CUIDADOS

A inteligência do corpo

21:16 · 18.06.2011
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Cristiano Bezerra admite ter escolhido o Ioga há 15 anos por precisar devido ao seu tipo acelerado e "avoado"
Cristiano Bezerra admite ter escolhido o Ioga há 15 anos por precisar devido ao seu tipo acelerado e "avoado" ( FOTO: ARQUIVO )
O psiquiatra Augusto Cury revela que de nada adianta cultivar o conhecimento e a inteligência sem empregá-los de forma apropriada. Foi exatamente o que fez a professora do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará, Thaís Gonçalves. Tão logo foi aprovada no concurso para o mestrado, tentou organizar seu tempo e compromissos profissionais.

Com a impossibilidade de ajustar horários, largou o trabalho de jornalista no Diário do Nordeste (sua segunda carreira) e se matriculou de imediato na aula de Ioga. Sabia que seu percurso de estudo, pesquisa e escrita seria longo e, por ter que permanecer muito tempo sentada, decidiu cuidar de seu corpo, com o intuito de estar equilibrada e facilitar sua concentração mental.

Assim mesmo, dores na região cervical apareceram logo nos primeiros meses e a levaram a procurar um especialista em São Paulo, suspeitando tratar-se de problemas de ATM. O diagnóstico do ortodontista foi preciso, esclarecendo que muitas pessoas chegam a operar a mandíbula para tentar aliviar as dores de cabeça, sem sucesso - em boa parte dos casos, trata-se de outra questão mais global.

Retornando a Fortaleza, Thaís achou por bem redobrar seus cuidados com o corpo, iniciando sessões de acupuntura, terapia manual e holfing com bons profissionais. E como foi sempre muito atenta ao corpo devido à sua formação em dança, ao trabalhar a dança em escolas públicas, procurou relacionar suas áreas de interesse dentro de uma perspectiva do vivido, ou seja, "dançar pensando ao pensar dançando", pois acredita que pensamento e corpo não estão dissociados, uma vez que se articulam e reordenam-se cotidianamente, assim como a vida. "O corpo pensa experimentando e, ao experimentar, pensa", diz a professora da UFC, reforçando que não há separação entre mente e corpo.

Estudos que vêm se desenvolvendo mais fortemente a partir da virada do século XX têm apontando que não há como dividir corpo e mente, a exemplo da Educação Somática e de alguns estudos filosóficos (Espinosa 1632 - 1677). Um modo de entender o corpo que vai de encontro ao entendimento cientificista ocidental que o hierarquiza em suas partes (ou órgãos). E, ao se fracioná-lo em fragmentos, já se estabelece um conflito próprio de nossa cultura ocidental, que tende a trazer tudo para a racionalidade da mente lógica.

"Em nossa cultura, a mente é privilegiada em detrimento aos outros modos de sentir e perceber". As sensações e aquilo que é da ordem do intuitivo, dos sentimentos, sempre ficam à parte, prevalecendo o pensamento racional. Praticamente, todos nós fomos educados assim, menosprezando as sensações do corpo, diz Thaís.

Quando sucede uma dor intensa e o corpo grita, muita coisa está tentando ser processada e precisando ser expressa por outros modos que não pelo pensamento exclusivamente racional.

Dores de cabeça

Thaís conta que dores de cabeça intensas a acompanharam ao longo de muito tempo, seja quando passava por um aborrecimento ou algo acontecia que a afetava emocionalmente e não sabia bem como lidar. A enxaqueca a fez suspeitar de distúrbio na ATM e se prolongava quando não oferecia ao seu corpo uma atividade regular.

A conexão entre uma dificuldade de respirar com a sensação de desconforto que o corpo sinalizava, explica, já lhe fornecia uma perspectiva diferenciada da própria dor quando se colocava em movimento, procurando descontrair uma musculatura, abrindo novos fluxos de energia e de oxigenação em seu corpo, o que produzia um outro modo de se perceber no mundo.

"O corpo costuma ser visto pela ciência como biológico, humano. Só que não pode ser restrito, limitado, hierarquizado, como em um organograma de empresa, onde a cabeça é entendida como o diretor ou chefe e o restante do corpo, seus subordinados. Trata-se de um corpo que afeta e é afetado por outros corpos, podendo estes corpos serem também compreendidos como a presença de um cão, uma árvore, uma estrela e o que o encontro desses corpos produzem em mim enquanto sensações, alegrias, pensamento".

A academia já tem ampliado as percepções em relação ao entendimento de corpo de forma a sair do foco de um corpo orgânico, corpo que foi delimitado e "dominado" pela ciência. Pois é no corpo a corpo com o mundo, que se consegue entender esse corpo sobre outros aspectos que não só o biológico, racional e guiado pela mente. E sim em uma relação com o mundo, desierarquizando as partes que constituem esse corpo e, ainda, afetando e sendo afetado. Trata-se de uma relação ampliada por outras perspectivas, com uma percepção mais abrangente do que partes que o constituem.

A própria visão do Ioga busca conectar diferentes modos de se sentir e de perceber-se no mundo, aliando atividade física e meditação, articulando esse corpo em todas suas diferentes dimensões: física, psíquica, emocional e espiritual (sutil).

Dispersão

A prática do Ioga é uma, dentre tantas formas, de aquietar a mente, a fim de desacelerar o processo contínuo de produção de pensamentos. Como esclarece a jornalista e especialista em coach, Harriet Griffey, em "A Arte da Concentração" (Ed. Larousse), a dificuldade de as pessoas sentarem para fazer algo, e se concentrarem na tarefa que estão fazendo, seja ler um livro, assistir um programa de televisão ou preparar uma refeição, é enorme.

A distração sucessiva por pensamentos intrusos, telefonemas ou acontecimentos ao redor, leva as pessoas a perderem a qualidade do foco de atenção naquilo que estão fazendo. Interrupções contínuas, avisa Harriet, afetam a inteligência. A quantidade enorme de tarefas por fazer deixa claro que, sem perceber, todos vão assumindo um ritmo de vida frenético, deixando de priorizas coisas tão importantes quanto trabalho e ocupações corriqueiras.

O resultado disso é mais estresse, aumento de distúrbios mentais, crianças e jovens com mau comportamento ou hiperativos, fadiga, problemas físicos (obesidade, artrite) e comportamento frenético. O que afeta sobremodo os relacionamentos, a começar consigo mesmo.

O reconhecimento do elo corpo-mente é essencial para o coletivo dar uma nova resposta ao desafio da SPA. Harriet cita o conhecido psiquiatra francês David Servan-Schreiber, que afirma termos três dimensões no cérebro, sendo o emocional o responsável por controlar tudo o que governa o bem-estar psicológico, bem como o que governa grande parte da fisiologia do corpo (das condições em que operam o coração à pressão sanguínea, os hormônios, o sistema digestivo e o sistema imunológico).

Ele confirma que para o bem-estar emocional é fundamental uma prática física, maximizar o consumo de ômega-3 (sardinha, salmão, semente de linhaça), lidar bem com memórias dolorosas, acordar com o sol (manter horário bem regular de sono), praticar o controle de coerência cardíaca e buscar uma conexão maior com a vida, sobretudo no contato com os outros seres e a natureza. E faz uma séria advertência, para ninguém chegar ao ponto de exaustão e colapso para fazer escolhas saudáveis.

O instrutor e produtor de eventos de Ioga, Cristiano Bezerra, comenta ser há 15 praticante desta técnica milenar. Admite que foi graças ao autoconhecimento exigido pelo Ioga que conseguiu mudar algumas rotinas prejudiciais à sua tranquilidade mental, como ficar até tarde da noite trabalhando no computador.

Assumindo ter um padrão mental de dispersão mental e dificuldade de fazer uma coisa só de cada vez, Cristiano, após estudar a Ayurveda (ciência milenar, irmã do Ioga) passou a compreender mais sobre a natureza de sua mente.

Os doshas, ou três princípios que governam o funcionamento das células do corpo e da mente (Pitta, Vata e Kapha) e se apresentam como padrões (em uma tradução literal, "defeitos") ou tendências, sinalizam muito os desafios de cada um. Kapha, cobrindo a infância e juventude, reporta a uma constituição e aterramento. Já Pitta segue a fase adiante da vida, quando surge a necessidade de empreendedorismo e realização. Finalmente, Vata alcança a maturidade e o processo de dispersão, esquecimento e alheamento do envelhecer. Estes três padrões são mesclados em cada indivíduo, muitos apresentando alguns de modo deslocado, como Cristiano, que se considera Vata-Pitta, com níveis de dispersão e realização.


MAIOR CONCENTRAÇÃO

Exercícios de respiração;
Coerência cardíaca;
Meditação; busca da atenção plena;
Tai Chi Chuan;
Técnica de Alexander;
Esportes e exercícios físicos;
Ioga;
Pilates;
Natação;
Caminhada;
Sexo.

(Fonte: Harriet Griffey em "A arte da concentração" - Editora Larousse)


LANÇAMENTO

Aprenda a ler em ritmo reflexivo
EDITORA OCTAVO, 2011
R$ 37
128 PÁGINAS

"A leitura lenta de um livro leva a uma relação mais profunda com as suas histórias e ideais. Quando leio um livro lentamente, ele continua me influenciando mesmo depois de passados anos", diz John Miedema, cuja obra é parte do processo para obtenção do título de mestre em Biblioteconomia e Ciência da Informação (Universidade de Ontário Ocidental). Ele recomenda: "Leia o livro inteiro, capa e prefácio, notas de rodapé e apêndices. Saboreie as ilustrações e não ouse saltar a poesia. Subvocalize as palavras ou lei-as em voz alta. Volte atrás e releia trechos. Discuta com o livro. O que ele apresenta, se comparado com a sua experiência? Qualquer escolha deliberada que o faça desacelerar é um acréscimo à riqueza da sua leitura (ela - a leitura - é a construção de um eu mais profundo".


ENTREVISTA

Respiração lenta (profunda) e contemplação ajudam a acalmar a mente

Como observa a Síndrome do Pensamento Acelerado?

É o diagnóstico de um distúrbio psico-emocional que é caracterizado por uma disfunção mental, cujo comportamento prejudica a vida cotidiana: como memorizar, habilidade do aprendizado; repouso e relaxamento; interação com o ambiente e com as pessoas ao redor; dificuldade de manter relacionamentos satisfatórios e duradouros; déficit imunológico; déficit no crescimento; envelhecimento precoce; dificuldade de desenvolver habilidades e manutenção de uma profissão; disciplina e ordem, além de insatisfação constante; frustrações que levam a desenvolver uma série de vícios e manias.

Em sua opinião como as crianças estão susceptíveis às manifestações do pensamento acelerado?

A criança é fruto do meio onde foi gerada e criada, portanto, pais doentes geram filhos doentes; os comportamentos dos pais disparam em seus filhos os mesmos hábitos e manias. A melhor educação para seus filhos não se encontra em livros ou teorias, mas sim, numa conduta saudável, feliz e equilibrada.

A quantidade de tarefas e ocupações são responsáveis pelo aumento do quadro da SPA?

Hoje a vida na cidade grande é cheia de exigências sociais, religiosas, familiares e de tarefas mais de 12 horas por dia, sem contar com poluição alimentar, auditiva, visual e emocional.
Os médicos e jornalistas são descritos pelo como os profissionais mais propensos à SPA.
Todas as pessoas na atualidade estão sujeitas ao estresse que leva à Síndrome do Pensamento Acelerado.

Você inclui a respiração na sua prática médica. Como ocorre a alquimia da respiração? As crianças e jovens podem praticá-la com qual frequência?

Hoje, a saída do SPA é encontrar meios que desacelerem o pensamento para, assim, entrar na ordem e relaxamento.

Quais seriam algumas das formas para desacelerar?

A respiração lente e profunda por 30 minutos num local calmo, fresco e silencioso é uma das formas de desacelerar o pensamento. A contemplação de coisas belas: natureza, água, fogo, praia, pisar na areia, banhos frios três vezes ao dia. Tudo isto ajuda acalmar e repor as energias gastas pela série de pensamentos acelerados e ruidosos.

No workshop que está promovendo sobre "Alquimia da Respiração" (com Dhwani) há um cuidado com a alimentação, respiração e outras práticas. Até que podem facilitam a aquietação da mente e a desaceleração?

Atualmente faço um trabalho com adultos e crianças para encontrarem o relaxamento e calma evoluindo com mudanças na conduta diante da vida, trazendo a alegria, a paz e a saúde física mental e emocional. Basicamente é uma técnica de abordagem gentil, sutil e amorosa resgatando a felicidade de viver plena e relaxadamente. Acompanho grupos mensalmente para se tornarem facilitadores desta maravilhosa técnica. Dhwani a mestra da Alquimia da Respiração vem de Curitiba nos oferecer um aprofundamento duas vezes no ano. Nosso grupo estará na serra de Guaramiranga, no período de 23 a 26, quando aprimoraremos mais nossa técnica. Teremos a alimentação vegetariana e orgânica fornecida pela nutricionista Rose Chamma.


Verônica Maria Porto Freire (*)
Médica, especialista em respiração

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