Coração

A mulher é o sexo frágil, sim!

00:58 · 18.06.2013
Com grande força social e acumuladoras de tarefas, as mulheres são alvos de doenças cardiovasculares

Sabe-se que as doenças coronarianas são mais prevalecentes nos homens. No entanto, esse quadro se iguala na fase em que as mulheres atingem a menopausa, chegando a incidir até mais nelas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte de mulheres acima de 50 anos.

A mudança decorre do estrogênio, hormônio que por muitos anos protege a mulher das doenças cardiovasculares, já que reduz a quantidade de gordura que circula no sangue e ajuda a manter o colesterol e os triglicerídios em quantidades menores do que nos homens. Quando a mulher entra na menopausa, ela perde o estrogênio e seu quadro modifica. É o que revela a cardiologista com formação psicossomática, Márcia Holanda, coordenadora do Departamento de Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Câmara Técnica de Cardiologia do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec), e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia no Ceará.

"As mulheres na menopausa são mais hipertensas e sofrem acidente vascular cerebral (AVC) com incidência de 1 a 1 em relação aos homens. Não se está dando a devida atenção ao coração da mulher. Na época da minha avó, as mulheres não tinham doenças cardíacas, porque morriam com 40 a 45 anos. Hoje, uma mulher com 50 anos entra na menopausa e continua com o ritmo de vida que sempre teve, exercendo diversas funções de mãe, pai, doméstica, profissional, etc, o que gera problemas", esclarece.

A cardiologista ainda reforça que as doenças cardiovasculares na mulher são ainda mais graves, em decorrência à anatomia frágil, com artérias mais finas e tortuosas. Diferente das artérias masculinas que se apresentam com um calibre mais grosso. Por isso, até os sintomas mudam e a atenção deve ser redobrada.

"O homem tem dor no peito ou no braço como sinais de infarto. Já a mulher, cansaço e falta de ar. Isso exige um tratamento mais cauteloso, sem negligenciar nenhum sintoma de falta de ar e mal estar, por exemplo, pensando que o problema é gastrointestinal ou da menopausa. Pode ocorrer dela apresentar os sintomas clássicos das doenças do coração, mas deve-se observar qualquer sintoma".

O famoso churrasco do domingo acompanhado por bebida alcoólica é um hábito prejudicial a todos, mas ainda mais para a mulher, segundo Márcia Holanda. "A mulher tem que se comportar diferente do homem, porque ela é diferente. A anatomia, a musculatura, a biologia, e principalmente o sistema hormonal, que é o grande divisor em relação aos sexos".

Ritmo de vida

Quanto às doenças cardiovasculares em geral, que englobam pressão, vasos sanguíneos cerebrais e coração, a médica afirma que é a primeira causa de morte no mundo, inclusive no Brasil. O AVC se encontra no topo entre essas enfermidades, seguido pela doença coronariana, o infarto.

Há fatores comportamentais que justificam a posição do AVC como a patologia de maior ocorrência, a hipertensão arterial, sua principal causa. São 30% de qualquer população: mundial, brasileira ou cearense que representam a porção hipertensa. Além do alto número, ainda há o agravante de tratarem de forma pontual, sem buscar um tratamento completo. "Como é uma doença silenciosa, cujos sintomas não são aparentes, a hipertensão não é tratada de maneira correta. Geralmente, a pessoa toma um remédio somente quando a pressão está alta", diz Márcia Holanda.

Já o infarto agudo do miocárdio, sendo a segunda patologia mais acometida no mundo, possui diversas causas inerentes à sociedade contemporânea. São elas: colesterol elevado, hipertensão, diabetes, sedentarismo, estresse, tabagismo, álcool, entre outros. "É um conjunto de fatores que vão gerar as doenças coronarianas, mas estes são os mais detectados", destaca.

As consequências do uso do anticoncepcional é um fator à parte. Segundo Márcia Holanda, o anticoncepcional favorece o infarto e o AVC. "Uma mulher, com sobrepeso, hipertensa, fumante, que gosta de beber e ainda toma anticoncepcional, pode-se dizer que ela está em situação de risco", alerta. E acrescenta que, devido a esse comportamento, é comum encontrar mulheres jovens com AVC. "Se ela for geneticamente predisposta ou se já tiver sido acometida por um infarto, a solução é usar outras medidas contraceptivas".

Emocional

Contudo, une-se aos elementos comportamentais decorrentes da modernidade, o aspecto psicológico. A cardiologista ressalta que a depressão e a ansiedade são fatores de risco independentes para a doença cardiovascular. Diferente das outras causas, que juntas podem provocar o infarto por exemplo, a depressão é suficiente para levar uma pessoa a ter alguma doença do coração. "Você pode fazer tudo corretamente, mas se tiver depressão ou ansiedade estará propenso a ter doenças cardiovasculares. E um paciente nessa situação terá mais complicações durante e após a doença em ambos os sexos".

A solução é prevenir-se. Uma família com histórico de doenças cardíacas deve cuidar de suas crianças desde o início da vida. Praticar exercícios, manter uma dieta saudável, buscar o clínico geral ou cardiologista regularmente, principalmente após os 18 anos de idade, para verificar as taxas de colesterol, glicose e pressão. "O paciente não pode esperar que aconteça o sintoma, porque, na cardiologia, as doenças são silenciosas. E, na maioria das vezes, o AVC é apenas uma ponta do iceberg, como o infarto também", encerra a médica.

FIQUE POR DENTRO

A dor que aparece antes do infarto

A angina é um sintoma da doença coronariana, a fase anterior ao infarto, caracterizada pela dor consequente da obstrução das artérias que conduzem o sangue ao coração. O sangue passa pela via sanguínea com dificuldade, porque a artéria se encontra estreita ou oprimida. Essa obstrução pode ser mecânica, por causa de uma placa de gordura ou de coágulo formada na artéria; ou ainda funcional, devido a um espasmo (vasoconstrição).

Ambos os casos podem evoluir ao infarto. Para evitá-lo, o tratamento do sintoma e o acompanhamento do cardiologista ou do clínico geral são indispensáveis. O tratamento da angina é feito por meio de medicação específica, mas há quadros que necessitam de métodos de intervenção como a angioplastia (dilatação da artéria obstruída) com ou sem stent, e a ponte de safena e mamária.

SAIBA MAIS

Olhar o ser humano como um todo:

Um ser bio-psico-social- espiritual. Um ser saudável é aquele que mantém esses aspectos equilibradamente. Essa é a proposta da Cardiologia Psicossomática empregada por Márcia Holanda em seus pacientes e pelos especialistas que seguem essa formação. Para ela, não se pode analisar alguém apenas com base no colesterol, a pressão arterial e pronto. É preciso saber como está a vida do paciente, qual contexto ele se encontra e como se percebe diante disso. A cardiologista explica que, dependendo desses fatores, o estado do coração pode piorar ou melhorar. Uma briga com o marido, uma desavença no emprego, enfim, o que altera a emoção, atinge o coração por sua vez. "O coração representa emoção e vice-versa, relação em que um afeta o outro. Um órgão simbólico como este não nos permite separar do todo, o corpo, e avaliá-lo à parte. Sou cardiologista de uma pessoa e não de um corpo", revela Márcia Holanda.

Vicky Nóbrega
Especial para o Vida

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.