Educação Entre Pares (que completa este mês sete anos de atuação) empregam uma metodologia voltada para a educação entre pares, envolvendo diretamente os adolescentes, jovens, familiares e cuidadores.

De acordo com o coordenador geral da ONG, José Valter Santos, até o final de 2009 seus educadores sociais estiveram aplicando em Fortaleza e demais municípios cearenses projeto denominado Espaço Jovem, o qual orienta os jovens a uma atitude de protagonismo, assumindo sua liderança e, em seguida, formando núcleos para disseminar a saúde e a prevenção.

Este projeto foi finalizado em três municípios da costa Leste (Aquiraz, Eusébio e Pindoretama) e prossegue agora em12 bairros de periferia de Fortaleza, em parceria com o Banco do Nordeste. Ao todo, os educadores sociais ministram dez oficinas, com dez temáticas que respeitam esta fase da vida, explica Valter Santos, que é mestre em Políticas Públicas e também atua como coordenador de Atenção Básica à Saúde na Escola de Saúde Pública do Ceará. Com esse trabalho, o olhar dos jovens acaba se voltando para sua própria comunidade, estimulando uma ação coletiva que sempre resulta em benefícios para ele e os demais moradores.

A faixa etária dos adolescentes acompanhados pelo Propares é de 13 a 18 anos. Santos diz ser necessário flexibilização maior, em decorrência de os adolescentes nordestinos iniciarem suas atividades sexuais dois anos mais cedo do que os jovens do sul do País (14 e 15 anos).

A iniciação da vida sexual entre 11 e 12 anos já é um risco, pois não deixaram ainda a infância e, mesmo, sem o seu corpo estar pronto para isso, comenta. Essas condições os colocam em vulnerabilidade, gerando-lhes outros problemas: abrie não só para o contágio pelas DST´s e Aids, mas também para uma gravidez precoce, com um bebê de risco.

Riksberg Cabral, enfermeiro e coordenador da Atenção Básica de Saúdo município de Maracanaú e, nos finais de semana também educador pela Propares, viu a importância de fazer uma campanha específica para o Carnaval, esclarecendo os jovens quanto à importância da prevenção nos dias de folia.

Revela que a iniciação sexual precoce exige dos jovens uma série de informações que os ajudará a viver essa realidade de forma bem distinta, seja conscientizando-se dos mecanismos de prevenção, seja também no aconselhamento para realizarem ainda cedo o exame que detecta a presença do HIV a todos os que admitem ter passado por uma situação de risco.

Cerca de 50% dos jovens já tiveram relações sexuais aos 17 anos e apenas metade desses jovens relata uso de preservativo na última relação. O não uso da proteção costuma estar relacionado ao abuso de álcool e outras drogas, os quais favorecem a prática do sexo inseguro. O mito do "namoro firme" coloca o uso da proteção como desconfiança em relação à fidelidade do casal, além da paixão oferecer uma falsa ilusão de não haver perigo de contágio.

Também gerente municipal do programa DST´s/Aids de Maracanaú, na equipe do Programa de Saúde da Família, Riksberg, diz que a campanha criada para o Carnaval conta com a parceria de outras ONGs.

A programação inclui movimentos nas ruas com brincadeiras, e distribuição de material educativo no sentido de mobilizar as mulheres e adolescentes para um bom diálogo entre pares, proteção e realização de exames nas unidades de saúde colocadas à disposição da população.

Fique por dentro
Garotas precoces

As adolescentes hoje, com início da vida sexual bem precoce (entre 11 e 12 anos) correm muitos mais riscos. Alguns fatores biológicos contribuem para o aumento da infecção entre esse público. Os especialistas esclarecem que na pré-adolescência, as garotas possuem células imaturas na cavidade vaginal e no colo do útero, que não impedem a infecção, como nas mulheres adultas.

Há o fato, ainda, que os homens possuem uma grande capacidade de transmitirem doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), o que, por sua vez, facilita a infecção pelo HIV.

Por fim, as mulheres possuem um grande número de DSTs assintomáticas, o que faz com que grande parte dessas infecções não sejam tratadas e, dessa maneira, aumentam as chances de contrair também o HIV.

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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