RITMO

A vida flui em tempo real

20:59 · 10.02.2011
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Os ritmos da vida foram deliberadamente alterados pelo homem. Nos últimos dois séculos, os cientistas passaram a dominar tantas técnicas, com base nos conhecimentos adquiridos, ao ponto de tornarem mais simples a criação de um mundo controlável com sua inteligência, fascinada pela velocidade e pela instantaneidade.

A mediação humana frente a este mundo aparente e artificial, foi idealizada sobre engrenagens que funcionam com protótipos fundamentados no paradigma dos seres/máquinas e crescimento contínuo. Em tal modelo, qualquer peça dessa engrenagem não pode parar, sob risco de ser imediatamente substituída.

Parar, para quê?

Aliás, parar nesse grande contexto significa romper a imagem perfeita de funcionamento de todo sistema bem arquitetado, tal qual as peças de um dominó postas em fileira, quando uma delas é ligeiramente movida, derrubando todas as demais.

A sedução do controle do tempo continua sendo o mote atrator do grande ilusionismo coletivo, uma vez que já se conseguiu superar as barreiras do som, com sonhos muito próximos de se teletransportar e até ultrapassar à velocidade da luz!

Qual é o significado de parar diante de todo esse movimento frenético e desenfreado? Algumas pessoas andam respondendo a essa pergunta, meio que no solavanco de certas circunstâncias da vida. Normalmente, as perdas (da saúde, de um ente querido, do trabalho, de uma condição social, entre outros) têm se revelado verdadeiros divisores de água para alguns.

A doença, por exemplo, pegou em cheio certos grandes homens e mulheres de negócios e os fez parar. No entanto, o alto executivo José Mendes (nome fictício) sentia-se inatingível. Até que, com a morte do pai, se viu obrigado a olhar para sua vida: agenda sempre cheia de compromissos com a empresa, viagens e trabalho quase ininterrupto, com pouco tempo para dedicar à família e a si mesmo. O sentimento de culpa pesava muito.

Há quatro anos atrás, conta que percebeu que estava muito doente quando assistiu o filme "Click", protagonizado pelo ator Adam Sandler. Este interpreta um workaholic que descobre um controle remoto universal, o qual não só pode controlar com um click os aparelhos eletrônicos, mas também a própria vida. O aparelho é capaz de acelerar situações aborrecidas e repetitivas.

E, ainda, saltar para adiante no tempo, suprimindo aquelas (como as dores e a doenças)que não são agradáveis. Aliás, mesmo momentos de prazer ao lado da mulher, filhos também começaram a ficar fora do contexto real. "Parecia que estava vendo minha vida projetada na tela", diz Mendes. O mesmo se sucedeu quando sofreu um enfarte. Após a cirurgia do coração, ainda no hospital, teve tempo para repassar o filme de sua vida.

Decisão deliberada

Menos dramática, porque partiu a princípio de um consenso com a família e de uma decisão deliberada, foi a transformação que ocorreu na vida da pedagoga e proprietária de uma empresa de consultoria, Rosely Cubo.

Próxima de completar 50 anos, trabalhando quase 24 horas por dia, sua guinada aconteceu assim que decidiu fazer o mestrado em Psicologia pela Unifor. Um ano e meio depois, já com sua dissertação concluída, despertou para muitas coisas. A parada para os estudos e a pesquisa com profissionais sobre o ócio a levaram a uma profunda reflexão e a construir uma ponte, a p artir do reconhecimento do que ela era e do sentido que estava tendo em seu mundo.

O apoio do marido, lembra, e dos filhos adolescentes foi fundamental para se aventurar a cruzar o continente e fazer o doutorado na Espanha, no Instituto de Estudos do Ócio e Desenvolvimento Humano, pela Universidade de Deusto.

Dois anos longe de casa, da família e de suas construções a levaram a um verdadeiro encontro consigo mesma. "Acabei passando por um processo de consciência e educação, para não mais ter de falar da boca para fora. Minha pesquisa girou em torno das mulheres nordestinas que estavam morando, por circunstâncias distintas da minha (foram convocadas por seus maridos), na Espanha", relata.

Mesmo estando em situação oposta de suas entrevistadas, diz, os sentimentos que povoavam seu o interior e os delas eram muito similares, como estrangeiras, com percepção da realidade a partir dessas lentes.

A experiência interior de conseguir parar e viver o ócio costuma ser bem parecida para as pessoas em áreas totalmente distintas. Conforme o jornalista, mestre e Psicologia e também doutorando em Ócio por Deusto, Henrique Pereira Rocha, a construção do próprio tempo pode ser realizada de maneira diferente.

Em sua pesquisa de mestrado, tomou o universo jovens de periferia que buscam na cultura uma forma de inclusão social sem ser pela atividade profissional. Entende que o ócio não precisa vir por imposição dos percalços da vida ou exigências do coletivo, mas como educação para o desfrute da vida e de uma construção do próprio tempo livre.

Pesquisadores
O ócio na ciência

"Olhar a chuva pode ter novo sentido e significado, principalmente, para quem não vivencia a chuva no cotidiano"

Rosely Cubo
Pedagoga e doutoranda em Estudos do Ócio

"Quando os adolescentes desfrutam das manifestações culturais podem vir a ser os criadores de seu próprio tempo livre"

Henrique Rocha
Jornalista e doutorando em Estudos do Ócio

"O trabalho dos pescadores, como artífices, rompem com o tempo estabelecido nesta sociedade apressada"

Fabiana Lira
Psicóloga e mestre em Psicologia

"Na área do turismo e do lazer, parar é se permitir vivenciar experiências diversas, como por exemplo em uma viagem"

Débora Garcia
Turismóloga e mestre em Psicologia

"Mesmo em trabalhos de intensa produtividade, é possível rupturas como gargalhar, cantar ou´ assoviar com os companheiros"

Camile Gouveia
Psicóloga e mestre em Psicologia

Fique por dentro
Ócio é tempo de descanso, paz e criatividade

Na Grécia Antiga, koimetériun era o local onde se encaminhavam as pessoas para o devido repouso e reflexão. Era apropriado para a recuperação da saúde física, mental e emocional desses pacientes. Este conceito transitou em várias religiões, as quais entendiam a morte apenas como um sono mais prolongado, tal qual a expressão latina "resquiescat in pace", ou "descanse em paz".

Tudo isso deu origem à palavra cemitério, nominando o lugar onde se enterram os mortos. Daí o conceito temeroso do ócio como inatividade, inércia e morte.

A experiência do ócio, segundo a turismóloga, mestre em Psicologia e estudiosa do Ócio, Débora Garcia, hoje começa a ser resignificada, observada também como uma parada que torna possível estimular a criatividade. Nos momentos de pausa, é possível se conquistar novos conhecimentos, por meio da reflexão interior.

A psicóloga Camile Gouveia, outra que concluiu mestrado em sua área estudando o ócio, complementa que a inação parece, à primeira vista, falta de movimento e atividade. Quando, na realidade, é permitir-se entrar no fluxo da vida. "Nestes momentos de parada, despertamos uma consciência sobre o que procuramos corresponder em termos de anseios externos e o que verdadeiramente nos apraz e nos traz engrandecimento", o que parece seguir no contra-fluxo da produtividade.

A opinião do especialista

Devagar, devagarinho!

Lento, lerdo, preguiçoso. Esses são apenas alguns juízos de valor utilizados quando queremos nos referir aquelas pessoas que realizam atividades num tempo diferente do que nossa sociedade acostumou-se a considerar normal: a pressa. Estas palavras vêm carregadas de um simbolismo extremamente negativo, mas no correr dos dias nem paramos para observar. Não temos tempo para essas coisas!

Estamos quase sempre como o coelho de Alice no País das Maravilhas: atrasados. É mais bem aceito socialmente aquele que tem sempre mil projetos para fazer, planos a realizar, trabalhos por terminar. Tantas funções e afazeres reunidos numa só pessoa agregam valor positivo, associados a ideias como sucesso, empreendedorismo, profissionalismo, competência.

Corremos muito e sempre, sem parar para pensar realmente onde queremos chegar. Alguns podem justificar essa pressa com a necessidade financeira que urge e, portanto, não há tempo a se perder. A máxima: "tempo é dinheiro" está fincada no imaginário popular e ainda que muitas vezes não estejamos de acordo com ela, somos levados a funcionar dentro deste modelo.

A urgência em que a sociedade ocidental está imersa atualmente é sintoma de um problema ainda maior: nossa cultura dissemina a ideia que devemos ter medo em perder tempo. Assim, seguimos fugindo de nossos pensamentos e de questões importantes, ocupando o tempo com distrações (o vício à T V e às novas tecnologias de comunicação são apenas alguns exemplos ) e atividades que não sugiram um mergulho para o interior de nossos pensamentos.

Para as filosofias orientais, como a hindu ou a budista, o tempo parece estar bem mais conectado ao ritmo da natureza. Para estas culturas, a ideia que persiste é que o tempo é cíclico e se renova sempre ao contrário do que acontece no Ocidente, que propaga a ideia do tempo como algo finito.

Em 1986, inconformado com a abertura de uma loja de fast-food no centro histórico de Roma, o jornalista Carlo Petrini resolveu dar início ao movimento Slow Food, numa postura de clara oposição à americanização da Europa. A reboque do Slow Food, surgiram uma série de outras aplicações a esta ideia de desacelerar o passo, de destinar tempo e atenção para saborear a comida, estar com quem se gosta, educar os filhos sem tirania de horários e excessivas atividades, de ter tempo para si ou simplesmente para poder não fazer nada.

É notável a influência da filosofia slow na Europa. A propagação das ideias contidas neste movimento são lentas, mas transformadoras. É neste continente que vemos uma grande concentração de Slows cities, cidades que concentram suas atividades ao redor de praças, que priorizam espaços verdes, onde se fomenta o trabalho artesanal e a produção de alimentos orgânicos.

Os adeptos desta filosofia já entenderam o que afirma Carl Honoré, jornalista autor do livro "Devagar": " viver com pressa não é viver, mas sobreviver". O autor questiona o culto a velocidade que vivemos no presente e propõe uma reflexão sobre a que destinamos o nosso tempo. Ao contrário do que possa parecer a princípio, ele não defende que as pessoas devam desacelerar sempre, mas que devem ter o direito de determinar o seu próprio tempo. Honoré sugere que devemos reduzir o passo e encontrar um tempo justo para cada afazer, pois assim conseguiríamos equilibrar produtividade e qualidade de vida.

Um dos interessantes desdobramentos do Movimento Slow é o chamado "Downshifiting" ou "Simplicidade Voluntária", grupos de pessoas que vão na contramão do que dita a expressão "quanto mais melhor", no que se refere ao consumo. Motivados por diversas razões, sejam elas espirituais, ecológicas, relacionadas à qualidade de vida ou por motivos sociais, cada vez mais pessoas resolvem diminuir suas necessidades de consumo e, portanto, também reduzem a necessidade de vender seu tempo por dinheiro.

Os adeptos da "simplicidade voluntária" pretendem viver mais com menos e dar mais tempo e atenção ao que realmente julgam ser importante nas suas vidas. Sabemos que diminuir o consumo é uma atitude de confrontação diante de um sistema que a todo momento nos oferece estímulos através da publicidade e, portanto, pode não ser atividade fácil mas vem coberta de ganhos realmente compensadores.

Ana Carolina Coelho
Doutoranda em Artes Visuais, Universidade de Salamanca, Espanha

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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