Tratamento

A pele memoriza as emoções

00:50 · 04.06.2013
Há casos em que as patologias psiquiátricas geram alterações na pele, como em pessoas com esquizofrenia ou psicose maníaco-depressiva. O dermatologista Heitor Gonçalves diz que o quadro pode levar à tricotilomania, quando o paciente arranca cabelos da cabeça, das pálpebras e das sobrancelhas; também à escoriação neurótica, caracterizada por machucar a pele; e à dermatite factícia, gerada pela queima da pele com cigarro e outros materiais.

Na psicoterapia, doenças de pele e alergias, sem um elemento desencadeador, pode sugerir carência de afeto na primeira infância Foto: natinho Rodrigues

Outro relação pele-cérebro é observada na qualidade do sono. A pele regula a temperatura do corpo, eliminando calor à noite. Se ocorre uma perda dessa função, pode-se provocar a insônia em função do aumento da temperatura. A desordem dessa relação pode gerar problemas como psoríase e prurido.

Qualidade das relações

A associação pele e emocional é representada mais fortemente em ocorrências onde há melhora das doenças de pele em decorrência ao tratamento psiquiátrico medicamentoso. É o caso, por exemplo, de medicação para o tratamento de coceira, dor aguda no nervo da pele, herpes-zóster.

Também são registradas alterações psicológicas - desencadeadas ou amenizadas - por algumas doenças de pele.

"Um exemplo são as pessoas que tiveram um estresse emocional que promoveu a crise. Geralmente, ocorre em psoríase, vitiligo, dermatite seborreica, infecções virais como herpes, dermatite atópica (ou eczema atópico, processo inflamatório crônico) e urticárias", explica o médico.

A pele também reflete a qualidade das relações do indivíduo. Em seu livro "Quando a boca cala, os órgãos falam", Adalberto Barreto enfatiza: "Quando recebo em psicoterapia pessoas com alergias ou problemas na pele, cujos exames não identificaram nenhum elemento desencadeador, conduzo meus questionamentos à relação com a mãe. Em geral, são pessoas que não tiveram colo de mãe na primeira infância, não tendo registros de carinho na pele".

O autor destaca que problemas de pele - nesses casos - podem denunciar carência de afeto. De uma forma ambivalente, o corpo deseja suprir essa carência, mas a pele afasta qualquer contato devido aos seus problemas. "Ao mesmo tempo que desejamos nos aproximar, inconscientemente nos afastamos do objeto desejado com o meio ambiente", evidencia o psiquiatra.

As doenças epiteliais funcionam como um liberador de tensões relacionais, que pode "informar" o problema de modo preciso, dependendo da localização da doença. "Eczemas, micoses, vitiligo, psoríase, pústulas, botões (elevações avermelhadas), falam de nossas dificuldades relacionais e interativas com o meio ambiente", ressalta Adalberto.

Por isso, a atuação integrada (dermatológica, psicológica ou psiquiátrica) é fundamental. "O dermatologista capta essa influência bilateral da pele com o sistema nervoso por meio da consulta. A partir daí há o direcionamento para o psicólogo ou psiquiatra. Quando inicia outra fase; o entendimento dessas relações da pele com o sistema nervoso. Para garantir a melhora, o tratamento e direcionamento adequados, é vital o acompanhamento de um médico", encerra Heitor Gonçalves.

Dermatoses

1/3 dos pacientes com dermatoses tem algum problema psicológico ou psiquiátrico, pois há relação da pele com o sistema nervoso, o autônomo e o central

Consciência

"Se a doença compromete o caráter estético, pode gerar alterações comportamentais ou uma depressão"
Heitor Gonçalves
Dermatologista

"Ir além das dimensões físicas e auscultar a linguagem simbólica de nossas dores, exige um esforço pessoal constante"
Adalberto de Paula Barreto
Psiquiatra

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