Recuperação

A resiliência é obtida pela própria história

00:00 · 09.12.2013
Semelhante aos animais dos experimentos em laboratório, o processo de desenvolvimento do ser humano é construído da mesma maneira de acordo com o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik. As mudanças geradas na criança não é culpa da mãe, mas sim dos estímulos que ela recebe. O contexto que trará a infelicidade, o estresse ou qualquer outro sentimento negativo à mãe que, consequentemente, afetará o bebê. Por isso, se uma pessoa está muito infeliz, é preciso buscar a causa na própria história, no passado da família, da sua mãe e das gerações.

Para o estudioso da resiliência, neurologista e psiquiatra francês e da Universidade de Tulon, Boris Cyrulnik, a construção da resiliência é um processo totalmente influenciado pela relação do indivíduo com o outro Foto: Natinho Rodrigues


"Mesmo quando estamos velhos, o melhor tranquilizante é o colo da nossa mãe. Uma criança sozinha chora porque tem medo do mundo, mas quando está no colo da mãe ou simplesmente ouve e reconhece sua voz, ou o cheiro no paninho de dormir lembra o aroma da mãe, o bebê cria uma base de segurança e um bom desenvolvimento. Quando a mãe morre, está doente ou infeliz por causa do marido, da família ou da sociedade, o bebê não cria essa base, resultando uma mudança neurológica e emocional", diz.

A psicóloga Sandra Cabral acrescenta que se as primeiras interações da criança até os cinco ou seis anos forem bem feitas, fazendo-a se sentir bem acolhida no mundo, gerará uma rede de segurança que, mais tarde, tornará mais fácil a ela enfrentar as diversidade da vida.

Nos casos em que não há esse processo na infância, é importante adquirir as redes de apoio na adolescência e na fase adulta também. "As políticas públicas por meio de projetos que trabalham com cultura, esporte e terapia comunitária integrativa (este último criado pelo Dr. Adalberto Barreto) são instrumentos relevantes para a retomada nesse processo, pois oferecem condições da pessoa reconstruir e conseguir enfrentar dificuldades", sublinha Sandra.

Boris destaca a atuação da terapia comunitária: "Está muito claro. Um homem sozinho não consegue viver. Quando estamos sozinhos, a vida perde o sentido. Devemos viver com o outro, juntos. Às vezes, o outro também é alterado com o que me altera. A estrutura do outro é o que me estrutura".

A comunicação

A família pode construir esse espaço de acolhimento para que se "cultive" a resiliência. Pais seguros e tranquilos passam isso aos seus filhos, já os estressados apenas os apavoram. Para ambos os estudiosos, o bom desenvolvimento existe com os tutores de resiliência, pessoas que são referência àquele indivíduo.

A fala tem total relação com a desenvolvimento afetivo de uma criança. Segundo Boris Cyrulnik, a criança aprende a apontar o dedo entre 11 e 13 meses quando percebe que, por meio desse ato, manipula e controla o mundo mental da mãe. Ela diz o que quer de maneira bem mais específica. "Apontar o dedo é um dos primeiros gestos de comunicação do bebê. Uma criança que com 12 meses aponta o dedo às coisas, significa que irá falar".

O médico conta que foi feito uma pesquisa na França com bebês de 14 meses para saber se respondiam o olhar de outra pessoa; se brincavam de esconder; e se apontavam o dedo para se comunicar. Tiveram cinco mil retornos e 44 dessas crianças não respondiam nenhum dos estímulos. Dessas, 30 tinham passado por um forte sofrimento.

Os familiares foram sensibilizados e orientados para cuidarem melhor da criança e após um mês 100% recuperaram o desenvolvimento. Aspecto que comprova a plasticidade do desenvolvimento e o fato de que modificando o contexto, é possível alterar o comportamento da criança. Entretanto, 14 não tiveram progresso e 2 anos depois foram diagnosticadas com autismo. "Essas 14 crianças foram aquelas que, não se sabe o porquê, não foram sensíveis às mudanças no contexto e não tiveram mudanças", declara.

A cultura

É na palavra que se firma o desenvolvimento afetivo da criança. As narrativas são importantes porque estruturam o contexto e as emoções, muitas vezes, construídas pelas palavras que envolvem o indivíduo. "Prova disso é que na China tinham oito filhos por família antes da reforma e, devido a elevada taxa de mortalidade infantil, o governo estabeleceu que cada mãe só poderia ter uma criança. O nicho sensorial da criança chinesa mudou totalmente. O pai trabalhava 12 a 15 horas por dia e a mãe ficava devotada ao bebê. Em poucos anos as crianças se tornaram obesas e agressivas. Suas vidas se resumiam à televisão, à mãe e à escola".

Boris frisa que é o nicho afetivo em torno da criança que fortifica seu coração e sua mente para a vida inteira. Por isso, pensar resiliência requer pensar relações com o outro. "Se uma criança ouve que é um ser inferior terá uma imagem ruim de si. Mas se é estimulada a conversar com os pais e a se sentir amparada por eles, ela terá uma boa estima de si e irá crescer melhor, pois está sendo vista, ouvida e considerada".

Diante do contexto e da importância do outro, Sandra Cabral enfatiza que é preocupante pensar a resiliência em uma pessoa "ativando" sozinha sua capacidade de recuperação. "A pessoa perdeu a conexão com o mundo, que é um só (não podemos separar o biológico, o psicológico e o emocional, pois tudo acontece ao mesmo tempo em nós) e precisa de ajuda. Se é mantido esse discurso de que a resiliência é a própria capacidade de recuperação, sente-se vergonha de não ter esse recurso interno. Mas se há clareza de que esses recursos internos não nasceram com a gente e foram produzidos com as pessoas em torno de nós, isso facilita a pedir ajuda", finda.

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